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Comunicação Política e Opinião Pública

Resumo

De modo geral, focaliza as questões teóricas e empíricas decorrentes da relação política fundamental entre mídia e democracia. Acolhe estudos nas várias interfaces entre comunicação e política, abrangendo, entre outros temas: Comunicação estratégica e campanha eleitoral; Comunicação institucional e imagem pública; Opinião pública e comportamento político; Jornalismo político; Tecnologias da comunicação e política.

Justificativa

Os estudos na interface entre comunicação e política vêm ganhando, na área de Ciência Política, espaço compatível com a importância crescente da comunicação para os vários aspectos da política. Afinal, é difícil pensar, hoje, os temas clássicos da disciplina – partidos políticos, relação entre poderes, entre Estado e cidadãos, entre nações, cultura política e opinião pública, representação e deliberação, por exemplo – sem encontrar implicações para os estudiosos da comunicação política. Esta AT procura trazer este debate atual, essencialmente interdisciplinar, para dialogar com a área, congregando número significativo de pesquisadores sediados em diversos Programas do país, em CP e em áreas afins. Criada em 2008 sob coordenação de Marcus Figueiredo, a AT veio atender à demanda deste grupo, já institucionalizado em outros fóruns como a ANPOCS e COMPÓS, e que cresce com a incorporação de novos pesquisadores discentes e professores doutores, como demonstra a procura nos Encontros da ABCP desde a fundação da AT.

SP19 | Pôsteres

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 13:00

Coordenadores

Fernando Antônio Azevedo (UFSCar - Universidade Federal de São Carlos)

Debatedores

Fernando Antônio Azevedo

Apresentações

Blogs jornalísticos e o “escândalo político” da Lava Jato: a opinião publicada e sociabilidade política no Facebook

Blogs são plataformas narrativas cujo ambiente de interação tem como base os hyperlinks. O desenvolvimento de outras plataformas digitais como a rede social Facebook ampliou a capacidade de difusão da informação por meio das interações horizontais. Ao conectar o nicho dos blogs às páginas e perfis dos usuários dessas redes, houve um deslocamento na deliberação e também na demonstração de preferências na relação emissor-receptor. O escândalo político é um padrão de informação que vem se consagrando como emblemático nas democracias contemporâneas, sobretudo pelo desenvolvimento midiático que alterou a relação entre os envolvidos na transgressão e os espectadores. Nesse contexto, busca-se entender a interação que se estabelece entre o blogueiro jornalístico e seus leitores, a partir dos pressupostos da teoria social de escândalo de John Thompson e do conceito de “opinião publicada”. Como objeto do trabalho serão observadas as interações do blog Reinaldo Azevedo, tanto no seu sítio quanto na página do blog no Facebook, nas postagens relativas ao escândalo de corrupção da “Lava-Jato”. Através da netnografia, se observará o volume de compartilhamento, os comentários no blog, e nas publicações do Facebook. Um perfil das postagens do blogueiro e também dos comentários relativos ao escândalo em estudo serão, por fim delineados.

Alessandra Cristina Gaia Bastos
A análise da construção da imagem do Judiciário brasileiro durante a cobertura do "Mensalão" pelo Jornal Nacional

A televisão é o principal meio de comunicação de massa no Brasil, por isso têm influência sobre a população diretamente através de sua programação. Se a centralidade da mídia aparece como parte importante da comunicação brasileira, a profissionalização e o desenvolvimento da mídia comercial devem acompanhar tal movimento, onde os telejornais se tornam centrais na formação da opinião pública. A construção da imagem por meio de tais programas se torna significante neste contexto, trazendo a importância de analisar a imagem construída de instituições e atores. O caso do “mensalão” obteve grande destaque da mídia e alcançou espaço na agenda dos telejornais, evidenciando atores que nunca haviam recebido tal cobertura, como os ministros do Judiciário brasileiro e o STF como instituição.
Apesar das quedas de audiência, a Rede Globo ainda é a emissora com mais público no Brasil tendo entre seus principais programas, o Jornal Nacional, fonte de informação de diversos brasileiros. Portanto, o objetivo dessa pesquisa é analisar a construção da imagem do Judiciário brasileiro na cobertura do “mensalão” pelo JN da Globo. Serão usados os programas do JN exibidos durante o julgamento do “mensalão” e que correspondem ao início do julgamento, até a discussão sobre a dosimetria das penas.

Laura Arantes Gobbi
Mídia eleitoral e gênero: uma análise sobre a temática de gênero nos discursos de campanha de Dilma Rousseff na Propaganda Eleitoral Gratuita, em 2010 e 2014

Entre as diversas estratégias de campanha política, o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) é uma ferramenta que tem se destacado nas disputas, constituindo-se com um dos principais elementos que influenciam na intenção do voto. Assim, este trabalho apresenta uma análise dos programas veiculados em televisão no HGPE nas campanhas de 2010 e 2014, da então candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff. O objetivo da pesquisa é indicar o posicionamento de imagem e analisar as formas sob as quais a candidata mobiliza a temática de gênero em seus discursos. Para isso, foram avaliados os programas de televisão dos primeiros turnos dos dois últimos anos de competição. As questões que orientam o trabalho são: “Como as pautas e agendas que abordam a temática de gênero são acionadas?”, “O gênero é um tema estratégico para a candidata?” e “O que mudou ou permaneceu de 2010 para 2014?”. Com isso, pretende-se investigar os principais temas abordados pela candidata e apontar o direcionamento da campanha em relação à perspectiva de gênero. Ou seja, qual foi o tratamento dado à pautas e agendas feministas/femininas.

Aline Lopes
A contra hegemonia das imprensas brasileira e venezuelana

A teoria gramciana afirma que os meios de comunicação são aparelhos privados da hegemonia cuja função é garantir a organização intelectual e moral da sociedade a fim de se obter um consenso em relação à ideologia dominante. A mídia brasileira é caracterizada por sua postura conservadora e opinativa, frente ao debate político nacional. No governo Lula seu posicionamento claramente opositor chegou ao ponto de ser considerado um “Partido da Imprensa Golpista”. Na Venezuela, por sua vez, a mídia consolidou-se como porta-voz da oposição ao chavismo e protagonizou uma tentativa de golpe. O objetivo desse trabalho é, a partir do conceito de Gramsci de hegemonia, analisar as atuações da mídia brasileira e venezuelana em detrimento de seus posicionamentos políticos.

Gabriela Pandeló Paiva
Vozes do Twitter no Debate da Redução da Maioridade Penal: Análise dos posicionamentos de perfis sobre a PEC171

O trabalho objetiva entender qual a atuação do Twitter no contexto da redução da maioridade penal nos dias 01 a 03 de julho de 2015, período da segunda votação da PEC 171 na câmara dos deputados. Foram selecionadas cinco hashtags, sendo duas favoráveis, duas contrárias e uma neutra. A partir dos fundamentos da teoria deliberativa, pretendeu-se investigar quais tweets foram mais retweetados, quais foram os usuários mais atuantes em relação a essas postagens, entre outras análises. Como metodologia, adotou-se análise de conteúdo, fez-se uso do softwear de coleta e análise de dados Nvivo, além da categorização de fontes a partir da análise de Arthur Ituassu (2015). Entre os resultados verificou-se que, na maioria dos casos, as vozes especializadas (mídias de nicho, para públicos específicos) apareceram em hashtags contrárias à PEC 171, enquanto que a maior parte das vozes não especializadas apareceram nas hashtags a favor da redução, na hashtag neutra predominaram postagens de portais de notícias. Notou-se, também, que o conteúdo dos tweets com maior número de RTs variou entre links de matérias contrárias à redução da maioridade penal e opiniões pessoais dos perfis. Assim, as análises desse debate se mostraram significativas as mudanças de fluxos de informações na contemporaneidade.

Amanda Matos de Luna

SAT41 | Campanhas presidenciais, emoção e discurso político

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 13:45

Coordenadores

Fernando Antônio Azevedo (UFSCar - Universidade Federal de São Carlos)

Debatedores

Vera Chaia (PUC-SP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Apresentações

Informação política, Campanha Negativa e Eleições: O conteúdo das campanhas presidenciais de 2010 no Twitter

O provimento de informação política qualificada é o principal gradiente do princípio da igualdade objetiva nas democracias modernas. E são em períodos de disputas eleitorais que se registram os maiores níveis de atenção pública a informações de caráter político, sendo as campanhas políticas, ao lado das coberturas jornalísticas, os dois elementos centrais no provimento de insumos informativos que se tornam temas, assuntos e pautas de debates, discussões e conversações políticas na esfera pública. No entanto, como é de vasto conhecimento no campo da ciência e da comunicação políticas, em períodos eleitorais há uma predominância de informações e notícias que privilegiam a cobertura no estilo “horse race” em detrimento da abordagem de questões políticas de caráter mais substancial e didático, como projetos, planos de governo, posicionamentos políticos, propostas, etc.
A razão para a existência de tal fenômeno pode se explicar por uma série de variáveis. No campo jornalístico, o fato se explicaria em razão do modelo de negócio comercial de produção da notícia que privilegiaria narrativas com maior apelo às emoções do público, tal como a disputa por posições nas sondagens das predileções dos eleitores ou de embates retóricos entre candidatos e membros de partidos, com acusações, desqualificações, ofensas, gafes, etc. No que diz respeito às campanhas políticas, o problema estaria na interface necessária com a comunicação de massa. Partidos e candidatos, por necessariamente terem que se adequar às lógicas de produção e gramática da comunicação de massa, acabariam por ser enquadrados segundo os princípios e necessidades do jornalismo industrial ou sofreriam com as constrições de tempo e espaço disponíveis para que se auto representarem no rádio, na televisão ou em veículos impressos. A consequência, portanto, seria da priorização do tratamento de temas e questões menos substantivas em termos políticos que apelem menos para o exame racional de questões políticas do que para as emoções e afeto do público.
Este artigo se concentra no segundo lócus desse fenômeno: a comunicação das campanhas políticas. Mais especificamente, na interface entre campanhas e a comunicação digital, tendo em vista a qualidade das informações produzidas e distribuídas por candidatos a presidente do Brasil em 2010. Se, por um lado, o único espaço de comunicação massiva disponível para que a política, de fato, se se auto represente é Horário Político de Propaganda Eleitoral em rádio e televisão, é razoável considerar o argumento de que constrições de tempo e espaço sejam as razões legítimas para que questões substantivas não sejam abordadas em maior escala, frequência e profundidade. Por outro lado, é igualmente razoável admitir que, uma vez de posse do controle de seus próprios canais de comunicação, campanhas podem definir suas prioridades e, assim, melhor esclarecer seus eleitores (e potenciais eleitores) acerca de suas posições, projetos e planos de governo. Numa perspectiva democrática mais abrangente, os canais digitais de comunicação podem ser considerados potenciais remédios para o déficit da racionalidade da democracia em sociedades massivas e contemporâneas. Campanhas políticas podem, mediante o uso de meios digitais, contribuir para a qualificação do debate público e, consequentemente, da opinião pública, mediante o provimento de informações que priorizem o esclarecimento e tratamento aprofundado dos projetos políticos que representam.
Partindo das premissas expostas, este trabalho se propõe uma discussão teórica acerca do princípio da igualdade objetiva e da racionalidade da democracia e sua relação intrínseca com o provimento de informações, particularmente aquelas produzidas e distribuídas por campanhas políticas em ambientes digitais. Foram selecionadas para análise 3.578 tweets publicados nos perfis oficiais dos três principais candidatos à presidente do Brasil em 2010 (José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva), compreendendo os períodos de disputa do primeiro e segundo turnos da eleição presidencial. Todas as mensagens analisadas foram classificadas utilizando 12 categorias que permitiram identificar o teor das mensagens e, portanto, aferir quais foram as prioridades das três campanhas na relação com seu público no Twitter.
Por se tratar dos objetos “campanhas políticas” e comunicação digital – esta última representada pela plataforma Twitter – este artigo também pretende verificar quais categorias de mensagem possuem maior adesão pública entre os usuários do Twitter que seguem os perfis dos três candidatos. Para tanto, foram analisadas quais os tipos de mensagens que mais estimularam esses usuários a reproduzir conteúdos de campanha em seus perfis, para seus seguidores..
Em linhas gerais, embora o Twitter ofereça total liberdade para que campanhas explorem os temas que julgarem mais importantes para seus eleitores e, assim, contribuirem para o maior esclarecimento do público acerca dos pilares das candidaturas que representam, as três campanhas analisadas não privilegiaram o provimento de informações sobre planos de governo, projetos ou posicionamentos frente à temas e questões de interesse público. De um modo geral, reproduzem a tendência verificada nos padrões de campanha em rádio e televisão, com maior ênfase em mensagens voltadas à “exibição de capital social”. No que tange à adesão pública a esses conteúdos, resultados parciais demonstram que, das 12 categorias analisadas, são justamente as mensagens contendo algum tipo de “campanha negativa’ que mais estimularam usuários do Twitter a reproduzir (retweet) conteúdos das campanhas em seus perfis para seus seguidores, mesmo tendo sido uma das categorias com menor ocorrência entre as três campanhas. Fato que sucinta muitas hipóteses explicativas, como a predileção pública pelos embates entre candidatos, por um lado, ou a predileção por conteúdos que demonstrem as fragilidades dos adversários.

