área temática
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Sociologia Política

Resumo

A Sociologia Política é um campo de pesquisa que reconhece tanto a especificidade das instituições e do comportamento políticos como a sua inevitável interação com outras dimensões da vida social. Nesse sentido, a área temática aceita trabalhos produzidos segundo o espírito analítico geral desse “híbrido interdisciplinar”, para usar a expressão de Giovani Sartori. Os trabalhos submetidos devem, portanto, pautar-se pela mobilização conjunta de variáveis sociais (econômicas, culturais, sociais etc.) e variáveis políticas com vistas a aprofundar o entendimento de fenômenos e processos políticos. A área temática “Sociologia Política” pauta-se também pelo pluralismo metodológico, aceitando trabalhos que façam uso tanto de técnicas de análise quantitativas como das diversas técnicas qualitativas existentes no âmbito das ciências sociais.

Justificativa

Acreditamos que quatro justificativas sustentam a presente proposta: a) primeira, há algum tempo que a sociologia no Brasil tem se dedicado pouco ao estudo dos fenômenos políticos e, ao mesmo tempo, há um número cada vez maior de profissionais trabalhando na área de ciência política, mas a partir da perspectiva que aqui defendemos, e que encontram pouco espaço para discutirem seus trabalhos; b) há evidente proximidade entre os problemas substantivos e teóricos trabalhados nas duas disciplinas: a sociologia política e a ciênciapolítica; c) o Brasil tem forte tradição na área de sociologia política e, d) por fim, o conhecimento dos fenômenos políticos só tem a ganhar ao agregar aos achados de outras perspectivas teóricas e metodológicas a perspectiva abrangente da sociologia política.

SAT16 | Transformações recentes no universo das elites políticas brasileiras

quarta-feira, 31 de Agosto de 2016 - 14:15

Coordenadores

Mariana Gené (Consejo Nacional de Investigacíones Científicas y Técnicas, Argentina)

Debatedores

Mariana Gené (Consejo Nacional de Investigacíones Científicas y Técnicas, Argentina)

Apresentações

Gênero e Raça como categorias de análise política: estudo de casos

Objetivo: Este artigo compara a representação descritiva e substantiva de mulheres (N=15) com uma amostra randomizada de deputados homens (N=65) nas Assembleias Legislativas dos Estados do Espírito Santo, Bahia e Paraná (Legislatura 2015-2019). Recorte teórico: O modelo proposto, baseado na análise de papeis e mecanismos de socialização eleitoral, possibilita mensurar possíveis efeitos causados por fatores como gênero e cor da pele na produção legislativa e na atuação parlamentar das deputadas e deputados amostrados. Metodologia: Os dados para pesquisa foram coletados a partir do repertório biográfico e da produção legislativa das deputadas e dos deputados, disponibilizado pelas Assembleias Legislativas, de entrevistas semiabertas e de um questionário fechado de 65 itens, que permitiu estabelecer correlações entre as variáveis de interesse e comparar o perfil, a trajetória política e atividade parlamentar das deputadas com uma amostra correspondente de legisladores homens. Resultados: Comparados ao grupo de controle, foram encontrados índices significativamente maiores de produção legislativa específica entre representantes descritivos, embora nem todos os integrantes desses grupos atuem como “embaixadores” ou pautem sua atuação parlamentar preponderantemente em torno das questões pertinentes à democracia de raça e gênero.

Orlando Lyra de Carvalho Junior
Existe uma nova direita no Brasil? Uma proposta de classificação e análise de seu perfil social

Proposta de Apresentação de Trabalho (Artigo) - 10º Encontro Associação Brasileira de Ciência Política
AT Sociologia Política
Autores: Karolina Mattos Roeder (UFPR - http://lattes.cnpq.br/4060556525932093) e Bruno Bolognesi (UFPR - http://lattes.cnpq.br/5103554000522280).
Existe uma nova direita no Brasil? Uma proposta de classificação e análise de seu perfil social

Introdução
Em 2014 a direita brasileira voltou a crescer no parlamento, revertendo o movimento de queda constante do número de representantes na Câmara dos Deputados que se observava desde 1998. Em 2010 os partidos conservadores ganharam 36,3% das cadeiras; em 2014, 43,5%. Na Europa, a direita também tem apresentado avanços eleitorais importantes. Além disso, há o retorno da extrema-direita à cena política (Norris 2005; Mudde, 1996; Ennser, 2010) como mostram os casos da Grécia (Aurora Dourada), Alemanha (NPD), Reino Unido (Ukip) ou Hungria (Jobbik). Baseados em plataformas anti-imigrantistas e céticas em relação à integração do continente, os partidos europeus de extrema-direita – sendo os mais conhecidos a Frente Nacional da França e a Liga Norte da Itália – renovam o discurso do período dos totalitarismos. Em 2014, cerca de 140 deputados “eurocéticos” foram eleitos ao Parlamento Europeu. Na América Latina, há também, desde o final do século XX, uma reconfiguração do campo conservador e a ascensão ideológica e eleitoral de uma nova direita na Argentina (PRO) e no Chile (Evópoli). Apesar da importância de se compreender esse fenômeno nesses três países latino-americanos, tendo em vista o crescimento do Propuesta Republicana (PRO) no parlamento e com a eleição de seu candidato à Presidência da Argentina em 2015, Mauricio Macri, e o crescimento também evidenciado no Chile, através do Evolución Política (Evópoli), novo partido de direita chileno, buscamos no presente artigo trabalhar com dados de partidos, candidatos e eleitos exclusivamente brasileiros.

Objetivos
O objetivo deste paper é evidenciar o surgimento de uma “nova direita” no Brasil. Em alguns pontos, como no caso do conservantismo em relação aos costumes e das limitações impostas à liberdade pessoal, ela se alinha com a velha direita, herdeira direta da ARENA/PDS, e que serviu de sustentação política ao regime ditatorial-militar. Mas em outros pontos fundamentais, não. A nova direita brasileira está orientada para conviver com governos de esquerda, fazendo parte de suas coalizões de apoio, e admitir a existência de programas sociais. Por enquanto, a existência dessa “nova direita” partidária é uma hipótese a ser comprovada.

Metodologia
Analisamos os 23.219 candidatos a deputado federal e os 2.565 eleitos nas cinco últimas disputas nacionais: 1998, 2002, 2006, 2010, 2014. A referência para determinar o número de selecionados por partido foram os resultados das eleições. Foram desconsideradas as mudanças de partido entre a data da eleição e a data da posse do deputado no começo da nova legislatura, no início do ano seguinte. Como pretendemos discutir força eleitoral, e não trabalhar com proporções de bancadas partidárias, a estratégia é coerente. Para o estudo do perfil dos 23 mil candidatos, utilizamos também dados do TSE processados pelo Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Candidatos devem preencher uma ficha de inscrição padrão nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) dos respectivos estados onde concorrem. Essas fichas são mais tarde unificadas pelo TSE. Nela há, entre outras informações padrão (número do título de eleitor, cargo a que concorre, situação legal da candidatura, etc.), somente algumas que permitem descrever atributos dos indivíduos: local e ano de nascimento, idade ao se candidatar, sexo, grau de instrução máximo, estado civil, nacionalidade, cor da pele e ocupação principal. Todas essas informações são as declaradas pelo próprio aspirante no momento em que ele preenche a ficha de candidatura. Na análise dos dados, utilizamos o software de análise de dados estatísticos SPSS (Statistical Package for the Social Sciences).

