Raça, Etnicidade e Política

Resumo

O objetivo desta área temática é abrigar e induzir reflexões em torno da dimensão política das desigualdades e discriminações raciais e étnicas. Embora tenha sido central na fundação da Sociologia e da Antropologia, a temática não se constituiu em uma agenda de pesquisa da Ciência Política brasileira, ocupando um lugar marginal em seu interior. Contudo, o fortalecimento dos movimentos étnicos durante a redemocratização do país, o reconhecimento da autonomia de certas comunidades tradicionais sobre seus territórios de origem, o advento de políticas de ação afirmativa no início do segundo milênio e a crescente politização do debate público em torno das desigualdades raciais trouxeram o tema da raça e da etnia para o centro do debate acadêmico brasileiro. Diante disso, além de incorporar as investigações sobre as questões étnicas e raciais já existentes na Ciência Política, esta área temática visa induzir pesquisas sobre elas que, apesar de ainda incipientes, vêm crescendo em volume e em relevância política no Brasil e no mundo. Dentre os subtemas de interesse da área temática, incluem-se as pesquisas sobre raça e etnia em sua interface com movimentos sociais, debate público, construção da cidadania, políticas públicas, representação política, mídia, relações internacionais etc.

Justificativa

As patentes desigualdades raciais brasileiras foram objeto de interesse prioritário das Ciências Sociais desde a sua fundação. No entanto, a Ciência Política foi historicamente uma exceção a essa regra. Embora alguns dos fundadores da disciplina tenham ensaiado algumas reflexões sobre os efeitos propriamente políticos de nossas desigualdades e discriminações raciais ainda na década de 1960, tal agenda de pesquisa nunca vingou na disciplina. Diferentes hipóteses podem ajudar a explicar este fato como a histórica apologia de uma suposta harmonia racial no país e seus efeitos sobre a disciplina, a perseguição constante a qualquer movimento que buscasse politizar a questão racial e a consequente ausência desses grupos da academia, ou a inexistência de variáveis como raça e etnia nos levantamentos e bancos de dados mais utilizados pela Ciência Política. Desde a década de 1980, contudo, esse cenário vem se modificando. Além da rearticulação política do movimento negro e da consequente crítica à hegemonia do discurso nacionalista da democracia racial, o Estado brasileiro passou a adotar algumas medidas de inclusão étnica e racial em diversas áreas como o ensino superior e os concursos públicos. Tudo isso contribuiu para uma crescente politização do debate público em torno de nossas discriminações e desigualdades étnico-raciais. Diante disso, torna-se fundamental que a ABCP acompanhe esse movimento histórico e traga para o conjunto da disciplina temáticas relacionadas às questões étnicas e raciais. A criação de uma AT dedicada ao tema é um passo crucial nesse processo.