Camilo de Oliveira Aggio
Reações emocionais em relação à economia e seu impacto nas avaliações políticas: apontamentos sobre o caso brasileiro

Existem vários estudos e análises sobre a relação entre as emoções e o processo de decisão de voto (Brader, 2006; Marcus, Neuman e Mackuen, 2000; Pimentel Jr., 2010). Contudo, no Brasil, ainda são poucos os trabalhos que investigam a influência dos componentes afetivos sobre as avaliações que as pessoas fazem da atuação dos governos, especialmente quando essas dimensões afetivas tratam de questões econômicas.

O artigo busca contribuir para o avanço das análises do papel das emoções sobre o comportamento político dos brasileiros. De modo específico, explora e analisa a como as reações emocionais dos brasileiros em relação à economia afetam a avaliação que eles fazem do governo federal e da atuação do governo em áreas econômicas específicas. Para isso utiliza os dados de duas pesquisas nacionais de opinião pública realizadas pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM/PR) em novembro de 2014 e abril de 2015. Estas pesquisas trouxeram perguntas sobre a avaliação e aprovação do governo federal, sobre a avaliação que os brasileiros faziam da situação econômica do país e de sua própria situação econômica, além de perguntas sobre os sentimentos dos entrevistados em relação à economia do país e a sua situação econômica pessoal.

Outra vantagem dessas pesquisas é que elas foram feitas em dois momentos bastante distintos em relação à avaliação do governo e a situação econômica do país. Em 2014, logo após a disputa que reelegeu a Presidente Dilma Rousseff, a avalição positiva (ótimo ou bom) do governo federal era de 42%, e sua aprovação de 58%. Cinco meses depois, a avaliação positiva era de 13% e aprovação de 23%. Neste mesmo período, a avaliação positiva da economia caiu de 20% para 8%, enquanto a avaliação negativa (ruim ou péssima) subiu de 26% para 63%. Isso significa que é possível realizar as análises em dois momentos políticos e econômicos completamente distintos, ainda que o tempo que os separa seja de menos de seis meses.

As técnicas de estatística utilizadas foram a análise fatorial, regressões lineares via MQO e regressões logísticas binários e ordinais.

Seis variáveis dependentes foram utilizadas: a avalição da atuação do governo federal e a aprovação do governo federal, tanto em novembro de 2014 quanto em abril de 2015; e as avaliações da atuação do governo federal no controle da taxa de juros, no combate à inflação, no combate à pobreza e na geração de empregos aprovação do governo, em novembro de 2014.

As variáveis explicativas foram divididas em três grupos. O primeiro deles trouxe as medidas de emoção, especificamente indicadores de experiências emocionais subjetivas dos entrevistados, positivas e negativas, com a economia do país e com a economia pessoal. O segundo deles trouxe as variáveis cognitivas de avaliação da economia do país e da economia pessoal, além da avaliação dos serviços públicos oferecidos no país. O terceiro deles trouxe um conjunto de variáveis de controle: as características sociodemográficas dos entrevistados – sexo, escolaridade, idade, renda familiar mensal e porte do município – e se o entrevistado era beneficiário do programa Bolsa Família.

Alguns dos resultados encontrados estão em consonância com o trabalho de Conover e Feldman (1986) sobre o tema: as (1) reações positivas e negativas em relação às condições econômicas são relativamente independentes; as (2) reações afetivas e cognitivas em relação à economia estão correlacionadas apenas de maneira fraca; e (3) as reações emocionais às condições econômicas do país e das pessoas são importantes para explicar as avaliações políticas.

Contudo, para o caso do Brasil, algumas especificidades apareceram: (1) embora os indicadores cognitivos e afetivos de avalição econômica sejam importantes para explicar as avalições do governo, o indicador de avaliação da situação econômica do país teve sempre um desemprenho superior; (2) as avaliações afetivas sobre a condição da economia do país foram mais importantes para explicar as avaliações de governo do que as avaliações afetivas pessoais em todas as estimativas, independentemente do método utilizado; e (3) as avaliações afetivas sobre a economia pessoal não foram importantes para explicar a avaliação dos entrevistados sobre a atuação do governo federal no controle da taxa de juros e o combate à inflação, mas foram importantes para explicar a avaliação do combate à pobreza e geração de empregos.

No geral, os resultados sugerem que tanto os indicadores cognitivos de avaliação econômica, quantos os afetivos, devem ser considerados para a análise dos impactos das condições da economia do país nas avaliações que os brasileiros fazem da atuação do governo federal.

Pedro Santos Mundim
Dinâmicas da campanha na esfera online: um estudo comparativo entre websites e redes sociais dos presidenciáveis de 2014

Introdução

Este paper tem como objetivo discutir as dinâmicas da campanha na esfera online a partir das características do conteúdo produzido para alimentar os websites dos candidatos, assim como suas redes sociais. O objetivo é entender de que modo os espaços se complementam, interagem e apresentam determinadas similaridades e diferenças. Para entender como partidos e candidatos se organizam na rede, tem-se como objeto de análise os perfis no Facebook – representando as redes sociais – e os sites dos três principais candidatos às eleições de 2014, no Brasil: Aécio Neves (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB). A pesquisa é feita tendo como base dois aspectos: as estratégias discursivas empregadas e a mensagem geral de campanha presente nos conteúdos de dois espaços distintos, mas que integram a esfera online de campanha.
O trabalho a ser produzido reúne dados resultantes de uma pesquisa de doutorado finalizada em 2014, que teve como objetivo analisar o modo como os websites ainda fazem parte da composição das campanhas eleitorais, e relaciona a esses dados parte de um estudo - em andamento - das autoras, em que se observa as características do conteúdo publicado e transmitido via redes sociais. Tendo como base a junção dos dados relativos aos websites e ao Facebook é possível identificar as dinâmicas que se dão entre os diferentes espaços online. Trata-se do cenário das eleições mais recentes que podem demonstrar um uso mais avançado e moderno das ferramentas online.

Objetivos

O objetivo principal deste paper é discutir as dinâmicas da campanha online para entender como os diferentes espaços interatuam, se assemelham e se distanciam a partir da mensagem de campanha e das estratégias empregadas. A proposta visa entender de que modo o Facebook e os websites – ainda que numa mesma plataforma – têm finalidades e objetivos diferentes, mesmo atuando de modo integrado. Testa-se, ainda, a hipótese de que os websites são responsáveis pela concentração de conteúdo enquanto as redes sociais servem de ponte para o eleitor/militante/cidadão. Como objetivos secundários têm-se: 1) observar as características do conteúdo produzido pelos websites e redes sociais, identificando similaridades e diferenças, e 2) analisar o modo como as redes complementam os websites a partir dos links e referências.
De modo mais direto, a pesquisa tem como ponto de início as seguintes indagações: como é possível entender a dinâmica integrada entre redes sociais e websites? O que distingue e assemelha ambos os espaços em termos de conteúdo disponível? É possível indicar que as redes sociais servem como mecanismo de “ponte” entre eleitor e website, o qual ainda segue sendo catalizador de informações da campanha? O trabalho parte de duas hipóteses principais: 1) websites e redes sociais agem de modo integrado - tendo as redes o papel de direcionar o usuário para o conteúdo dos sites; 2) ambos os espaços integram uma mesma dinâmica de campanha, mas têm funcionalidades distintas.

Metodologia

A pesquisa utiliza a metodologia quantitativa de análise de conteúdo para o tratamento dos dados a serem analisados tanto das redes sociais quanto dos websites, os quais tiveram seus conteúdos analisados a partir de variáveis e categorias que permitem a comparação. A coleta do material foi realizada durante o período eleitoral para o primeiro turno das eleições de 2014 – de julho a outubro. O foco da análise é o conteúdo disponibilizado diariamente pelos candidatos e suas assessorias nestes dois espaços. Trabalha-se com uma amostra de 803 postagens realizadas no Facebook dos três candidatos, assim como as 824 postagens feitas nos websites.
A análise está centrada em três variáveis específicas: estratégias discursivas, mensagem geral de campanha e presença de links. Na primeira, trabalha-se com uma categorização de diferentes estratégias: engajamento online e off-line, referência a cargos anteriores, ataque ao adversário, agenda de campanha, apoio de líderes, proposição de políticas, defesa de ataques realizados, entre outras. Na segunda variável, divide-se o conteúdo em mensagem geral (ou majoritária): tematização da campanha, formação de imagem do candidato, campanha negativa e metacampanha. A terceira identifica a presença e os tipos de links nos posts – tanto de redes sociais quanto dos websites – para identificar se há integração entre os espaços.