Resultados
Além de conceituarmos a nova direita, também contextualizamos a velha direita na América Latina e descrevermos o processo de reordenamento do campo conservador nesse continente. Com isso, localizamos o surgimento de uma nova família de partidos, a nova direita, que se diferencia da direita tradicional, e que surge num contexto pós-“maré rosada” e o controle dos governos pela esquerda em diversos países latino-americanos, com atenção especial no Brasil, Chile e Argentina e, na análise dos dados eleitorais, somente Brasil.
Com posicionamento diverso da direita tradicional, a nova direita aceita as reformas e programas sociais implementados pela esquerda argentina, chilena e brasileira. Nesse sentido, classificamos os partidos dentro de critérios bem definidos e demonstramos o crescimento dos partidos de direita nas últimas eleições para a Câmara dos Deputados, observando os valores encontrados e os esperados estatisticamente, utilizando o resíduo padronizado (recurso estatístico que indica o dado que foge à probabilidade esperada estatisticamente).
Ademais, analisamos a distribuição dos candidatos da velha direita, nova direita e demais partidos, e também os dividimos por classes de ocupação (Políticos, Camadas médias, Empresários urbanos e rurais, Trabalhadores e Novas lideranças políticas). Nossos resultados apontam para a importância de uma classificação de partidos que atente para as diferenças entre as várias matizes ideológicas do campo conservador, que é em demasiado heterogêneo, da importância da análise de suas relações com as bases sociais, as cúpulas e o comportamento eleitoral. Além disso, o resultado da análise do perfil social da velha, nova direita e demais partidos, mostrou que os novos partidos de direita são formados por novas lideranças e trabalhadores, e caracterizado pela ausência de políticos profissionais, diferente da direita tradicional, composta majoritariamente por empresários e, dos demais partidos, em sua maioria compostos por políticos profissionais e por profissionais liberais.

Palavras-chave: partidos políticos; nova direita; recrutamento político; organização partidária; recrutamento partidário.

Referências Bibliográficas
ENNSER, L., 2010. The Homogeneity of West European Party Families: the Radical Right in Comparative Perspective. Party Politcs, 18(2), pp.151–171.
MUDDE, C., 1996. The Paradox of the Anti-Party Party: Insights from the Extreme Right. Party Politcsar, 2(2), pp.265–276.
NORRIS, P., 2005. Radical Right: Voters and Parties in the Electoral Market, Cambridge: Cambridge University Press.

Karolina Mattos Roeder
A competitividade das candidaturas não-brancas: disputa para a Câmara dos Deputados em 2014

A recusa em reconhecer o fundo racista das desigualdades brasileiras se constitui historicamente em um obstáculo à discussão sobre a ausência da população preta e parda da representação política. Ademais, a ausência de registro sobre a auto declaração racial das candidaturas quase impossibilitou análises mais robustas da questão para além da mera descrição da composição dos parlamentos eleitos. Apenas a partir das eleições de 2014, o TSE passou a solicitar a informação sobre a auto declaração da raça/cor para os pleiteantes a cargos públicos, o que permite contornar parcialmente as dificuldades para incorporação desse elemento na análise eleitoral no Brasil. Neste trabalho, recorremos a esses dados para dimensionar as condições da sub-representação de pretos e pardos na política.
Dados preliminares já indicam que a presença de pretos e pardos nas listas de candidaturas está aquém da proporção desse grupo na população de modo geral, embora tal discrepância não seja tão grande (Campos e Machado, 2015b). Por outro lado, tal discrepância aumenta substantivamente quando observamos a composição dos parlamentos nacionais e estaduais.
Avançando nessa agenda de pesquisa e nas hipóteses anteriormente levantadas pela área nos últimos anos, Campos (2015b) elencou algumas das principais justificativas para a baixa representação na população não-branca no Brasil. Entre os principais achados deste estudo, destacam-se os quatro fatores: os efeitos relativos ao número de candidaturas não-brancas, as variações entre as Unidades da Federação, a distribuição desigual do financiamento de campanha e o viés de recrutamento partidário.
O presente trabalho busca compreender de que modo essas e outras condicionantes impactam sobre o potencial de vitória de candidaturas não-brancas nas eleições para a Câmara dos Deputados. No entanto, para a avaliação desse efeito não será traçada a relação a partir da quantidade de votos obtidos pelos candidatos, como feito anteriormente. Isso porque a competição eleitoral se dá em uma estrutura de diferenciação dos votos obtidos, central à compreensão do jogo político. De tal forma que apenas uma restrita parcela das candidaturas estão efetivamente concorrendo por vagas, isto, somente um percentual mínimo dos candidatos têm realmente alguma chance de se eleger(Campos e Machado, 2015a). Compreender a presença – ou ausência – da população não-branca neste seleto grupo é, portanto, tão ou mais importante do que compreender aqueles que são efetivamente eleitos..
Para determinar quais fatores dificultam o acesso de não-brancos ao grupo dessas candidaturas competitivas, é possível usar como um proxy a própria votação obtidas pelos candidatos de modo geral. Isto é, aqueles candidatos que alcançam um numero de votos próximo àquele necessário para se eleger são, provavelmente, os mais competitivos do pleito em questão.. Não se pode, contudo, deixar de considerar o grau de arbitrariedade na definição desse recorte. Não obstante, consideramos ser necessário levar em conta uma análise que problematize essa dimensão, pois mais importante do que verificar a distância entre um candidato que recebe 500 votos e aquele que recebe 5 mil votos vem a ser compreender a diferença entre um candidato que recebe 98 mil votos e outro que recebe 97 mil votos, em uma eleição em que é necessários 98 mil votos para se eleger, pois apenas os últimos dois casos estariam efetivamente com possibilidade de se eleger.
A abordagem metodológica proposta neste trabalho visa testar os efeitos das diversas condicionantes consideradas relevantes para o sucesso eleitoral considerar a variação da votação em torno dos decis de sua distribuição, possibilitando comparar os efeitos da raça das candidaturas considerando grupos de um mesmo perfil de capacidade de captação de votos.
Todos esses dados servem para subsidiar um debate mais normativo, que busca responder (i) em que medida a exclusão de pretos e pardos da representação deve ser entendido como um traço injusto ou antidemocrático do nosso sistema político e (ii) até que ponto é legítimo e adequado pensar em políticas para inclusão de pretos e pardos na representação. No âmbito da teoria política, há uma grande quantidade de trabalhos dedicados a pensar a pertinência e as políticas de inclusão de grupos na representação (Phillips, 1995; Young, 2000; Mansbridge, 1999; Williams, 2000; Norris, 1997). Ainda que essa discussão seja eventualmente aventada em debates legislativos ligados à reforma política, os projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional voltados para esse problema foram formulados sem um conhecimento mínimo dos processos de alheamento dos não-brancos da representação. Assim sendo, diagnosticar os nós da estratificação política que tornam a representação um espaço majoritariamente branco é fundamental para avaliar e formular mecanismos institucionais capazes de mitigar essa desigualdade.

Referências
CAMPOS, Luiz Augusto (2015). Socialismo moreno, conservadorismo pálido? Raça e recrutamento político nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro (2012). Dados, v. 57, n. 2.
_____________ (2015b). O que afasta pretos e pardos da representação política? Uma análise a partir das eleições legislativas de 2014. 39º Encontro Nacional da ANPOCS. Caxambu.
CAMPOS, Luiz Augusto ; MACHADO, Carlos (2015a). A cor dos eleitos: determinantes da sub-representação política dos não-brancos no brasil. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 16.
______________ (2015b). A Raça dos (In)eleitos. Insight Inteligência. p. 60-72.
MANSBRIDGE, Jane (1999). "Should Blacks Represent Blacks and Women Represent Women? A Contingent "Yes"". The Journal of Politics, vol. 61, n. 3, pp. 628-657.
NORRIS, Pippa (1997). Passages to Power: Legislative Recruitment in Advanced Democracies: Cambridge University Press.
PHILLIPS, Anne (1995). The Politics of Presence. Oxford University Press, USA.
PITKIN, Hanna Fenichel (1967). The Concept of Representation. Berkeley: University of California Press.
WILLIAMS, Melissa (2000). Voice, Trust, and Memory: Marginalized Groups and the Failings of Liberal Representation. Princeton University Press.
YOUNG, Iris Marion (2000). Inclusion and democracy. Oxford ; New York: Oxford University Press.
 