Resultados

A internet foi um espaço de destaque durante as eleições de 2014 no Brasil. Os três principais candidatos contavam tanto com websites quanto redes sociais atualizadas cotidianamente. No que diz respeito às principais estratégias, nos websites predominou a proposição de políticas, agenda de campanha e ataques, ainda que com proporções diferentes aos três candidatos incluídos na pesquisa. Todos os candidatos já superaram a ideia de apenas utilizar as páginas para oferecer informações de agenda e usam o espaço para propor temas ao debate eleitoral. Quanto à mensagem geral dissipada pelos sites, predomina a temática e de formação da imagem, com alguma variação entre os candidatos devido às suas características próprias, mas de modo geral é o que prevalece.
Já no que diz respeito ao Facebook – representando as redes sociais – há predomínio do uso de links, do engajamento online e, também da postagem de informações de campanha. Aqui a discussão de políticas é menos frequente, assim como o percentual de ataques. Quanto à mensagem geral de campanha, predomina a formação da imagem.
Tendo como base esses dados, é possível discutir as dinâmicas online, defendendo a relação entre websites e redes sociais, o que ocorre por meio dos links que fazem, de fato, a ponte aos websites. Portanto, há uma dinâmica integrada e de interação entre os diferentes espaços, já que nos websites também há referências às redes sociais. Não são espaços antagônicos, mas complementares dentro de uma mesma plataforma. Em relação ao conteúdo, há similaridades e divergências, sendo que em relação a estas últimas pode-se apontar o uso dos sites para discutir políticas e propostas, enquanto as redes sociais atuam mais no modelo de engajamento e na divulgação de conteúdo cotidiano da campanha.

Michele Goulart Massuchin
Camilla Quesada Tavares
A mídia e a campanha permanente: a disputa pela atribuição de responsabilidade no primeiro mandato Dilma Rousseff (2011-2014)

O incumbente e seus opositores mantêm campanha permanente com objetivo de interferir no suporte público presidencial. Em suas estratégias de comunicação, governo e oposição utilizam os recursos e oportunidades que possuem para instruir a opinião pública sobre questões políticas e indicar o que é relevante. Com isso, a campanha nunca termina (Heclo, 2000).
Os presidentes têm em comum o desejo de serem bem avaliados pelos eleitores. Para eles, governar se confunde com a tentativa constante de ampliar o suporte público. É com base nisso que, geralmente, programas são formulados e políticas são implementadas. As medidas desenvolvidas pelos presidentes fazem parte de “a nonstop process seeking to manipulate sources of public approval to engage in the act of governing itself” (Heclo, pág. 17, 2000).
Nesse artigo, analisamos os mecanismos envolvidos na campanha permanente. A nossa discussão se dá sobre qual o papel da mídia no processo de atribuição de responsabilidade do mandatário. Para tanto, a nossa hipótese aqui é de que: (1) os indivíduos acessam as informações a partir de suas predisposições – experiências subjetivas e conhecimento político; (2) a exposição a mídia terá relação com a ideia acerca do desempenho do governo – expectativas – aqueles que aprovam o governo estão mais expostos e demonstram mais confiança nas notícias; (3) quanto maior o conhecimento político maior a exposição aos noticiários.
No processo de avaliação do incumbente há muito mais questões envolvidas do que uma simples leitura sobre a eficiência de políticas (Sampaio, 2014). Na nossa análise a atribuição de responsabilidade ao mandatário é dependente de fatores como as experiências subjetivas e o conhecimento político dos indivíduos. Isto porque a interpretação dos eleitores, muitas vezes, é direcionada por fatores subjetivos que inviabilizam a análise fria das ações do presidente. Por esse motivo, não é raro a população aprovar políticas irrelevantes ou contrárias a seus interesses.
A campanha permanente terá como meta induzir a percepção dos eleitores sobre as ações desenvolvidas pelo governante. Essa continuidade da disputa eleitoral se dá, principalmente, através da mídia. Independentemente do tipo de avaliação, se é sociotrópica ou egotrópica parte dos eleitores tem em comum a característica de recorrer a mídia para embasar o discurso pró ou contra o governo (Shah e Watts, 2012), geralmente, rejeitando ou acolhendo informações a partir de premissas que eles possuem ou para nutrir suas expectativas (Telles, Sampaio e Baptista, 2015).
Os veículos de comunicação proveem as informações necessárias para os indivíduos compreenderem o ambiente político. Por isso, são retratados como capazes de alterar a prioridade que os sujeitos dão para problemas públicos como, também, exercer a função de indicar possíveis soluções (Iyengar, 1994).
Indo além, a cobertura da mídia, sobretudo, da televisão seria responsável por imputar responsabilidade ao presidente a determinados eventos (Iyengar e Kinder, 2010). Ao enfocar um tema específico alteraria o interesse dos eleitores surtindo efeitos diretos no ambiente político, repercutindo na forma de atuação do presidente e em como ele será julgado pelos eleitores (Behr e Iyengar, 1985; Iyengar et al. 1984; Brody, 1991; Miller e Krosnick, 2000).
Nesse sentido, o suporte público do presidente dependeria estritamente de fatos contemporâneos à avaliação e a forma como eles são retratados através do noticiário (Iyengar e Kinder, 2010). Assim, a contextualização dos acontecimentos políticos e a atenção dada a eles pela mídia alteraria os critérios utilizados pelos eleitores no julgamento do desempenho do presidente (Krosnick e Kinder, 1990).
A exposição ao noticiário teria a capacidade de fazer com que os cidadãos considerem como relevantes as informações que, consequentemente influenciam no julgamento sobre a atuação do presidente (Iyengar, Peters e Kinder, 1982; Iyengar e Kinder, 1987). Os problemas seriam selecionados pela mídia e a partir daí entrariam no cotidiano da população passando a fazer parte do julgamento sobre o desempenho do governante.
Nesse sentido, a popularidade do presidente tem como características certa volatilidade, dependência acerca das circunstâncias e atrelamento à agenda da mídia. Isso porque a percepção dos eleitores sobre a relevância dos problemas varia conforme a sua exposição aos noticiários (Iyengar et al. 1984). A mídia assume o papel de reforçar as predisposições do indivíduo e de auxiliá-los na decisão sobre o que é relevante (Behr e Iyengar, 1985).
Aqui discutimos qual a dimensão do impacto da mídia no processo de atribuição de responsabilidade do mandatário. Para tanto utilizamos dados provenientes da Pesquisa Brasileira de Mídia – 2013. Os dados foram utilizados para medir a exposição aos veículos de comunicação e o interesse pelo governo.
Identificamos que o efeito da mídia sobre a imagem presidencial não está deslocado do mundo real. As notícias que se propagam são aquelas atreladas as perspectivas individuais que, por sua vez, são moldadas pelo conjunto de experiências subjetivas. Essas experiências dão significado próprio para as notícias sejam elas positivas ou negativas e, é por meio desse significado individual que elas ecoam entre os eleitores.
Eleitores que atingidos de forma negativa pela ação do governo se tornam mais atentos e vulneráveis as questões da campanha permanente do que os opositores. Já aqueles que se sentiram beneficiados são mais desatentos e declinados a manter o apoio ao governo. Por sua vez, quando há a percepção de que o mandatário pouco contribui para o bem-estar os assuntos referentes ao governo se tornem insignificantes e a popularidade diminui.

Thiago Sampaio
O discurso da presidente
Antonio Lavareda

SAT57 | Canais de mobilização e estratégias comunicativas: casos internacionais

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 16:00

Coordenadores

Pedro Santos Mundim (UFG - Universidade Federal de Goiás)

Debatedores

Felipe Borba (UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Apresentações

Quando a Direita e a Esquerda vão às ruas: Democracia, anti-partidarismo e canais de mobilização nos protestos anti-governo
Helcimara de Souza Telles
Roberto Oliveira Rocha
Rumo a um modelo mais participativo de comunicação partidária? Um estudo comparado das estratégias de comunicação digital pelos partidos latino-americanos
Sérgio Soares Braga
Fabrícia Almeida Vieira
Leonardo Caetano da Rocha
Lideranças políticas em reconfiguração: A relação entre representação e política em rede no Partido Podemos da Espanha

Introdução

A presente proposta de comunicação se insere no projeto temático da FAPESP 12/50987-3 “Lideranças políticas no Brasil: características e questões institucionais”, desenvolvido pelos pesquisadores do NEAMP/PUC.
Especificamente, nesse paper objetivamos compreender o exercício de novas formas de organização e participação política baseadas nos princípios da horizontalidade e descentralização do poder, em oposição às instituições políticas clássicas e às lideranças tradicionais.
i) análise de seis entrevistas realizadas em 2015 com integrantes do partido, bem como dos registros de observação realizados em sua sede do partido;
ii) análise da observação das eleições gerais em 20.12.2015. A partir da metodologia de observação participante, acompanharemos atividades de campanha, tais como: debates, atividades de rua, reunião dos círculos (instância do partido organizada em bairros, escolas, universidades entre outros
iii) sistematização do conteúdo expresso em seu site considerando a relação entre apropriação para organização e mobilização política, e exercício dessa plataforma de comunicação e a característica potencialmente democrática da rede;
iv) exame de duas instâncias do partido como a “Assembleia Cidadã” e o “Conselho Cidadão”

Objetivos
O objetivo central do paper é analisar a articulação entre as tecnologias digitais e as práticas políticas contemporâneas a partir do estudo do caso do partido Podemos, da Espanha.
Consideramos que a relação entre a arquitetura da rede e as novas práticas políticas é capaz de reconfigurar a política e de propiciar a emergência de novos estilos de liderança política. Assim, ancorados em pesquisas empíricas no site do Podemos(podemos.info) e em reflexões a partir da bibliografia de referência, apresentaremos o desenvolvimento de uma tipologia capaz de sintetizar as novas formas de exercício de liderança praticadas por esses novos movimentos sociais que se organizam em rede.
Partimos da reflexão do sociólogo português Boaventura de Souza Santos que analisa a emergência do Podemos como partido-movimento ou um movimento do partido. Trata-se de uma definição que expressa de modo bastante fidedigno essa nova construção partidária, à medida que se verifica a manutenção da dinâmica constitutiva do movimento, tais como o ativismo social e a organização em rede a valorização da horizontalidade e dos processos colaborativos, ao mesmo tempo em que se institucionalizam em um partido voltado para a competição eleitoral.
Para Manuel Castells, as práticas sociais e políticas da rede, cada vez mais, se misturam e se manifestam no espaço urbano, gerando o que o autor denomina espaço da autonomia por esse fluxos. Nesse sentido, é possível, aproximar o pensamento de Manuel Castells ao de Michael Hardt e Antonio Negri, ambas reflexões, embora a partir de perspectivas analíticas distintas, abordam a política em rede e na rede, como potencializadora do desenvolvimento de novas práticas coletivas. Para Manuel Castells a rede possibilita o desenvolvimento do companheirismo e para Michael Hardt e Antonio Negri, os fluxos comunicacionais favorecem o desenvolvimento de modos de vida cooperativos, baseados no desenvolvimento de dinâmicas centradas no que denominam por comum.
O debate acerca do processo de institucionalização do Podemos, conforme análise de Boaventura de Souza Santos (2015) apresenta as potencialidades envolvidas na transformação de um poder destituinte, de rejeição aos mecanismos de participação e representação tradicionais, para um poder constituinte nos termos de Hardt e Negri, ou da passagem de uma indignação social para uma indignação política, ou de uma mudança social para uma mudança política de acordo com Castells.
Na segunda parte do trabalho nos concentraremos primeiramente em discutir à luz da experiência do Podemos a criação de ferramentas que democratizam o debate e a participação política e assim, operam transformações tanto no ativismo político e quanto na organização partidária, e, em seguida buscar compreender se estaria em curso a elaboração de uma política capaz de combinar democracia representativa com democracia participativa, e qual o papel dos partidos políticos e das lideranças como mediadores entre os anseios dos cidadãos e dos movimentos sociais nas instâncias da política institucionalizada.

Metodologia e resultados
O funcionamento em rede sem um centro que concentre a capacidade de informar e de convocar possibilita a descentralização da política e estimula o redimensionamento do papel das lideranças políticas. Evidentemente, as redes sociais não encerram o papel das lideranças políticas, mas impõem às lideranças a necessidade de se pensar em novas práticas que convirjam com os anseios que hão de estruturar a chamada nova política.
Para tanto, na primeira parte do trabalho nos concentraremos no estudo do recente partido espanhol Podemos considerando principalmente as seguintes fontes empíricas:
i) análise de seis entrevistas realizadas em 2015 com integrantes do partido, bem como dos registros de observação realizados em sua sede;
ii) análise da observação das eleições gerais a ser realizada em dezembro de 2015. A partir da metodologia de observação participante, acompanharemos atividades de campanha, tais como: debates, atividades de rua, reunião dos círculos(instância do partido organizada em bairros, escolas, universidades entre outros
iii) sistematização do conteúdo expresso em seu site considerando a relação entre apropriação para organização e mobilização política, e exercício dessa plataforma de comunicação e a característica potencialmente democrática da rede;
iv) exame de duas instâncias do partido como a “Assembleia Cidadã” – um espaço onde os cidadãos inscritos no Podemos tomam decisões via participação direta – e o “Conselho Cidadão” – um colegiado que executa as decisões tomadas pela “Assembleia Cidadã” e presta contas a essa e aos “Círculos” – espaços de debate e de organização política que contam com a participação de aproximadamente trezentos coletivos de debates com estreita ligação às redes do 15M.
Com essa articulação de diferentes procedimentos metodológicos a pesquisa pretende compreender as características das práticas políticas do partido, da forma organizativa e desenvolver a tipologia sobre as lideranças políticas emergente nesse contexto.

Rosemary Segurado
Tathiana Chicarino
A politização da conversação cotidiana e suas relações com processos deliberativos

As conversações cotidianas sobre a política são freqüentemente iniciadas nos contextos comunicativos informais. Em virtude de seu caráter prosaico, fluido e descontínuo, elas costumam ser, de antemão, descartadas enquanto discursos capazes de prover contribuições ao processo político. Acreditamos, todavia, que elas surgem como fonte geradora da opinião pública e do entendimento de questões ligadas tanto ao cotidiano, quanto ao sistema político e administrativo. É preciso considerar, assim, que as possíveis contribuições que a conversação cotidiana informal pode oferecer ao processo deliberativo dependem intrinsecamente de sua abertura ao conflito. A exposição a visões conflitantes é um elemento central para a discussão política e para a construção da autonomia dos cidadãos (Benhabib, 1996; Habermas, 1997). Além disso, são as cenas de interpelação e enunciação criadas no cotidiano que favorecem o questionamento e a redefinição de enquadramentos que configuram percepções, julgamentos e avaliações do mundo, dos outros e das mais diversas formas de poder e opressão.
Os cidadãos constroem, cotidianamente, contextos comunicativos nos quais conversam e discutem a respeito de seus problemas e suas necessidades. Nesses contextos, a conversação é fundamental para a constituição de quadros compartilhados de referência para o entendimento das principais questões que os afetam. Não só problemas individuais são enunciados e discutidos, como também questões mais gerais, que fazem referências a valores e procedimentos (Wyatt, Katz e Kim, 2000; Dahlgren, 2003b, 2009; Gamson, 1992).
A democracia requer um escopo ampliado de espaços e contextos comunicativos nos quais os cidadãos possam articular seus enunciados e empreender conversações e discussões sobre os assuntos que os concernem, desenvolvendo suas capacidades de argumentação, reflexão e domínio cognitivo sobre diferentes tipos de informações (Calhoun, 1992; Habermas, 1997; Burkhalter et al., 2002; Dahlberg, 2005). No entanto, muitos pesquisadores ressaltam a pouca atenção teórica conferida à conversação em situações cotidianas e aos modos como os cidadãos constituem seus contextos rotineiros de reflexão e discussão sobre problemas públicos (Eliasoph, 1996, 1997; Herbst, 1996; Moy e Gastil, 2006; Marques e Maia, 2008).
O argumento do trabalho se desenrola em três etapas: Em primeiro lugar, serão delineadas algumas diferenças entre “conversação” e “deliberação”, sugerindo que a primeira se refere às interações gerais, enquanto a última está vinculada a momentos e práticas específicas. Na sequência, são destacados os aspectos políticos – para além da deliberação – das conversações cotidianas, reservando-se especial atenção ao aspecto argumentativo que as narrativas de si possuem nesse contexto. Ao final, busca-se analisar como relatos de si difundidos online podem trazer contribuições para a conversação pública de temas políticos.
Vários autores evidenciam as diferenças existentes entre os papéis desempenhados pela conversação cívica cotidiana e pela discussão ou deliberação política no processamento de questões de interesse ou relevância pública (Fearon, 1998; Sanders, 1997; Moy e Gastil, 2006). Sabemos que, em um processo deliberativo ampliado as dinâmicas comunicativas tendem a se dar de forma integrada, mas nem sempre coordenada e simultânea. Partimos do pressuposto de que o processo deliberativo é formado pela interconexão entre diferentes contextos comunicativos, os quais reúnem diferentes atores e seus modos de comunicação específicos; e de que a deliberação é uma atividade que envolve o enfrentamento público dos discursos resultantes desses múltiplos contextos. É importante ter cuidado com o presuposto da mútua afetação e influência entre esferas ou âmbitos comunicativos que integram o processo deliberativo, pois nem sempre eles se tangenciam, nem sempre sua articulação produz resultados democráticos e, na maior parte das vezes, se ignoram reciprocamente
A politização não é a deliberatização da conversação. Apesar de muitos autores apontarem que discussões políticas informais são capazes de se orientarem de acordo com princípios deliberativos, como a consideração racional de pontos de vista, a reciprocidade, a revisão de argumentos, a explicitação de premissas e a justificação recíproca baseada em razões publicamente aceitáveis (Conover e Searing, 2005), acreditamos que um enquadramento deliberativo das conversações cívicas pode conduzir a expectativas pouco realistas sobre o modo como a conversação funciona propriamente. É a partir dessa reflexão que buscamos pensar a conversação com especial atenção à produção de relatos de si.
A produção de relatos de si (Butler, 2015; Rago, 2013) revela uma clara intenção de assumir o controle da própria vida, de tornar-se sujeito de si mesmo por meio do trabalho de reinvenção da própria subjetividade possibilitada pelo relato de si. Trata-se de tornar autor do próprio script, a partir de uma relação específica do indivíduo consigo mesmo.
A fala de si estabelece uma narrativa afetiva de identidade na qual o “eu” é estabelecido como protagonista a partir do qual se realizará a apropriação reflexiva da alteridade e do mundo. Daí a diferença política básica entre narrar e ser narrado por outrem: a perspectiva de narrar, a centralidade, ainda que momentânea, de quem conta a própria história desloca as linhas de força constitutivas de qualquer narrativa para o sujeito narrador, em condição tornada excêntrica em relação às narrativas dominantes dentro de uma sociedade. É por conta disso que a condição de narrar a própria vida, - em oposição às normatizações narrativas que o constituem como uma alteridade em uma história que igualmente não é a sua – parece ser uma condição essencial da vida política que se constitui nas tramas conversacionais do cotidiano.
No espaço de uma interação cotidiana, o resgate narrativo de situações vividas por si mesmo ou por outrem constitui uma força considerável de argumentação. Substituindo, ou completando, qualquer outra demonstração de caráter lógico racional, o traço biográfico reveste-se de especial força na construção de uma argumentação: história contada a respeito da vida, a narrativa biográfica atualiza uma situação tomada – ou tomável – como exemplar do argumento defendido. Dotada de um considerável efeito de real decorrente, de maneira quase paradoxal, da presença do narrador como testemunho e garantia de veracidade, a narrativa biográfica, utilizada como exemplo, ganha espaço nas trocas convesacionais como um elemento tendencialmente apto a garantir não apenas a relevância, mas sobretudo a veracidade do que é narrado – “veracidade”, neste caso, não em termos epistemológicos, mas antes narrativos: a plausibilidade do discurso se afirma diante do testemunho.

Angela Cristina Salgueiro Marques
Luis Mauro Sa Martino
Mídia e Corrupção: escândalos políticos e respostas institucionais na Argentina e no Brasil
Aníbal Agustín Corrado
Nuno Coimbra Mesquita

SAT73 | Eleições municipais, redes e ativismo político

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 14:15

Coordenadores

Alessandra Aldé (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Debatedores

Pedro Santos Mundim (UFG - Universidade Federal de Goiás)

Apresentações

Eleições e HGPE: o acesso à propaganda eleitoral nos municípios paulistas

As campanhas eleitorais são importantes instituições nas democracias representativas contemporâneas, pois são centrais na relação entre os partidos políticos que disputam cargos eletivos e eleitorado. As campanhas têm por principais finalidades, reforçar a pré-disposição política do cidadão interessado, despertar atenção dos indiferentes, e por fim, convencer a parcela de indecisos, que devido ao desalinhamento partidário recorrente nessas democracias, é cada vez mais numerosa. Assim, têm-se nas campanhas uma das variáveis essenciais para compreensão da estrutura do voto.
Contemporaneamente, os meios de comunicação de massa, primordialmente a televisão, cumprem um papel essencial na política eleitoral e são as principais variáveis da modernização e profissionalização das campanhas. No Brasil, a literatura desenvolvida nos últimos 25 que aborda a relação entre eleições, partidos políticos e meios de comunicação, enfatiza principalmente, a importância da televisão como meio de informação política. Nessa direção, o HGPE (Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral), é o principal palco da política eleitoral mediada, por onde partidos e candidatos apresentam propostas de governo, constroem a sua imagem pública, e conferem ataques aos seus adversários.
Entretanto, quando se trata das eleições intermediárias, constam algumas particularidades. A primeira é que na maioria das cidades os partidos não têm acesso ao HGPE, essas fazem parte da área de cobertura de outros municípios. Segundo que, em muitas das cidades onde há possibilidade de acesso à propaganda eleitoral televisionada, os partidos optam por renunciar ao recurso, devido ao seu custo de produção. Mesmo nos municípios onde os partidos têm acesso e utilizam o HGPE, o seu alto custo, pode representar um empecilho para que esse seja explorado de forma instrumental. Isso se dá porque em campanhas locais geralmente há menor disponibilidade de dinheiro para sua organização, se comparadas às estaduais e nacionais.