Carlos Augusto Mello Machado
Luiz Augusto de Souza Carneiro de Campos
Vínculos pessoais, origem sócio-ocupacional e “protagonismo local”: um mapeamento dos mecanismos postos em marcha nos processos de escolha dos prefeitos nomeados no RS entre 1964 e 1985

Ao longo de todo o período autoritário, o governo federal manteve (em uma relação às vezes tensa com a Arena) o controle sobre o processo de definição dos ocupantes do Executivo nos estados da Federação e em contingente significativo de municípios brasileiros. No Rio Grande do Sul, 29 municípios foram denominados como Área de Segurança Nacional (ASN). Tal contingente engloba conjunto significativamente heterogêneo de municipalidades, indo desde a capital do estado (Porto Alegre) e região metropolitana (Canoas), passando por cidades de médio porte (Uruguaiana e Rio Grande) e chegando a cidades muito pequenas, localizadas principalmente perto da região da fronteira (Herval).
O fato de o cargo de prefeito estar fora da disputa eleitoral modificou drasticamente a disputa entre lideranças e/ou grupos políticos locais pelo seu controle. Nesta nova arena de disputa, fatores como redes de relações pessoais com deputados, governadores, ex-governadores, generais que ocupavam postos-chave em Brasília e até mesmo com familiares do general-presidente passaram a ser fatores decisivos para potencializar “candidaturas” à nomeação. Contudo, o depoimento de parcela significativa dos ex-nomeados deixa claro que são características individuais dos mesmos, como a “liderança social”, a “liderança política” ou o “empreendedorismo econômico” que são mobilizadas para legitimar tais nomeações.
Assim, aspectos como a ocupação (professor, profissional liberal, fazendeiro, comerciante, industrial, etc.), os vínculos sociais (Lyons, Rotary, direção de clube de futebol, de sindicato rural, etc.), são convertidos em trunfos que legitimam a escolha destes nomes, ao mesmo tempo em que ocultam relações e redes de influência que, por sua vez, são cruciais para se entender tais nomeações.
Com a transição para o regime democrático, marcado pela reforma partidária de 1979 e pelo final das nomeações em 1985, muda novamente o jogo pelo acesso e pelo controle dos executivos municipais. Quando lideranças de esquerda e de oposição mais sistemática ao regime retornam à legalidade e do exílio; quando a oposição moderada (MDB) ganha terreno no cenário eleitoral e quando a franquia eleitoral volta a ser o palco central das disputas pelo paço municipal, o controle exercido pelos nomeados nos executivos municipais passa a ser frontalmente posto à prova.
Neste novo cenário, em que outros trunfos são capitalizados politicamente (o “heroísmo” dos exilados e o desgaste do regime, por exemplo), os prefeitos nomeados passam a enfrentar sérias dificuldades para a manutenção de carreiras políticas. Se no âmbito da nomeação, características individuais dos nomeados encobrem laços com representantes do regime, no momento da derrota eleitoral será justamente o vínculo com o regime (“deixado em segundo plano” para explicar a nomeação) que será mobilizado (e não sem razão) pelos ex-nomeados para justificar/explicar fracassos eleitorais.
Este trabalho apresenta a continuidade de pesquisa desenvolvida no âmbito do PPG em Ciências Sociais e do Centro Brasileiro de Pesquisas em Democracia da PUCRS desde 2009. Tal pesquisa combina análise quantitativa (dados de origem sócio-ocupacional, dados eleitorais e dados acerca dos cargos eletivos e não eletivos ocupados pelos 107 prefeitos nomeados no RS ao longo de suas respectivas carreiras) e análise qualitativa (37 entrevistas em profundidade: 34 ex-nomeados, uma esposa de ex-nomeado, uma filha de ex-nomeado e um ex-governador do estado do RS). Nesta fase da pesquisa, os padrões de recrutamento dos nomeados serão analisados a partir das relações pessoais e da origem sócio-ocupacional dos mesmos. A sobreposição de tais dados às estratégias identificadas nas entrevistas para explicar/justificar nomeações, derrotas e vitórias eleitorais antes e após o regime civil-militar permitirá identificar como as mudanças do contexto de disputa pelo controle das prefeituras impactou a dinâmica política em âmbito local no Rio Grande do Sul.

Rafael Machado Madeira

SAT32 | Carreiras políticas e representação em múltiplos universos

quarta-feira, 31 de Agosto de 2016 - 16:45

Coordenadores

Adriano Nervo Codato (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Debatedores

Miguel Serna (Universidad de la República)

Apresentações

Faces partidárias na esfera virtual: a atuação política das lideranças da Câmara dos Deputados no Facebook

Com base na sociologia dos partidos políticos e partindo do contexto teórico que entende participação como parte essencial da representação e da redução de déficits democráticos, o artigo analisa como as lideranças partidárias da Câmara dos Deputados usam seus perfis no Facebook. Nesse sentido, a rede social é um mecanismo importante na democracia digital, pois pressupõe o uso de tecnologias digitais para suplementar, reforçar ou corrigir aspectos das práticas políticas numa comunidade democrática (GOMES, 2011).
Para entender como essa prática ocorre em uma das redes mais usadas, o trabalho tem dois focos de análise: de conteúdo (tema, objetivo e comentários do post) e potencial interativo dialógico (número de compartilhamentos, curtidas, seguidores e respostas). São analisados todos os posts das 20 lideranças de partidos na Câmara com página no Facebook, no período de 1 a 31 de outubro de 2015.
O maior número de posts é do PSOL, com 173 publicações em outubro, uma média diária de 5,58 posts. A taxa de compartilhamento por publicação fica num valor médio, em comparação aos demais partidos: 49,48. Embora o segundo maior número de posts seja do PSD (158), este é o partido com menor taxa de compartilhamento por post (2), pois seu conteúdo se restringe a notícias próprias sobre atuação individual dos membros da bancada. PT e PSDB, por outro lado, embora tenham somente 68 e 77 posts, respectivamente, apresentam taxa de compartilhamento de 682,9 e 321,9. O perfil do PSDB está focado na guerra política antigoverno, com alto apelo público, com a maior média de curtidas por post (40.698,3). O enquadramento de disputa incita as pessoas a se manifestarem e tomarem um lado.
Em todos os perfis há predomínio da lógica da política de visibilidade, com o propósito de usar o perfil do Facebook para divulgar informações seletivas de acordo com os interesses do partido. Os perfis relevam intensa polarização política, com o objetivo de atacar ou defender o Governo. Uma exceção a essa regra é o PSOL, com poucas publicações destinadas a criticar ou elogiar o governo. O foco da política de visibilidade são os próprios partidos e os demais atores políticos e agentes governamentais que fazem interlocução com a arena partidário-parlamentar. Trata-se, portanto, de um circuito restrito de interlocução política e não de um sistema amplo e aberto de debate. Por essa razão, os demais atores sociais são quase excluídos do diálogo político. Os dados mostram ainda que quase não há interesse dos partidos em envolver atores da sociedade civil no debate político protagonizado pelos perfis das lideranças no Facebook, com a exceção do PSOL, cujo perfil cita lideranças sociais em 28,32% dos posts O foco das lideranças nas dinâmicas internas das lutas políticas e dos embates entre os próprios partidos, no âmbito da esfera legislativa, limita o potencial de interação das redes sociais.
Por essa razão, a maioria dos perfis é praticamente monotemática, com foco no jogo político polarizado entre oposição e situação, e ênfase para os enquadramentos de conflito, disputa política e controvérsias. Novamente, o perfil do PSOL constitui uma exceção à regra, com 39,31% dos posts dedicados ao tema da corrupção (especialmente a crítica ao presidente da Câmara) e 13,87% versando sobre temas sociais, entre outros 13 assuntos que aparecem nas publicações durante o mês analisado. Nos outros partidos, elenco temático é dominado pela categoria política geral, que chega a ser de 54% e 86,8% nos casos do PT e do PSDB. Em segundo lugar aparece a categoria economia, 13% e 10% nos mesmos partidos. Os demais temas da agenda política que fogem ao escopo central de lutas políticas aparecem com baixíssima frequência, como saúde, educação, segurança e meio ambiente.
A lógica de visibilidade se confirma no PSD, PSB e PRB, mas de forma diferente. Os três têm equipes próprias para produção de material jornalístico. O PSD chega a ter equipe de rádio e TV. Mas eles praticamente só divulgam a atuação da bancada em comissões ou algum discurso temático em plenário (em mais de 70% dos casos). As crises políticas (dentro da Câmara e no Governo) praticamente passam desapercebidas. Ou seja, o jogo político está fora, diferentemente do que acontece em perfis como o do PSD e do PT, que divulgam mais notícias de outros veículos (mídia nacional em mais de 70% dos casos). No PSD, o pouco que há sobre a crise encontra-se inserido nos posts com o resumo do noticiário do partido. Nos posts cujo conteúdo único, o assunto geralmente é atuação em comissões ou outras pequenas coisas. Daí, por exemplo, a média, por post, de curtidas (7,6), compartilhamentos (7,6) e comentários (0,1) ser muito baixa em relação a perfis como PSDB, PSOL e PT, que divulgam mais o jogo político. Ou seja, o usuário de rede social parece não ser atraído por conteúdos formais de noticiário com vista a accountability política. Ele interage mais em posts com conteúdo do jogo político, com enquadramento de conflito.
Quanto à interatividade, os dados mostram que não existe a função de mediação pelos agentes que gerenciam os perfis das lideranças. A prioridade é publicar os conteúdos previamente selecionados, sem prioridade para responder os comentários dos cidadãos. A taxa de resposta é irrisória em todos os casos. Por essa razão, o que predomina é a interação entre os próprios cidadãos, quando acontece, sem a participação das lideranças no debate.
Dos dados analisados até agora, observa-se que no plano da interação entre os cidadãos o elemento predominante é a opção “curtir”, o “compartilhamento” vindo em segundo lugar. A alternativa “comentário” é utilizada em menor escala. A interação ativa propriamente dita, ou seja, o comentário, é menos utilizada, pois exige mais atenção, habilidades cognitivas e o ato de escrever, além de requer mais tempo do cidadão conectado.
Chama atenção o poder de atração dos vídeos. Quanto maior o número de vídeos publicados, maior o número de curtidas e compartilhamentos. Os tradicionais textos com foto ou apenas textos rendem menor audiência online. Apesar disso, observa-se um predomínio dos recursos texto e foto nas postagens.