Dessa forma, este artigo tem como principal objetivo, precisar o mapa da propaganda eleitoral no estado de São Paulo, a partir do levantamento dos municípios que contam o recurso do HGPE, do perfil desses e das suas respectivas áreas de cobertura. Entende-se por perfil, aspectos sócio econômicos, tais como população, colégio eleitoral e PIB municipal. Para tanto, serão exploradas variáveis do contexto legal, as especificidades da legislação eleitoral quanto à distribuição do espaço na televisão para os partidos políticos durante as campanhas eleitorais nos municípios brasileiros; e dos aspectos técnicos, referente ao levantamento da rede de emissoras de televisão em todo o estado.
No Brasil, a radiodifusão se dá por meio de concessões públicas, e existem quatro modalidades de emissoras de televisão: geradoras, educativas, retransmissoras, e transmissoras educativas mistas. Para os objetivos específicos deste artigo, de apresentar o mapa da propaganda eleitoral e o perfil das suas áreas de cobertura, importam as “emissoras de televisão geradoras”, uma vez que segundo a legislação eleitoral (Lei n. 9 504, de 30.set.1997), são àquelas que obrigatoriamente transmitem o HGPE durante as eleições gerais e intermediárias. Excluídas dessa obrigatoriedade as demais modalidades, além dos canais por assinatura ou de TV a cabo.
Tem-se, então, que nos municípios sede de emissoras geradoras, há possibilidade de acesso pelos partidos políticos ao HGPE, independente do porte ou da relevância regional dessas cidades. Assim, a pertinência de compreender como se dá o mapeamento da propaganda eleitoral em âmbito municipal se dá, visto a importância que o fenômeno da modernização das campanhas tem para o debate atual, que por vezes, negligencia a discussão em âmbito local, principalmente fora do eixo das capitais.

Mércia Kaline Freitas Alves
Mídia, democracia e a presença dos neopentecostais na política brasileira

Introdução:

Dos fenômenos políticos brasileiros atuais, certamente um dos que mais chama atenção é a participação da chamada “bancada evangélica” na Câmara Federal, bancada esta formada por bispos, pastores e parlamentares leigos alinhados a dogmas religiosos.
No ano de 2006, a câmara contava com 32 deputados que, declaradamente evangélicos, uniam suas forças políticas dando início à “Frente Evangélica Parlamentear”. Em 2010, o número quase dobrou, 70 deputados faziam parte da “bancada”; em 2014 o número de cadeiras de orientação religiosa chegou a 75, e hoje conta com 78 parlamentares. A bancada evangélica no Congresso demonstra força inédita na atual legislatura, tanto por seu crescimento numérico, quanto pelo controle do Comitê dos Direitos Humanos, em 2012, ou na figura do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, membro da igreja Assembleia de Deus.
A que se deve essa expansão? Seria uma expressão de uma sociedade que, ainda que esteja salvaguardada por um Estado Laico, procura representantes políticos guiados por moralidade religiosa, ou seria uma articulação política que se aproveita de valores caros à democracia, como a liberdade religiosa, liberdade de imprensa e expressão, para consolidar um projeto de poder que coloca em questão o conceito de secularização do Estado e sociedade?
Essas questões mostram a importante relação entre mídia e democracia e que está claramente presente nas articulações políticas da Frente Parlamentar Evangélica (FPE). Além da presidência da Câmara, a FPE busca outros postos-chave em Brasília a fim de ampliar seu nível de influência, e um dos postos mais visados é a chefia da comunicação da Câmara. Embora o cargo não interfira na tramitação de projetos, é relevante por definir como a Câmara divulga discussões polêmicas à sociedade. E também podemos somar a isso a pressão realizada pela “bancada evangélica” à proposta de mudança no Marco Regulatório da Radiodifusão, em 2012, indicando claramente a retaliação que o governo federal sofreria caso as alterações restringissem o uso dos meios de comunicação, em especial a televisão, por Igrejas Evangélicas.

Objetivos:

O principal objetivo do presente trabalho — que faz parte do Projeto Temático Fapesp “Lideranças Políticas no Brasil: Características e Questões Institucionais” (Neamp – PUC/SP) — é apresentar a pesquisa que busca compreender a relação entre o uso dos meios de comunicação e a ascensão política da “bancada evangélica”. Para tanto, será apresentada a análise dos impactos da participação política dos evangélicos no sistema democrático brasileiro e o uso dos meios de comunicação para consolidação de candidaturas e apoio público.
Tendo como importante hipótese levantada por essa pesquisa o uso de valores democráticos, como liberdade religiosa e de expressão, outro objetivo é mostrar como as igrejas neopentecostais são as principais beneficiárias da prática das emissoras de arrendar uma parte ou a totalidade de sua grade horária. Em números, a soma de pregação cristã na TV já soma mais de 4.800 horas todos os meses. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, usufrui de mais de 1,5 mil horas de televisão por mês, distribuídas entre seis emissoras. Além de espaços consideráveis na Record, Rede TV!, Bandeirantes e Gazeta, a Universal mantém controle quase integral sobre a programação da Rede 21 e da CNT. A Rede Globo, por sua ve, cede uma hora por semana à Igreja Católica, o que mostra dois pontos importantes a serem analisados: a frequente presença da religião nos meios de comunicação brasileiros e a articulação das igrejas neopentecostais tanto na política como no uso dos canais de televisão.

Metodologia:

Como metodologia, o trabalho foi dividido em duas linhas de pesquisa, uma conceitual e histórica e outra baseada em eventos atuais, levantados a partir dos meios de comunicação. Assim, fora levantadas bases conceituais das ciências políticas e sociologia a fim de pensar temas como a laicidade do Estado, democracia, representação e o conceito de secularização. Como o foco deste estudo é a política brasileira, foi importante também levantar as bases políticas e religiosas presentes no Brasil após a proclamação da República a fim de compreender como a moral religiosa, antes católica, sempre esteve presente na política brasileira. Além disso, o trabalho usou os próprios meios de comunicação para verificar o uso dos meios para a consolidação política da Frente Parlamentar Evangélica.

Resultados:

Os resultados apresentados são parciais, mostrando a frequente presença religiosa na política brasileira e como essa presença é assegurada tanto pela estrutura do Estado Democrático, quanto pela população brasileira, que sempre teve nos religiosos importantes líderes, e não apenas para questões espirituais. Prova disso é o significativo envolvimento de atores religiosos nos pleitos eleitorais e, sobretudo, o lançamento de candidaturas oficiais e o financiamento de campanhas políticas por parte de algumas igrejas pentecostais e neopentecostais. Outro resultado importante encontrado é a disputa nos meios de comunicação em fortalecer seu “cliente-igreja” na medida em que abre espaço para as locações de horas, mas também na presença de programas com teor religioso, direta ou indiretamente, como os cultos televisionados, ou as novelas com mensagem moral e religiosa.

Syntia Pereira Alves
Os hábitos dos eleitores explicam o desempenho de prefeitos candidatos à reeleição?

Os determinantes que motivam a escolha dos eleitores na eleição municipal é ainda uma incógnita para a Ciência Política. São escassas as produções cientificas que tentam explicar a decisão dos eleitores nas disputas municipais. Por outro lado, são diversos os trabalhos que mostram os incentivos que motivam os eleitores a fazerem as suas escolhas nos pleitos presidenciais.
As variáveis costumeiramente utilizadas para explicar o comportamento dos eleitores nas eleições presidenciais são: (1) Avaliação da administração, (2) Ideologia, (3) Preferência partidária e (4) Bem-estar econômico. Recentemente, um neodeterminante do voto surgiu na literatura: as emoções dos eleitores. As obras que procuram explicar as razões dos eleitores de terem escolhido dado candidato na disputa municipal utilizam, costumeiramente, a variável Avaliação da administração.
Os hábitos dos eleitores explicam o desempenho de prefeitos candidatos à reeleição? Este trabalho tem o objetivo de mostrar que os hábitos dos eleitores podem elucidar e explicar a aprovação ou reprovação da administração dos gestores municipais; e o sucesso ou o insucesso eleitoral de prefeitos candidatos à reeleição.
Os hábitos representam as ações cotidianas dos eleitores. Através de diversos surveys realizados em diversas cidades do Nordeste, dentre as quais Recife, os eleitores foram estimulados a responder sobre os seus hábitos cotidianos, como por exemplo: (1) Utilizar transporte público frequentemente; (2) Ir ao trabalho utilizando carro particular; (3) Ouvir, costumeiramente, relatos sobre atos de violência; (4) Ter ido a um posto de saúde recentemente; (5) Locomover-se à pé pela cidade frequentemente. No total, 12 hábitos foram listados.
Com a identificação dos hábitos mais frequentes, verifica-se no universo dos eleitores que declararam ter dado hábito, a intenção de voto do prefeito candidato à reeleição e a avaliação da sua gestão. Com isto, identificamos, através de técnicas estatísticas adequadas, qual hábito ou conjunto de hábitos explica (fortemente, razoavelmente ou fracamente) o comportamento dos eleitores para com o prefeito-candidato e a opinião deles para com a sua gestão.
A identificação dos hábitos dos eleitores possibilita a criação de estratégias eleitorais, já que eles revelam em que áreas o prefeito-candidato deve agir para conquistar popularidade e adquirir condições de ser reeleito. Os hábitos dos eleitores ao serem identificados e utilizados para a explicação do comportamento do eleitor revelam que a explicação da tomada decisão dos eleitores está além dos usuais determinantes do voto.

Adriano Oliveira dos Santos
Redes transnacionais de discussão política online: nacionalidade e segmentação política na Avaaz
João Guilherme Bastos dos Santos
Ativismo em rede e direito à moradia: lutas por redistribuição ou lutas por reconhecimento?