Antonio Teixeira de Barros
Cristiane Brum Bernardes
Rodrigo Albuquerque
Perfil de carreira e percepção política dos vereadores da grande Vitória (ES)

O atual desenho institucional do sistema político brasileiro combina o presidencialismo com um regime político democrático e um modelo de Estado federal. Tal formato também conta com a presença de um sistema eleitoral de representação majoritária e proporcional com lista aberta, abrigando, atualmente, 35 legendas partidárias (multipartidarismo) em constante disputa na arena eleitoral. No bicameralismo brasileiro, do total de 35 partidos, 28 têm assento na Câmara dos Deputados e 15, no Senado Federal. Esta combinação vem promovendo uma séria de discussões de natureza política e acadêmica a seu respeito, estimulando cada vez mais o interesse dos analistas para entender a lógica do seu funcionamento. Este interesse tem produzido inúmeros estudos sobre o desempenho das instituições que compõem o desenho atual, em especial dos poderes Executivo e Legislativo, seja na esfera nacional ou subnacional. A literatura neo-institucionalista destaca que as instituições são importantes na análise do sistema político e, consequentemente, temos que acrescentar que os membros das elites também são relevantes, pois são eles que operam diretamente as instituições. Scott P. Mainwaring destaca que a tarefa de compreender um sistema político torna-se mais difícil se nós não damos uma atenção especial aos membros das elites. Neste sentido, esta comunicação dedicará ao estudo das elites na esfera subnacional, com ênfase especial ao âmbito municipal. Sabe-se que os municípios brasileiros, desde 1824 até 1988, passaram por um processo de readaptação política, administrativa e econômica de suas instituições. A posição atual dos municípios é bem diversa da que ocuparam nos arranjos constitucionais anteriores. Comparado com o do período de 1946 a 1964, a autonomia municipal no atual regime democrático passou a ser exercida de direito e de fato nas administrações locais. Apesar da relevância que os municípios passaram a ter a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, as referências e pesquisas sobre os parlamentares municipais são poucas. Esta comunicação tem o propósito de analisar o perfil de carreira e as percepções políticas dos vereadores dos municípios de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica, Estado Espírito Santo, e as principais indagações que orientaram o trabalho de campo foram: Quem nos governa? Que pessoas são essas que tomam as principais decisões no âmbito municipal? Qual o perfil das elites parlamentares locais? O que pensam sobre a democracia? A comunicação procura elucidar, empiricamente, estas indagações para o debate sobre as elites parlamentares locais e o papel que desempenham na política municipal. O recorte temporal foi o ano de 2015 e a técnica de coleta apoiou-se no questionário da pesquisa “Organização da política representativa paulista”, sob coordenação das professoras Rachel Meneguello e Maria Teresa Micelli Kerbauy. Autorizado o uso do questionário, o mesmo passou por um processo de avaliação e foi reestruturado para adequar aos propósitos da pesquisa que dá origem a esta comunicação. A aplicação do questionário atingiu um total de 56 vereadores contemplando a representatividade amostral da pesquisa. Os dados coletados passaram primeiramente por uma análise de consistência, depois foram codificados e inseridos em planilhas computacionais. Para o gerenciamento e a análise do banco de dados foi utilizado o software Sphinx. Até o momento, os dados revelaram que (a) a principal meta política é continuar no cargo de vereança, mas alguns almejam os cargos de prefeito, deputado estadual e federal, (b) a principal fonte de financiamento na última eleição municipal foi o recurso próprio, mas alguns tiveram apoio financeiro do partido ou coligação, (c) das bases de apoio eleitoral, quase 90% disseram que é composto por moradores de um determinado bairro ou região do município e (d) a democracia está estável e ela é superior a outros regimes políticos.
Palavras-chave: Município, Elite Política, Vereador, Perfil de Carreira, Percepção Política.

Riberti Almeida
Os efeitos da mobilidade sócio ocupacional no recrutamento político dos senadores brasileiros durante a primeira metade de século XX

Introdução

Para Robert Dahl (1989), uma das características que distingue sistemas políticos oligárquicos de pluralistas é a transformação das desigualdades cumulativas em desigualdades dispersas, que ocorre quando as sociedades passam por processos de modernização de sua estrutura socioeconômica.
A ideia é que a diferença na distribuição de recursos econômicos (como renda ou propriedade) seja acentuada com a concentração de ativos decisivos para o sucesso no jogo político eleitoral, como por exemplo fazer parte de uma família com tradição política. Além da família, o acesso ao ensino superior também funciona no sentido de concentrar as desigualdades entre “patrícios” e “plebeus”, pois se a universidade oferece uma primeira oportunidade de socialização no mundo da política, e se ela era frequentada apenas pelos filhos da oligarquia, então é esperado que esse ativo se acumule com os demais, aumentando o fosso social que separa o extrato dos indivíduos que governam dos demais membros de uma comunidade política. Neste caso, por mais extensiva que fosse a consulta popular nas eleições, e por mais intensiva que fosse a disputa entre grupos oligárquicos, o perfil da classe dos indivíduos que governam acabaria por refletir a exclusividade das hierarquias de poder político e prestígio social.
Por outro lado, à medida em que as sociedades se modernizam isso tenderia a se modificar, pois o aumento da população e sua concentração em centros urbanos são podem desarticular redes de influência que perpetuavam uma elite muito homogênea do ponto de vista das origens sociais. A disputa eleitoral é processada de modo diferente, pois o aumento de eleitores complexifica o processo de agregação dos interesses. O partido de massas é a principal resultante desse processo, mas além dele, uma peculiaridade dos sistemas políticos pluralistas é o surgimento de novos ativos políticos, como “popularidade” – uma qualidade desnecessária ao antigo patrício, que pode explicar a sua conversão aos sistemas de valores posteriormente encontrados nos líderes populistas (justiça social, defesa do valor intrínseco do trabalho, etc.)
Essa situação não implica no desaparecimento das desigualdades entre quem governa e quem é governado, mas em uma mudança na natureza da diferença. Segundo Dahl, “A indústria moderna – que frequentemente tem sido representada como um desenvolvimento que produz a convergência de recursos políticos nas mesmas mãos – ajudou, ao menos em New Haven, a fragmentar e dispersas os recursos políticos em diferentes grupos na comunidade.” (Dahl 1989, p.30). No estudo clássico sobre as elites da cidade New Haven, Robert Dahl utiliza as profissões da elite política como um dos indicadores empíricos para observar essa mudança do mundo social de onde a elite é proveniente.

Objetivos e Metodologia

Os aspectos acima referidos justificam a proposta deste trabalho: a pesquisa faz um levantamento das ocupações dos 505 indivíduos que exerceram o mandato de senador entre 1890 e 1962. O exercício empírico elementar consiste em comparar a ocupação exercida pelo senador antes do ingresso na vida política com a atividade do seu pai. Utilizaremos estatísticas descritivas para comparar o comportamento de uma variável dummy (ter ou não a mesma profissão que o pai) nos diferentes estados da federação (para aferir as variações espaciais).
Esperamos com isso apresentar um indicador objetivo de dois fenômenos cuja mensuração empírica é sempre insuficiente e precária, quais sejam, o pertencimento de um indivíduo a um segmento sócio ocupacional específico, e os movimentos de ascensão ou de queda nas hierarquias de status social. Assim, o objetivo deste trabalho é mensurar se o ingresso na atividade política foi acompanhado de uma mudança de ocupação em relação à geração imediatamente anterior – em que pese as importantes diferenças do léxico “profissão” e “ocupação” (Coelho 1999), utilizaremos neste trabalho os termos de modo intercambiável.
Experimentos baseados em dados dos pais frequentemente se deparam com o problema da ausência de informações (Barman & Barman 1976, p.446, nota 08; Love & Barickman 2006; Canton 1966). Nosso caso não é diferente, obtivemos os dados para somente 45,1% do universo, ou 228 dos 505 indivíduos que exerceram o mandato senatorial. Decidimos realizar a análise mesmo sabendo que o missing é de 54,9%, para não descartar o que sabemos os 228 senadores. Os dados foram compilados pelos pesquisadores do NUSP/UFPR, a partir dos verbetes do DHBB e de informações elaboradas pelo PRODASEN e disponibilizadas pela Coordenação de Arquivo do Senado Federal.

Resultados

Os resultados estão apresentados na tabela 01

Tabela 01 (disponível em https://goo.gl/B76jcu)

Os pormenores da classificação serão discutidos no artigo. Por ora basta informar que somente em cinco casos o filho de coronel se elegeu após 1945. O cotejo entre as profissões dos indivíduos com seus pais permite examinar se há diferença de universo social entre as duas gerações, e em que sentido. Esses resultados estão dispostos na tabela 02

Tabela 02 (disponível em https://goo.gl/8aJxMp)

Na maior parte das observações (148 casos) não se contatou diferença de universo social entre pais e filhos (64,9%). Nos 80 casos de senadores onde há essa diferença os resíduos revelam que a maior parte da mudança social ocorreu do campo para a cidade, mas a mudança da capital para o interior não é inexpressiva. Esses são achados empíricos suficientes para aprofundar a hipótese, que postula a interseção entre os processos de organização e industrialização e a divisão social do trabalho político no âmbito familiar.
Referências
Barman, R. & Barman, J., 1976. The Role of the Law Graduate in the Political Elite of Imperial Brazil. Journal of Interamerican Studies and World Affairs, 18(4), pp.423–450.
Canton, D., 1966. El parlamento Argentino en épocas de cambio: 1980, 1916, 1946., Buenos Aires: Editorial del Instituto.
Coelho, E.C., 1999. As Profissões Imperiais: medicina, engenharia e advocacia no Rio de Janeiro, 1822-1930, Rio de Janeiro: Record.
Dahl, R.A., 1989. Who governs? Democracy and Power in a American City, Yale University Press.
Love, J.L. & Barickman, B.J., 2006. Elites regionais. In Por outra história das elites. Editora da Fundação Getúlio Vargas, pp. 77–97.

Lucas Massimo Tonial Antunes de Souza
Representar al pueblo, carreras políticas de los diputados nacionales por la provincia de Buenos Aires 1999-2015
Cintia Rodrigo
Mudanças no perfil dos Deputados Federais dos três principais partidos brasileiros (PMDB, PSDB, PT) em 24 anos de democracia (1990-2014)

Este trabalho tem como objetivo identificar as principais mudanças e tendências do perfil dos Deputados Federais dos três principais partidos do atual sistema político brasileiro, PMDB, PSDB e PT, ao longo dos últimos 24 anos. Para tanto é analisado o perfil dos deputados desses partidos eleitos em três legislaturas com doze anos de diferença entre cada uma: 1990 (primeira legislatura após a completa redemocratização do país), 2002 (quando se produz uma mudança política significativa com o acesso ao poder do PT), e 2014 (atual legislatura). Os trabalhos sobre perfil dos representantes políticos no Brasil em geral centram as análises em uma única legislatura, sendo poucos os que fazem uma análise ao longo do tempo das características dos legisladores. Após um quarto de século de experiência democrática contínua, a análise da evolução do perfil dos representantes políticos dos principais partidos do país se faz relevante e oportuna. As fontes para a coleta de dados foram: STE, Câmara dos Deputados, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro da FGV e páginas pessoais dos deputados. São consideradas as seguintes variáveis: sexo, idade, escolaridade, formação (título) e profissão.

Vinicius Gomes da Silva

SAT48 | Clientelismo político, movimentos sociais e militância política

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 13:45

Coordenadores

Martín Armelino (CONICET-IIGG UBA)

Debatedores

Martín Armelino (CONICET-IIGG UBA)

Apresentações

Condicionantes para o clientelismo no poder local brasileiro
Matheus Müller
Jennifer Azambuja de Morais
O efeito do Programa Bolsa Família sobre a redução das ocupações de terra no Brasil

Inserindo-se no debate mais amplo sobre a capacidade dos movimentos sociais em recrutar participantes para ações de risco, o presente trabalho tem como principal objetivo analisar se houve algum efeito do Programa Bolsa Família (PBF) sobre o emprego das ocupações de terra no Brasil. As ocupações compõem o repertório de ação dos movimentos sociais que vêm reivindicando a profunda transformação da estrutura fundiária brasileira desde o início dos anos 1960. Com a intensificação da repressão, após o golpe de 1964, esta forma de ação foi solapada, voltando a ser empregada no final dos anos 1970. Nas décadas de 1980 e 1990, a ocupação se estabeleceu como a principal forma de reivindicar a desapropriação e redistribuição das terras. Segundo o Banco de Dados de Luta Pela Terra (DATALUTA), apenas na década de 1990 foram empreendidas mais de três mil ocupações em diferentes regiões do país. No entanto, a partir da segunda metade da década de 2000, o número de ocupações de terra começou a diminuir consideravelmente. Depois de atingir o ápice de 856 ocupações apenas no ano de 1999, em 2010, foram registradas 166 ações deste tipo, ou seja, 690 a menos. Por causa dessa redução acentuada, abriu-se um intenso debate público sobre essa questão e o PBF foi considerado por muitos analistas como uma variável importante para explicar tal fenômeno. Mas, apesar do amplo debate público, curiosamente, nenhuma análise sistemática foi realizada para avaliar a existência de possíveis efeitos do PBF sobre o emprego das ocupações. Diversas pesquisas se propuseram a analisar os efeitos do PBF sobre a pobreza, a desigualdade, a frequência escolar, os gastos com a alimentação, o trabalho infantil, o voto, entre outras variáveis, mas poucos se propuseram a analisar os efeitos do PBF sobre as ações dos movimentos sociais. Deste modo, o presente trabalho pretende contribuir com esse debate analisando especificamente a relação entre o PBF e a redução das ocupações de terra no Brasil. Numa pesquisa realizada durante 2014, pude constatar que o fato dos chamados “sem-terra” conceberem o conflito como a melhor forma de resolver seus problemas materiais apresenta-se como um dos principais motivos para eles aderirem às ações organizadas pelos movimentos sociais. Portanto, quando se tem um canal de melhoria material aberto, espera-se que o conflito deixe de ser a alternativa mais interessante e que, consequentemente, mobilizar os “sem-terra” para ocupar imóveis rurais passe a ser mais custoso aos movimentos sociais. Assim, o trabalho partiu da hipótese que o PBF contribuiu para a redução das ocupações de terra ao incrementar a renda dos cidadãos mais pobres, desmotiva-os a escolher viver sob as duras condições impostas nos acampamentos para “melhorar de vida”. Para testar esta hipótese, tomei como unidade de análise o município/ano e empreguei os modelos de Regressão Linear, Poisson Padrão, Poisson Inflacionado de Zeros e Hurdle Poisson, pois os dados de contagem da variável resposta (número de ocupações de terra) possuíam excesso de zeros, isto é, a maioria dos municípios/anos não havia presenciado ocupações. Utilizei como variáveis independentes o Gini da terra, a área plantada, o número de assentamentos criados, o número de pessoas em situação de pobreza, assim como o número de pessoas em situação de extrema pobreza, e o número de beneficiários do PBF, sendo esta última a minha variável de interesse. Com base no resultado do modelo Hurdle Poisson – que foi o que melhor se ajustou aos dados utilizados –, pude encontrar evidências robustas de que o PBF teve efeitos consideráveis sobre a redução das ocupações de terra no Brasil.