As teorias por justiça assistiram recentemente a um fervoroso debate empreendido por Axel Honneth (2003a; 2003b) e Nancy Fraser (1998; 2003) acerca da natureza das lutas sociais. Fraser critica a perspectiva da Axel Honneth, centrada na autorrealização e na intersubjetividade, de que toda luta por redistribuição é uma luta por reconhecimento com um pano de fundo moral. Ela acusa Honneth de colocar a identidade no cerne das lutas por reconhecimento, desprezando a dimensão material. Fraser defende que deve haver uma separação entre reconhecimento e redistribuição como categorias distintas para a análise das lutas sociais visto que são dimensões diferentes das lutas. Em resposta, Honneth sustenta que mesmo os problemas materiais devem ser entendidos como uma violação às demandas por reconhecimento. Ao analisar os movimentos sociais inseridos no contexto das sociedades capitalistas, o argumento de Nancy Fraser “cria a impressão de que os grupos sociais lutam basicamente ou por recursos materiais ou reconhecimento cultural, enquanto a luta pela igualdade jurídica não encontra expressão sistemática em tudo” (Honneth, 2003, p.136).
O debate teórico Fraser x Honneth nos instigou a identificar nas lutas sociais – a princípio aquelas empreendidas com vistas à igualdade material – se, de fato, existem demandas morais que as guiam. Para tanto, neste artigo analisaremos os movimentos por direito à moradia da cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Nos últimos três anos as ocupações têm intensificado suas ações de mobilização, tais como manifestações, reuniões públicas, abaixo-assinados, criação de novas ocupações, aproximação com os representantes políticos, dentre outras ações. Da mesma forma, aumentaram também as ações de desocupação, despejo e reintegração de posse, bem como a repressão violenta por parte da polícia. Em 2013 e 2014 o Comitê dos Atingidos pela Copa (Copac) teve forte atuação em função das remoções realizadas para as obras da Copa do Mundo e em 2015, duas lideranças das ocupações foram assassinadas. Tudo isso tem configurado a organização de uma ampla rede de comunidades, entidades e movimentos que lutam pelo direito à moradia e pela reforma urbana. Esse conjunto de atores encontra forte expressão nas redes sociais online utilizadas como meio de organização, articulação, mobilização e promoção de visibilidade.
Eles lutam pelo direito à moradia e à cidade, demandas vistas, a princípio, como demandas materiais. São pautas amplas e com capacidade de atingir grande parte da população, o que extrapola as lutas identitárias das quais falou Fraser, pois engloba demandas simbólicas escondidas atrás dessas lutas, como por exemplo, o direito à dignidade, à inclusão na cidade, à participação nos debates sobre moradia e reforma urbana, dentre outros. Esse é o desafio deste trabalho: identificar tais demandas morais.
Honneth afirma que sua teoria encontra-se entre a teoria moral Kantiana e as éticas comunitaristas e destaca que, em relação à primeira, sua aproximação se dá a partir do “interesse por normas que sejam as mais universais possíveis entendidas como condições para outras possibilidades” (Honneth, 2003, p.271). Ou seja, ao falarmos sobre os princípios morais que movem estes movimentos da capital mineira, fazemos referência à busca por uma garantia que alcance o maior número de pessoas possível, a um direito que possa ser o mais universal e que se apresente como condição para que os indivíduos possam lutar por outros. A questão da dignidade possibilitada por uma moradia parece ser um princípio maior do que a própria materialidade da moradia.
Para o teórico, os sentimentos de injustiça e de desrespeito social não podem ser encarados apenas como catalisadores das ações práticas, mas imbuídos de um papel moral nas relações de reconhecimento. Partir, portanto, da ideia que toda luta por redistribuição é uma luta por reconhecimento significa compreender a mobilização dos coletivos em análise como uma busca não apenas por uma pauta específica relacionada a bens e serviços para a população, mas como a batalha por uma garantia que é a mais universal possível e que trata do direito a dignidade de morar e das próprias garantias fundamentais para o bem viver, dimensão constituinte dos direitos humanos.
Nosso corpus de análise comporta a coleta de postagens realizadas em seis páginas do Facebook, sendo duas de ocupações de Belo Horizonte (Dandara Resiste e Ocupação Vitória) e seis de movimentos pelo direito à moradia que atuam na cidade (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas-MG, A ocupação, Resiste Izidora e Brigadas Populares - Minas Gerais). Buscamos postagens entre 2013 e 2015 que revelassem as demandas morais onde estão ancoradas as reivindicações dos movimentos. Ao todo, foram coletados 5372 posts, dos quais foram selecionados apenas os posts que estão diretamente relacionados com as pautas e demandas pelo direito à moradia. A coleta foi realizada a partir do aplicativo Netvizz, do Facebook, que possibilitou gerar tabelas com o conteúdo das postagens, datas, curtidas e compartilhamentos.
Para a análise de conteúdo, buscamos listar, primeiramente, as demandas materiais e as demandas morais para, em seguida, inter-relacioná-las. Identificamos as seguintes demandas materiais: direito à moradia, melhoria da infraestrutura básica das ocupações e direito à cidade (que também pode ser entendida como uma demanda moral). As demandas morais identificadas foram: dignidade e integridade física, garantias fundamentais de vida, inclusão na cidade, redução da desigualdade social, acesso igualitário a bens públicos, direito coletivo em detrimento do direito privado e direito a participação nas negociações.
Conclui-se que, ainda que a pauta imediata seja a moradia, os movimentos e ocupações acionam em seus discursos públicos justificativas morais que extrapolam o valor do próprio bem material e da propriedade. O ativismo que busca se utilizar das redes sociais para dar vazão às suas lutas convoca uma dimensão moral presente, em particular, na dimensão da coletividade e da vida em comum, dos direitos humanos e das garantias fundamentais representados pela integridade física, pela liberdade de ir e vir e de participar de processos políticos bem como à possibilidade da vida em comunidade.

Regiane Lucas de Oliveira Garcêz
Kelly Prudencio
Larissa Moreira de Oliveira Arantes

SAT89 | Propaganda eleitoral, opinião pública e jornalismo

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 16:45

Coordenadores

Rosemary Segurado

Debatedores

Sérgio Soares Braga

Apresentações

A imprensa não é uma: análise da cobertura noticiosa e das preferências políticas dos leitores-eleitores de um jornal de prestígio, um jornal popular e um jornal ultra-popular do Rio de Janeiro

Este trabalho se insere em uma agenda de pesquisa que tem procurado explorar os processos de reconfiguração político-econômica por que tem atravessado a imprensa escrita brasileira (cf. LATTMAN-WELTMAN & CHAGAS, 2013; 2014; CHAGAS, 2014a; 2014b; 2014c; e 2015). Se, em etapas anteriores, demonstramos como atuam em diferentes mercados de capitais simbólicos os mais diversos veículos impressos, e como, a partir desta atuação multifacetada, é possível relativizarmos a compreensão de que há uma crise instaurada na imprensa contemporânea, desta vez, nosso intuito primeiro é relacionar as alterações na paisagem econômica do jornalismo ao processo político em si. Faremos isto através de dois momentos distintos: em primeiro lugar, estabelecendo relações entre a preferências políticas dos leitores de jornais no Rio de Janeiro e seus hábitos de leitura; depois, caracterizando a ascensão dos gêneros impressos populares e ultra-populares, e avaliando sua cobertura política através de uma análise de conteúdos conjugada a uma análise de enquadramentos.
Em série de pesquisas eleitorais encomendadas pelo PMDB do Rio de Janeiro no último ano, o Instituto GPP, às vésperas do segundo turno, indicou que 31,2% dos leitores do jornal O Globo no estado tinham intenção de voto declarada em favor da candidata Dilma Rousseff, ao passo que 55,8% declaravam voto em Aécio Neves. Já os leitores do jornal Extra, se dividiam entre 44,2% de votantes declarados em Dilma e 40,9% em Aécio. Dados como estes abrem caminho para uma primeira problematização de uma certa abordagem monolítica sobre os interesses político-econômicos de um dado grupo de mídia, bem como para uma severa crítica às interpretações simplistas que compactuam com a defesa à teoria dos efeitos, segundo a qual a mídia impacta decisivamente a tomada de posição do receptor. Muito embora ambos os jornais pertençam à mesma empresa, o Infoglobo, a pesquisa conclui que os leitores se dividem de modo desproporcional entre os candidatos a depender do veículo de sua preferência. Mais do que isso, além do Extra, O Dia e Meia Hora também apontavam Dilma como preferida dos leitores – no primeiro, com uma diferença de 43,4% a 41%; e, no segundo, com uma larga margem de 56,6% a 37,7%.
Com este trabalho, pretendemos demonstrar, entre outras questões, o comportamento assumido por jornais de prestígio, diante da tendência de queda em sua circulação, confiando plenamente em seu quantitativo de assinantes, de tal modo que estes assinantes lhes garantem sobrevida no mercado político-discursivo. Como resultado desta relativa segurança econômica, os quality papers avançam sobre o terreno da opinião de forma cada vez mais livre e desimpedida, no processo que qualificamos como de re-partidarização do jornalismo político brasileiro (LATTMAN-WELTMAN & CHAGAS, 2013).
Em contrapartida, o eleitorado de Dilma Rousseff não pode ser caracterizado exatamente a partir da figura do leitor fiel. Ao contrário. Neste caso, os dados do GPP levam a crer que a base de eleitores de Dilma é destacadamente composta por leitores diletantes de jornais populares e ultra-populares, de tal maneira que, se o resultado das eleições no estado do Rio de Janeiro cravou 54,94% de votos para a candidata à reeleição e 45,06% para seu opositor , esta proporção se deve em grande medida à discrepância comparativa na preferência entre eleitores leitores de jornais populares e da imprensa de prestígio.
Utilizando, então, como ponto de partida o modelo de análise de Sparks (2000) sobre a tabloidização, buscamos desenvolver uma matriz que avalia a cobertura noticiosa de três jornais fluminenses, a saber: O Globo (um típico quality paper), Extra (um jornal de porte intermediário), e Meia Hora (um jornal ultra-popular). Foram analisadas mais de duas mil manchetes e chamadas de primeira página destes jornais, no período entre julho e outubro de 2014, correspondente ao período de propaganda eleitoral, conforme definido pelo TSE. São cerca de 330 capas de jornais, em que se buscou identificar o grau de cobertura política no noticiário, observando-se uma variação entre notícias relacionadas a (A) esportes e entretenimento, (B) economia e sociedade ou (C) política, e um tratamento que enfatizava questões concernentes à (a) vida privada e atores individuais ou à (b) vida pública e atores institucionais.
Com base nestes primeiros resultados, esboçamos, à moda de Klein (2000), algumas categorias para avaliarmos os enquadramentos vigentes para cada estrato apresentado. Assim, temos os enquadramentos: sexo, celebridades e futebol (Aa), cultura e comportamento (Ab), crime, terrorismo e faits divers (Ba), grupos de interesse e accountability (Bb), corrida e agenda eleitoral (Ca) e governança e políticas públicas (Cb). O passo seguinte foi relacionar de volta estes enquadramentos com o perfil dos leitores dos jornais analisados e suas preferências políticas, estimulando a comparação entre quality paper e tabloide, e quality paper e título intermediário – em que se destaque, neste caso, ambos os jornais pertencerem ao mesmo conglomerado.
Estes resultados não só apresentarão em maior grau de detalhamento a paisagem político-econômica da mídia impressa fluminense no cenário contemporâneo, como nos permitirão testar de modo empírico o modelo construído por Sparks (ibid.) para os estudos sobre a tabloidização norte-americana e europeia. Aplicando este modelo à realidade brasileira, poderemos problematizá-lo, buscando alternativas que melhor esclareçam as peculiaridades do contexto nacional.
Assim, na atual etapa desta pesquisa, temos a concluir que (1) há uma multiplicidade de variáveis concorrentes para o comportamento eleitoral do consumidor de informação política na mídia que, não só impedem qualquer afirmação no sentido de que a imprensa, especialmente a partir de uma abordagem sobre seus interesses político-econômicos, tenha papel determinante sobre o resultado das eleições, como rechaçam a ideia de que os jornais de prestígio conservam capital importante no processo de formação da opinião pública no cenário político contemporâneo; (2) o processo de profissionalização das empresas jornalísticas tem caminhado pari passu com a desconstrução de uma visão ao mesmo tempo monolítica e hipodérmica dos meios de comunicação, legada particularmente pelo desenvolvimento recente da economia política da imprensa; (3) e, finalmente, a tabloidização no contexto brasileiro, conquanto guarde similaridades com o relatado pela literatura internacional, apresenta uma série de idiossincrasias, para as quais é necessário empreender observação atenta.