Ramon Torres Araujo
O exílio como ativismo transnacional na América Latina: padrões de ação política e redes (in)formais

O exílio é parte constituinte do confronto político latino-americano desde as guerras de independência, embora apenas recentemente tenha recebido maior atenção da sociologia e da ciência política. Isto talvez deva-se à mudança no caráter do exílio na América Latina nas últimas décadas, fruto da convergência de dois processos: por um lado, sua massificação; e, por outro, o fortalecimento de sua atuação política através de redes transnacionais. Como sugeriu Roninger (2010), se outrora ele era destinado às elites políticas enquanto um mecanismo de exclusão institucionalizado com menor custo para os Estados, a partir da segunda metade do século XX, ele também passou a ser utilizado para excluir setores mais populares. A entrada da sociedade (civil) na arena internacional através de redes de atuação política que se baseiam em solidariedades transnacionais, marcou essa nova etapa do exílio na América Latina, tornando-o uma arena política ainda mais complexa.
Analisado muitas vezes a partir de trajetórias individuais, corre-se o risco de deixar de lado a sua dimensão processual, bem como suas bases políticas, econômicas, culturais e sociais. Além disso, a atuação política dos exilados é marcada por “turbilhões de transformações políticas”. Confluem neste processo vários elementos, tais como as articulações com novas coletividades, a inserção em culturas políticas diferentes, as transformações identitárias, as relações ambivalentes entre o lugar de “origem” e de “destino”, as construções de redes de confiança e incidência e as bruscas mudanças de regimes políticos. Tal como argumentado por Tilly e Tarrow (2008), estas transformações causam fortes impactos na estrutura de oportunidades e restrições políticas.
De todo modo, se mesmo para atores políticos nacionais e institucionalizados a interpretação de sua conduta enquanto pura reação racional aos constrangimentos impostos pelo regime parece ser insuficiente, no caso dos exilados, essa insuficiência fica ainda mais evidente. Nos alinhamos com Renato Perissinotto e Adriano Codato quando ressaltam que “perguntar-se sobre a história pregressa, a origem de classe ou os valores culturais dos agentes políticos/sociais” (PERISSINOTTO; CODATO, 2009, p.250) é fundamental para a compreensão da ação política.
No caso da ação política no exílio, essa reflexão parece ser ainda mais fundamental, uma vez que além dos constrangimentos impostos pelas regras institucionais, restrições adicionais são impostas aos exilados. A saída forçada do país priva o militante do contato com boa parte do seu meio social e cultural e, com isso, o desloca das redes com as quais estava habituado a atuar politicamente. Além disso, a “condição exilar” exclui o ativista das arenas políticas institucionais. Contudo, se por um lado, as barreiras institucionais e sociais impostas à ação política no exílio podem ser muito maiores do que aquelas comumente estabelecidas pelos regimes políticos no plano interno, por outro, o exílio apresenta novas oportunidades políticas aos migrantes forçados. As novas redes nas quais inserem-se ao partirem para o exílio são as principais responsáveis por essas possibilidades de dinamização. Segundo Paulsen e McAdam, além de serem fundamentais para a transposição de barreiras importas à militância, também funcionam como condutoras de valores, suporte e recursos (PAULSEN, MCADAM, 1993).
A massificação do exílio também causou a diversificação das redes dispostas a acolher os migrantes. Enquanto durante boa parte da modernidade as redes de acolhida eram marcadas pela sua vinculação e mediação com o Estado acolhedor - inserindo os exilados em um jogo de estrutura tríplice –, na atualidade, elas passaram a ser cada vez mais diversificadas e complexas, incluindo redes transnacionais altamente descentradas e informais.
Apesar desta tendência, boa parte das pesquisas sobre o exílio latino-americano ainda o enfatizam os seus aspectos mais formais e institucionais. Como forma de ampliar e dialogar com esta literatura, o objetivo deste artigo é analisar a coexistência de padrões diversos de exílios políticos entendidos como um objeto empírico privilegiado para o estudo do ativismo transnacional contemporâneo. As pesquisas que deram origem a esta proposta de artigo nos levam a sugerir que além dos políticos e intelectuais de “alto nível”, com redes fortes e com certo grau de penetração no espaço público, passou a existir, com a massificação do exílio, um perfil de exilados mais “popular”. Estes exilados mais “invisíveis” são vinculados a movimentos sociais de base e a alianças informais.
Uma vez que as redes funcionam enquanto mobilizadoras de recursos e incentivos para a ação, pode-se afirmar que as redes abriram canais diversos de atuação política e conduziram valores díspares aos exilados. Diante da inexistência de canais institucionais de participação à disposição de exilados, a compreensão das mesmas parece ser fundamental para a análise da transformação e transnacionalização da estrutura de oportunidades políticas promovida pelo exílio.
Diante deste cenário, esta proposta busca, em primeiro lugar, discutir, no plano conceitual, o exílio como um tipo específico de ativismo transnacional, dialogando criticamente com a literatura da sociologia política que analisa a ação coletiva para além do Estado-nação; em segundo lugar, em um nível mais metodológico, será proposta uma proposta inicial de tipologia de padrões de exílio como ativismo transnacional, que possam combinar o perfil político e/ou intelectual com o perfil “militante de base” dentro de uma interpretação mais abrangente. Finalmente, o foco recai em uma exploração empírica e comparativa de ambos os padrões, exemplificados nos casos do grupo de brasileiros vinculados ao governo deposto que se exilou no Uruguai após o golpe de 1964 e em alguns militantes de movimentos de base paraguaios que se exilaram no Brasil na década de 1970. Espera-se que a exploração empírica de dois padrões diversos contribua à discussão teórico-metodológica dos estudos sobre o exílio em sintonia com o debate de outros campos de estudos próximos, como, por exemplo, os movimentos sociais e as migrações.

McADAM, D.; PAULSEN, R. Specifying the relationship between social ties and activism. American Journal of Sociology, vol. 99, n. 3, 1993.
PERISSINOTTO, R.; CODATO, A. Classe social, elite política e elite de classe: por uma análise societalista da política. RBCP, v. 2, 2009.
RONINGER, L. Exílio massivo, inclusão e exclusão política no século XX, Dados, v. 53, n. 1, 2010.
TILLY, C.; TARROW, S. Politique(s) du conflit : De la grève à la révolution. Paris: Sciences Po, 2008.

Teresa Cristina Schneider Marques
Breno Bringel
Contribution to sociology of working-classes politicization. A qualitative analysis of the political ambivalence in contemporary working-class youth in France
Barrault-Stella Lorenzo

SAT64 | Elites políticas e econômicas: novas miradas

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 16:00

Coordenadores

Adriano Nervo Codato (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Debatedores

Adriano Nervo Codato (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Apresentações

Elite econômica e política: os dirigentes das grandes indústrias e as instituições democráticas no Brasil

Introdução:
Há cerca de 50 anos atrás as primeiras pesquisas de natureza sociológica acerca dos empresários no Brasil estava dando os primeiros e decisivos passos de uma agenda de estudos que se tornou um tema de grande relevância nas Ciências Sociais brasileiras até os dias de hoje. Nesses primeiros trabalhos, constatamos a presença das categorias analíticas mais próximas do marxismo e da preocupação com as questões da “classe”, da “burguesia”, da dominação de classe, das frações de classe e da hegemonia. Ressalvando que, embora com outro viés, tais assuntos também estão presentes nas obras de Max Weber, como, por exemplo, a questão do “espírito” capitalista, podemos notar que outras questões mais próximas de suas proposições também perpassavam o surgimento da análise sociológica dos empresários no Brasil. Nesses estudos pioneiros, encontramos questões sobre a relação entre, de um lado, a “mentalidade” (Cardoso, 1964), ou a “ideologia empresarial” (Martins, 1968) ou mesmo “ideologia própria” (Bresser Pereira, 1974), e, de outro, o desenvolvimento da sociedade capitalista e industrial no Brasil. E tal relação se deu sempre de forma articulada à análise de seu comportamento, em especial administrativo ou gerencial, enquanto empreendedores, mas também enquanto agentes políticos. Portanto, se tais análises se debruçaram sobre a forma de pensar dos empresários, também foram intensamente marcadas pela questão da sua relação com o Estado e a política. E isso se deu tanto no que diz respeito ao modelo de desenvolvimento econômico (Cardoso, 1964, Martins, 1968 e Bresser Pereira, 1974), quanto no que diz respeito ao processo de industrialização (Diniz, 1978 e Leopoldi, 1984) ou ao regime político (Boschi, 1979). Este fato também marcou profundamente os estudos sobre os empresários no Brasil, até os dias de hoje.
Objetivos:
Este trabalho pretende analisar os resultados da Pesquisa International Management Studies (IMS) na qual foram entrevistados altos dirigentes de grandes empresas industriais no Brasil. Serão considerados os dados relativos a um conjunto de questões relativas às opiniões destes empresários sobre o Estado, as instituições políticas e a democracia. Além da análise dos dados, faremos uma comparação com estudos clássicos sobre o empresariado no Brasil, em especial aqueles que se voltam para o mesmo objeto e adotam procedimentos metodológicos semelhantes, e também com outras pesquisas nossas mais recentes. O objetivo geral é, mais do que simplesmente caracterizar a cultura política deste grupo, obter elementos para uma agenda mais robusta de análise de suas ações concretas.
Metodologia:
O critério utilizado para a seleção das empresas foi estar entre as 100 de maior faturamento no ano de 2010, considerando o ranking da revista EXAME, publicado anualmente no exemplar “Maiores e Melhores do ano”. Após a seleção das empresas, foram identificados os nomes dos principais diretores das indústrias listadas, ou seja, o nome do presidente, CEO e diretor geral. Entre 2012 e 2013, foram realizadas 32 entrevistas, contemplando predominantemente os CEOs, mas também alguns membros do segundo escalão e alguns CEOs de gerações passadas. Nas entrevistas foi utilizado um questionário padrão com perguntas abertas.
Resultados:
À despeito das semelhanças e diferenças metodológicas e cronológicas das pesquisas aqui comparadas, verificamos que, nos primeiros estudos sobre os empresários no Brasil a análise das ideias e da “cultura” estava imbricada à questão da economia e do desenvolvimento econômico. E em nossas pesquisas, a análise da cultura política considerou a questão da democracia e de suas instituições. Em ambos os casos, trata-se de algo sugerido pela, e está vinculado à própria análise da história e do comportamento e da ação dos empresários. Mais propriamente em relação ao “espírito” da política empresarial, constatamos que há certa validade teórica e metodológica no tratamento de nosso objeto. Por exemplo, as questões políticas não podem ser reduzidas ao “self-entrepreneur” (Weber) e que os empresários, enquanto grupo, tem que enfrentar as questões de natureza coletiva da política, frente a outros coletivos e à sociedade como um todo, e com ganhos não-seletivos (Olson). Isso se torna mais complexo quando consideramos que esta dimensão, assim como outros espaços da cidadania, ainda está em construção no Brasil. Os dados sugerem também que há a dimensão ‘nacional’ da preocupação dos empresários com a política, a despeito da necessidade de pensar de forma global no que diz respeito ao mercado e à economia. Ou seja, em geral, política significa política econômica. Isso seria irrelevante se o Brasil fosse uma democracia plena e historicamente consolidada. Comparativamente com a capacidade de falar sobre economia e mesmo o empenho em argumentar acerca da política econômica, as posições sobre política são mais imediatistas, superficiais e próximas ao senso comum e ao jornalismo, inclusive no uso das expressões. Por fim, na análise da cultura política deste segmento da elite econômica brasileira, verificamos a existência de uma dificuldade em pensar a política a partir de suas instituições, fazendo-o apenas em torno de políticas específicas (outputs). Ou seja, em geral, política significa política econômica. Isso seria irrelevante se o Brasil fosse uma democracia plena e historicamente consolidada. Comparativamente com a capacidade de falar sobre economia e mesmo o empenho em argumentar acerca da política econômica, as posições sobre política são mais imediatistas, superficiais e próximas ao senso comum e ao jornalismo, inclusive no uso das expressões. Em suma, os resultados da pesquisa reforçam a importância do estudo dos empresários para a compreensão não apenas do novo espírito do capitalismo, mas do próprio novo capitalismo e da nova sociedade e da nova democracia que nele existem no Brasil de nossos dias, inclusive daquilo que ela ainda mantém de antigo.

Paulo Roberto Neves Costa
De contra-élite a élite en el poder: Los casos de Bolivia, Ecuador y Guatemala
Juan Francisco Espinoza Molina
Bastián González-Bustamante
Nuevas elites políticas y empresarios en el giro a la izquierda y el posliberalismo en América Latina
Miguel Serna
Reclutamiento sindical en el parlamento argentino: una aproximación al período 2013-2015
Martín Armelino

SAT80 | Equipes de governo em níveis nacionais e regionais

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 14:15

Coordenadores

Renato Monseff Perissinotto (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Debatedores

Bruno Bolognesi (UNILA - Universidade Federal da Integração Latino-Americana)

Apresentações

Los elencos del presidente. Expertise, destrezas y anclajes sociales en el gabinete de ministros (Argentina, 1983-2011)