Viktor Chagas
Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral e a Formação da Opinião Pública

Introdução
Um dos assuntos mais debatidos na ciência política moderna é a influência que as campanhas exercem sobre o processo eleitoral. Este assunto é de extrema relevância dado que a literatura internacional encontrou evidências de que as campanhas têm papel relevante sobre a decisão do voto, a participação do eleitor e nível de conhecimento sobre os candidatos e os temas debatidos. No Brasil, entretanto, os estudos sobre o impacto das campanhas estão basicamente restritos à decisão do voto. Tais estudos utilizaram abordagens metodológicas distintas, como análise de dados agregados (Figueiredo, 2007, Mundin, 2010; Mundin, 2012; Borba, 2014), experimentos controlados (Desposato, 2009), surveys (Figueiredo e Coutinho, 2003), grupos focais e entrevistas em profundidade (Veiga, 2001; Lourenço, 2009; Borba, Veiga e Bozza, 2015), encontrando evidências de que o sucesso de certas candidaturas e as oscilações nas intenções de votos durante as campanhas de 2002, 2006, 2010 e 2014 podem ser atribuídas à existência da propaganda no rádio e na televisão.

Objetivos
O objetivo desse artigo é contribuir para o debate ao investigar um problema que tem sido pouco investigado na literatura nacional: o impacto da propaganda eleitoral sobre a participação eleitoral e o nível de conhecimento dos eleitores. Esse tema é alvo de investigação na literatura internacional, indicando que há forte influência da propaganda sobre a decisão de votar (Ansolabehere et all, 1994; Finkle e Geer, 1998; Freedman e Goldstein, 2002) e o conhecimento sobre candidatos e temas (Freedman e Goldstein, 2004; Holbrook, 2002; Valentino, Hutchings e Williams; Wattenberg e Brians, 1996).
A pergunta que este artigo busca responder, portanto, é como o nível de exposição ao horário eleitoral afeta a chance de votar, altera a percepção sobre a imagem dos candidatos e dos partidos e influencia o nível de conhecimento dos candidatos, das propostas e dos eventos ocorridos durante as campanhas para presidente. Ao mesmo tempo, o artigo busca traçar o perfil da audiência do horário eleitoral entre a eleição de 1989 e 2014.

Metodologia
A metodologia deste trabalho consiste em investigar a influência da exposição ao horário eleitoral com base num conjunto de pesquisas de opinião feitas pelo Ibope e pelo instituto Datafolha obtidas no Centro de Estudos de Opinião Pública – Cesop/Unicamp. Essas pesquisas contêm perguntas sobre exposição e sua intensidade – se viu raras, poucas ou muitas vezes - que podem ser correlacionadas com o perfil socioeconômico do eleitor, suas atitudes, intenção de votar e o nível de conhecimento sobre candidatos e temas debatidos. A hipótese do estudo é que existem diferenças entre a percepção de eleitores que assistiram e não assistiram ao horário eleitoral ao menos uma vez durante a campanha, ou seja, há uma relação positiva entre assistir ao horário eleitoral e o nível de conhecimento dos eleitores.

Resultados Preliminares

Esta seção apresenta resultados preliminares sobre a influencia da exposição ao horário eleitoral, uma vez que a análise do conjunto de pesquisas ainda se encontra em andamento. Embora seja difícil traçar a evolução longitudinal dessas questões dado que as perguntas foram formuladas de maneiras diferentes ao longo do tempo ou feitas por institutos com bases metodológicas distintas, é possível encontrar evidências que sugerem que a audiência varia ao longo da campanha e também entre os turnos eleitorais. O número de pessoas que afirma ter assistido ao menos uma vez ao horário eleitoral cresce durante a campanha e é superior no segundo turno em relação ao primeiro. Observa-se que o percentual de eleitores que declarou ter assistido ao menos um programa começa baixo, acende e se estabiliza em cerca de metade do eleitorado, para depois crescer acentuadamente na virada do primeiro para o segundo turno.

Observam-se ainda diferenças significativas no nível de conhecimento. Análise preliminar da campanha de 2014 aponta que tanto Dilma Rousseff quanto Aécio Neves variavam os seus níveis de conhecimento quando o eleitor declarava ter assistido ao menos um programa do horário eleitoral. Enquanto 44% do eleitorado declarava conhecer “muito bem” a presidente Dilma Rousseff, o número aumentava para 51% entre os que haviam assistido ao horário eleitoral e caia para 36% entre os que não assistiram. O mesmo fenômeno acontecia quando o eleitor era perguntado sobre o seu conhecimento do escândalo de corrupção na Petrobrás. Entre os eleitores que haviam assistido ao horário eleitoral, 38% se diziam bem informados, contra apenas 18% entre os que não assistiram. Do mesmo modo, enquanto 12% entre os espectadores do horário eleitoral não tinham qualquer conhecimento sobre o escândalo, esse percentual subia para 30% entre os não espectadores.

Conclusão
A análise preliminar dos dados não permite, nessa altura, traçar conclusões definitivas sobre o estudo. No entanto, é possível observar que o horário eleitoral aumenta a sua audiência com o andamento da campanha e é mais assistido no segundo do que no primeiro turno. Ao mesmo tempo, ter assistido às campanhas no rádio ou na televisão aumenta o nível de conhecimento dos eleitores sobre os candidatos e os temas debatidos na campanha. Esses achados coloca em evidência o caráter pedagógico das campanhas e a importância do caráter gratuito do HGPE para a consolidação da democracia brasileira.

Assim sendo, a nova lei eleitoral, aprovada em setembro de 2015 para vigorar nas eleições municipais de 2016 e nacionais de 2018, vai na contramão dos resultados obtidos. A nova lei eleitoral encurtou a duração das campanhas no rádio e na TV de 45 para 35 dias, dimunuiu o tempo diário de 25 minutos para 12 minutos e trinta segundo e alterou a regra de divisão do tempo de propaganda de um terço igualitário e dois terços proporcionais para um décimo igualitário e nove décimos proporcionais.

Tais alterações sugerem o congelamento do sistema partidário e da dinâmica eleitoral, ao reforçarem o poder dos maiores partidos em detrimento dos menores. Nesse sentido, o artigo se propõe também a fazer uma discussão sobre as regras eleitorais e seus efeitos sobre as eleições.

Felipe Borba
Alessandra Aldé
Fidelidade ou credibilidade? Desafios políticos ao jornalismo brasileiro contemporâneo

Em trabalhos anteriores, chamamos a atenção para o que consideramos o processo atual de (re)partidarização política e ideológica das chamadas grandes mídias tradicionais, que se manifesta em várias democracias, mas de modo particularmente dramático no Brasil contemporâneo. Há muitos fatores de ordem histórica, ideológica e conjuntural política sem os quais não é possível se compreender de modo abrangente como e porque vem se dando esse deslocamento. Mas entre as variáveis que ajudam a compreender o fenômeno, destacamos aqui aquelas que configuram o mercado da comunicação hoje e que se referem particularmente à revolução digital em curso. Após breve histórico do processo de radicalização militante da chamada mídia de opinião ao longo dos Governos do Partido dos Trabalhadores (2003-2014), serão apresentados e analisados dados do Projeto Inter-Meios, relativos à evolução do mercado midiático no período em questão, assim como do perfil sociodemográfico dos consumidores brasileiros e seus hábitos de uso das mídias, com base na Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada pelo Ibope para a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom). Acreditamos que, para além das grandes mudanças políticas, sociais e econômicas ocorridas no país neste início de século, e de avanços democráticos inéditos, em grande medida a aludida partidarização se insere num contexto de grandes transformações que também atingem de modo especifico o mercado da comunicação. O principal fator de instabilidade do setor reside, obviamente, nos muitos efeitos produzidos pela chamada revolução tecnológica, com a universalização do acesso à Rede internacional de computação, a Internet, e a massificação e pluralização do consumo de suas informações através da crescente inclusão digital, com o aumento vertiginoso e democrático da posse de dispositivos como computadores, tablets e smartphones. Nesta conjuntura particularmente instável de reestruturação das mídias, vem se desenvolvendo um comportamento estratégico de busca de fidelização de públicos consumidores das mídias tradicionais, em especial os da imprensa escrita. Práticas que embora possam apresentar resultados ambíguos, e eventualmente bem sucedidos – tanto do ponto de vista econômico quanto político –, trazem em seu bojo riscos consideráveis de perda de credibilidade e capital simbólico para os veículos, na medida em que se traduzem em radicalização partidária e desrespeito às regras de conduta estabelecidas para si pelos próprios meios de comunicação e seus ideólogos, ao longo do seu processo histórico de institucionalização política e de construção de sua legitimidade social.

Pedro Santos Mundim
Mídia e Democracia: relações de poder na narrativa jornalística sobre o trabalho doméstico

Introdução – O artigo pretende oferecer uma contribuição para o debate sobre mídia e democracia numa perspectiva que entende os media como uma esfera distinta, mas importante para o jogo político e para a democracia. No entanto, a difusão desigual e seletiva de acontecimentos, o desequilíbrio de vozes e representações sociais no noticiário, além da ênfase e hierarquização de determinados temas e atributos afetam o pluralismo político e social e sua representação no discurso público, o que exige do debate teórico permanente reflexão sobre o papel da comunicação nas democracias contemporâneas. Para aprofundar essa discussão, o artigo pretende analisar como a implantação da regulamentação do trabalho doméstico no Brasil foi tratada em três importantes veículos de comunicação do Brasil: Folha de S.Paulo, O Globo e Jornal Nacional. Entendemos que esses veículos, por sua centralidade na definição da agenda dos acontecimentos e do impacto dessa construção na sociedade e nas esferas midiática e política, permanecem como grupos com importância e capacidade de organizar o discurso público e propagar conteúdos de forma massiva (de acordo com sua perspectiva e visão de mundo), apesar da forte presença da internet e das redes sociais que pressionam essa centralidade nos dias atuais.

Objetivos - Um dos aspectos centrais desse estudo é compreender como o campo jornalístico tratou o trabalho doméstico e de que forma seus enquadramentos contribuíram para reforçar (ou alterar) posições socialmente dominantes nas relações de gênero, raça e classe social. Uma compreensão teórica que orienta esse estudo entende o papel dos media com a função “orgânica” de dar coerência e homogeneidade a posicionamentos, demonstrando que as relações de comunicação são relações de poder assimétricas que asseguram a dominação de um grupo, ou classe, sobre outros. Na tentativa de explorar esse conceito, seguiremos algumas premissas: a) observar como o noticiário trata o trabalho doméstico por meio das interseccionalidades das teorias política e de comunicação: o papel da mulher no mercado de trabalho, quais os estereótipos construídos em torno da atividade doméstica, quem são as(os) agentes presentes e suas representações sociais; b) quais vozes têm espaço, com que ênfase e enquadramentos, bem como se o noticiário trata de aspectos como a subalternidade da atividade doméstica, a dualidade entre o público – privado e a divisão sexual do trabalho; c) Se as perspectivas de classe, gênero e raça estão presentes no noticiário e como esses veículos tratam as tensões existentes no discurso noticioso.
Os dados que farão parte desse artigo compõem pesquisa empírica ampla que está em andamento no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/Unb) desenvolvida por professores, alunos de graduação, mestrado, doutorado e pesquisadora de pós-doutorado no grupo Democracia e Desigualdades.

Metodologia – O trabalho metodológico consiste em analisar os textos noticiosos que trataram direta ou indiretamente sobre a temática nos jornais Folha de S.Paulo, O Globo e Jornal Nacional no período compreendido entre janeiro de 2013, ano da aprovação da Emenda Constitucional nº 72, chamada “PEC das domésticas” (em 03 de abril), até o final de 2015, quando foi sancionada pela Presidente da República a Lei nº 150 (01 de junho) que regulamentou o contrato para o trabalho doméstico no Brasil. Para definir o escopo da pesquisa partiu-se inicialmente de uma ampla busca nos sites de notícia dos três veículos com diversas palavras-chave. Depois, foram identificadas e selecionadas as palavras-chave “trabalho doméstico”, “PEC das Domésticas”, “PEC 72”, “Lei nº 150” e “empregadas domésticas” porque concentravam o maior volume de textos vinculados ao objeto da pesquisa. Foram estabelecidos três estágios de trabalho: a busca e seleção das palavras-chave e elaboração do questionário (setembro – outubro de 2015), preenchimento de uma ficha-resposta para cada texto ou matéria jornalística (novembro-dezembro-janeiro de 2015) e, por fim, a observação consolidada dos resultados (fevereiro-março de 2016). Para a análise será utilizado o programa de software Sphinx, uma ferramenta que permite a observação cruzada de dados quantitativos e qualitativos.
A ficha de resposta possui questões padronizadas para permitir quantificar e qualificar os resultados: a) seção ou caderno em que o assunto foi tratado (primeiro caderno; cotidiano/Brasil; economia ou outro); b) espaço dedicado para o assunto (uma página, ½ ou ¼ de página), além da presença de fotos, gráficos ou infográficos; c) enquadramentos predominantes: se a abordagem trata pela perspectiva econômica; se trata pela perspectiva das(os) empregadas(os) domésticas(os), se o texto trata de problemas enfrentados pelos patrões; se o texto aborda o trabalho doméstico conectado ao racismo, se o trabalho doméstico é “trabalho de mulheres”, se a abordagem aponta mudanças na profissão que redefinem o trabalho das domésticas, se as mudanças sociais e econômicas incidem sobre a divisão do trabalho doméstico, ou, outro enquadramento. Com a finalidade de observar a construção discursiva e as representações simbólicas serão observadas as vozes presentes e quais estão sub-representadas nesse noticiário: as patroas, o sindicato das patroas, as trabalhadoras domésticas, o sindicato ou federação das trabalhadoras domésticas, homens políticos (investidos de cargos), mulheres políticas (investidos de cargos), movimentos feministas, advogadas/os. Pretendemos identificar quais os públicos são vocalizados e se essa representação reforça ou não situações de subalternidade, dominação e posições hegemônicas.
Resultados - Nossa hipótese para os resultados, a partir da análise preliminar dos dados já colhidos, que estarão no artigo completo, é que a abordagem do trabalho doméstico remunerado na mídia tende a confirmar o que a teoria política crítica aponta sobre os media: de que a diversidade social é mal representada no discurso jornalístico, uma vez que perspectivas sociais são tratadas de forma hierarquizada e assimétrica, incorporando e reforçando pressupostos que ativam uma “ordem social” e política pré-existente, além de reforçar posições de subalternidade para categorias profissionais, naturalizar desigualdades de gênero e raça e entre o público e o privado nas relações de trabalho.

Denise Mantovani
Agenda-Setting: Mídia e opinião pública na dinâmica de políticas públicas

Introdução
Como uma questão se insere na agenda governamental, levando o governo a desenvolver políticas para lidar com um problema específico? Dada a grande quantidade de acontecimentos, fatos e problemas existentes no dia-a-dia e que mereceriam atenção dos atores governamentais, de que forma alguns temas são priorizados em detrimento de outros? O processo de definição da agenda governamental estaria relacionado à atenção do público ou dos meios de comunicação sobre alguns temas em específico? Essas são algumas das questões enfrentadas pelos pesquisadores que se dedicam a estudar o processo de formação da agenda governamental. As concepções, modelos e teorias utilizados pelos estudiosos que buscaram responder a essas questões são múltiplos e foram discutidos em diferentes áreas do conhecimento, sobretudo nos Estados Unidos, a partir da década de 1970.
Rogers e Dearing (1988), ao realizarem um extenso trabalho de identificação e mapeamento dos estudos sobre o processo de agenda-setting, identificaram a existência de três linhas de estudo fortemente desenvolvidas na área: (1) media agenda-setting (agenda midiática); (2) public agenda-setting (agenda pública); (3) policy agenda-setting (agenda das políticas públicas). De acordo com os autores, ainda que desenvolvidos de forma autônoma e em diferentes áreas do conhecimento, os três tipos de estudos apresentam forte relação teórica e metodológica na análise do processo de priorização de temas e formação da agenda, quer da mídia, da opinião pública ou dos formuladores de políticas governamentais, respectivamente. Existe, no entanto, uma tradição de pesquisa para cada um destes três tipos de agendas que envolve focos analíticos específicos. A primeira linha de estudo, sobre a agenda midiática, apresenta como principal objeto de estudo o processo de seleção dos assuntos que serão noticiados e enfatizados pelos veículos de comunicação de massa. A segunda tradição, da agenda pública, tem como principal variável a importância percebida pela opinião pública sobre um conjunto de temas, ou seja, está relacionada com a identificação das questões que o público considera importante. A terceira tradição, a agenda de políticas públicas, preocupa-se em estudar o processo de percepção e hierarquização de problemas que chamam a atenção dos formuladores de políticas e grupos próximos a eles.

Objetivo
Ainda que a trajetória dos diferentes estudos sobre as agendas tenha se distanciado ao longo do tempo, as últimas décadas evidenciaram a expansão das pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, com o desenvolvimento de novas formas de análise, métodos e focos de investigação. O objetivo do presente estudo consiste em recuperar o histórico dos estudos sobre agenda-setting, com base nas três tradições de pesquisa da agenda identificadas por Rogers e Dearing (1988), procurando apontar aproximações teóricas e metodológicas entre esses estudos. Em especial, procuramos discutir as conexões entre os estudos conduzidos no campo de políticas públicas, que têm com foco a agenda governamental, e os estudos relacionados à tradição da comunicação política. De forma geral, os estudos desenvolvidos no campo da comunicação têm estabelecido relações entre as agendas midiática e pública, porém pouca atenção tem sido dedicada à investigação da agenda de políticas públicas. Por outro lado, a literatura de políticas públicas tem desenvolvido estudos sobre agenda, desde os anos 1970, sem estabelecer um diálogo com a literatura produzida na área de comunicação. Entendemos que ambas tradições não apenas registram questões teóricas e metodológicas em comum, mas podem se beneficiar de uma aproximação.

Metodologia
Parte da explicação sobre o negligenciamento dos estudos sobre agenda midiática e pública, no campo de políticas públicas, decorre das distintas percepções dos autores sobre as conexões entre as diferentes agendas. Os dois modelos teóricos mais influentes na área atualmente, o “Modelo de Múltiplos Fluxos”, de John Kingdon, e o “Modelo de Equilíbrio Pontuado”, de Frank Baumgartner e Brian Jones, apontam para diferentes influências entre as agendas. Embora reconheça que grande parte dos estudos sobre agenda-setting considere a mídia como um instrumento poderoso na definição da agenda governamental, Kingdon afirma não ter confirmado essa expectativa em suas análises. Em seu estudo, o autor analisou o índice do New York Times, tendo considerado esse indicador irrelevante para compreender a agenda governamental, além de apontar dificuldades objetivas para sua análise. A agenda governamental, para ele, está mais relacionada à atuação de comunidades de especialistas, grupos de interesse e outros atores, do que à mídia. Por outro lado, Baumgartner e Jones observaram um importante papel da mídia na definição da agenda, possibilitando a análise tanto do nível de atenção a uma questão durante um determinado período, quanto da natureza dessa atenção. Do ponto de vista metodológico, os autores também basearam suas análises no índice do jornal New York Times, buscando identificar tanto a frequência de determinados temas na agenda midiática, quanto do “tom” da cobertura (positiva, negativa ou neutra), observação importante para desenvolver o cenceito de policy image, relacionado à representação das políticas públicas, no contexto do modelo teórico proposto. Adicionalmente, os autores basearam-se no Reader´s Guide to Periodical Literature, um guia de referência de publicações populares e especializadas publicadas nos Estados Unidos. Além da mídia, dados que permitam compreender a agenda pública também foram utilizados de forma distinta em estudos no campo de políticas públicas. Kingdon coletou dados de pesquisas de opinião pública, porém concluiu que eles não foram relevantes. Baumgartner e Jones utilizaram dados relacionados à opinião pública originados principalmente da pesquisa do Instituto Gallup sobre o problema mais importante do país (Gallup's Most Important Problem). Em estudo sobre três diferentes políticas públicas, os autores investigaram a relação entre as três agendas e mostraram que há momentos de aproximação entre elas, muito embora as questões tendam a permanecer na agenda de políticas públicas mesmo em momentos em que já não figuram nas agendas pública e midiática (Jones e Baumgartner, 2005).

Resultado
A presente proposta, de cunho teórico, pretende não apenas recuperar a trajetória das diferentes tradições de estudos de agenda-setting mas também apresentar projetos de pesquisas nacionais e internacionais recentes, destacando suas concepções teóricas e metodológicas, e as formas pelas quais buscam articular mídia, opinião pública e política no desenvolvimento de estudos sobre a dinâmica das políticas públicas.
 

Ana Cláudia Niedhardt Capella
Felipe Gonçalves Brasil
Renan do Prado Alves