Los estudios sobre gabinetes de ministros en países presidencialistas, y en América Latina en particular, han crecido en los últimos años con un especial interés en la formación de coaliciones. En Argentina también han ganado importancia las investigaciones sobre el gabinete, pero como en este caso los mismos suelen ser de partido único el “soporte legislativo de coalición” no posee tanta relevancia y es necesario analizar otros factores para dar cuenta de la llegada y la permanencia de los ministros en sus cargos. Así, se ha comenzado a mostrar la dinámica política de su conformación y los criterios diferenciales para su nombramiento según presidente y partido político, y también las razones que guían su recambio en distintas coyunturas históricas. En lo que refiere a la dinámica política, se ha señalado que la impronta del presidente, las reglas partidarias y el modo en que se llega al poder son fundamentales para comprender la composición inicial de los gabinetes. En cuanto a los criterios de nombramiento, se han identificado perfiles diferenciales y competencias asociadas a cada cartera de gobierno. En este caso, uno de los aspectos analizados ha sido, más allá del color de las distintas administraciones, la especificidad de destrezas y atributos requeridos según el área de intervención que delimita cada cartera y las pruebas a las que se enfrenta.
Profundizando esta línea de investigación, en esta ponencia ofrecemos un mapeo de las características de las elites ministeriales y sus carteras en Argentina, con especial énfasis en el tipo de expertise, las destrezas y los anclajes sociales que priman en los distintos tipos de ministerios. Nos detendremos sobre los interlocutores y el tipo de tareas que caracterizan a cada cartera, y sobre la relación de los perfiles ministeriales con aquellos desafíos. En especial, mostraremos que las distintas áreas de intervención que delimitan los diferentes ministerios (“sociales”, “económicos” y “políticos”, según la clasificación de Joignant, 2011) se corresponden con perfiles profesionales, destrezas y anclajes sociales específicos por parte de sus ministros. Volvemos así sobre los criterios para el nombramiento de ministros, que lejos de responder al interés por formar coaliciones de gobierno o mayorías legislativas, se relacionan con la impronta y el poder presidencial, el equilibrio partidario en cada época histórica y los desafíos específicos que imponen ciertas áreas de intervención y determinadas coyunturas históricas. Para ello, nos apoyamos en una base de datos prosopográfica sobre las trayectorias sociales, educativas y político-profesionales de los ministros desde la vuelta de la democracia hasta 2011, así como en la realización de entrevistas con ex ministros y altos funcionarios.

Mariana Gené
Os ministros brasileiros e seus assessores (1985-2014)
Maria Celina D’araujo
Composição de governo e convivência partidária: análise organizativa e resultado eleitoral no Pará 2007-2010

As eleições gerais de 2010 trouxeram originalidade. A situação inicial apontava para a eleição da primeira mulher brasileira ao cargo máximo da nação – a presidência da república – por um partido considerado de esquerda – PT – e que retornava ao poder do país pela terceira vez. A outra situação refere a não reeleição de Ana Julia Carepa, também do PT – a primeira mulher a governar o Estado do Pará e uma das poucas com mandato a perder a eleição.
Embora no relatório final do projeto que deu suporte a este artigo tenham sido examinados três tempos políticos em sequência (no período de 2006, 2007-2010 e 2010) a proposta deste trabalho centrou-se em aportes do período de governo. Enfatiza-se que a candidatura de Ana Julia Carepa, em 2006, foi francamente imposta pelo então presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva, que a considerou mais capaz de agregar votos naquele momento, apesar de os filiados do PT paraense já terem escolhido outra liderança do partido para candidato. As negociações entre o Presidente Lula, Jader Barbalho e os petistas locais trouxeram o nome dela para a competição. Roberto Corrêa (2007), em teste de correlação estatística explica a importância do PMDB na vitória de Ana Julia Carepa.
Na sequência temporal, 2007-2010 foi criada uma agenda institucional elaborada pela equipe de governo para os quatro anos de mandato. O modelo do plano e a proposta da equipe que assumia o poder aplicava um formato democrático popular para as discussões com a população dos 144 municípios paraenses, agregados em 12 Regiões de Integração (RI) sobre as necessidades das localidades onde residiam, aditando essas demandas em subsídios para estabelecer o Plano Plurianual (PPA) e, assim, fortalecer a LOA e a LDO, peças que regem o planejamento e orçamento público. O PTP – Planejamento Territorial Participativo – foi explorado em seus detalhes, confirmando-se que se tratava de um modelo de plano que fora proposto para ser orientado pela população reunida em Assembleias Municipais e em conselhos para apresentar, votar e fiscalizar as necessidades prioritárias de seus municípios em torno da saúde, educação, segurança pública etc. Houve evidências detectadas sobre os entraves – políticos intra e inter-elites no poder – motivando não só a reconfiguração do PTP, mas, fragilizando a sua execução. Tensões também com o legislativo obliteraram a aplicação desse plano e outros projetos foram lançados em meio ao marketing do governo.
Em 2010, justamente o ponto nodal da proposta do projeto de avaliar a competitividade e o desempenho dos atores políticos vindos de um mandato (cenário) cheio de tensões no circuito governamental (cena) houve interesse em analisar as forças do partido incumbente para a permanência no poder com a reeleição da governadora. Nesse aspecto, houve então não só uma avaliação sobre o mercado eleitoral que receberia a demanda pelo voto do eleitorado a ser distribuído entre a situação no poder (PT) e a tentativa da retomada do cargo pela oposição (PSDB) apostando no retorno ao espaço majoritário movido pela grande rejeição à governadora.
Devido a esse foco de fragilidade da candidata do partido incumbente optou-se por estabelecer parâmetros demonstrativos desse estado débil de aceitação da reeleição, procurando avaliar vários fatores. Este artigo procurou centrar-se na análise do perfil dos atores da elite administrativa no governo constituído procurando evidenciar a integração e/ ou inconsistência organizativa dos agentes partidário-governamentais na luta por incentivos seletivos de poder (Panebianco, 2005). Nesse sentido desponta um fenômeno intra-elite operando como premissa para compreender o movimento e as eventuais alterações do PT na direção da máquina pública estadual, promovendo uma variável política decisiva com tendência a potencializar a não reeleição de Ana Júlia Carepa em 2010. Entendem-se incentivos a “oferta” de benefícios ou promessas de benefícios futuros oferecidos pelos líderes da organização partidária, e incentivos seletivos a oferta de benefícios exclusivos a alguns, e de forma desigual.
Na teoria organizativa, há certa compreensão de que as organizações possuem um poder inerente capaz de garantir ou intensificar o poder social de quem as controla, e a busca ou a defesa desse poder é o componente dos conflitos internos. Nessa perspectiva Panebianco (2005) explica que a teoria dos incentivos seletivos esclarece o comportamento concorrente das elites do partido no interior da organização.
Para responder as inquietações provocadas pela pesquisa, o plano de atividades que deu alicerce metodológico a este trabalho adotou os instrumentais da História Oral. A referida metodologia proporcionou informações referentes a organização interna do partido incumbente e expôs a relação de poder entre tendências e seus respectivos membros, criando-se um banco de dados ampliado e exclusivo de entrevistas acerca da atividade organizativa, algo que os documentos formais emitidos pelo partido (estatuto partidário, por exemplo) e pelo governo não exprimem com detalhes. Com as entrevistas gravadas foram obtidas construções narrativas pautadas na vivência e memória dos atores políticos, um aditamento metodológico importante para os estudos de relações sociais de poder, transformando as minudências dos comportamentos políticos em categoria de análise.
A aplicação dessa metodologia da História Oral apontou resultados significativos sobre a existência de inconsistência/incongruência de interesses forjada pelos agentes partidário-governamentais envolvidos, uma luta travada na procura de incentivos. A composição de governo – “núcleo duro” ou equipe de assessoria da governadora - alterou a relação entre as tendências e os membros do PT, estabelecendo uma competição intra-partido. A dinâmica interna desse partido na direção do Estado, marcada por essa convivência conflituosa foi um dos aspectos que resultou na não reeleição de Ana Júlia Carepa em 2010. O impacto político-partidário-eleitoral encontrado esteve na desorganização/desarticulação e não aparelhamento do partido e suas tendências em prol da reeleição da então governadora. Um partido que se partiu pela concorrência e discordância interior de seus militantes.

Maria Luzia Miranda Álvares
Nilson Almeida de Sousa Filho
Antagonismo posicional na política do Rio Grande do Sul (1995-2002): Quem decide o que, por que decide, para quem decide

O agente importa para a política como alguém que tem agência e poder de agenda. Suas posições, articulações e decisões potencialmente reforçam ou alteram o curso regular dos fatos políticos. Os padrões de decisão dos agentes políticos, porém, não são algo que, imediatamente, possa ser resumido esquematicamente em uma equação que junta os efeitos da estrutura a padrões de escolha preestabelecidos sustentados em medidas de utilidade. Entender os agentes, suas razões de decisões e de cooperação ou não são empreendimentos teóricos, em larga medida, incompletos e de difícil abordagem.
Agentes políticos (secretários de estado, deputados, lideranças sindicais patronais e de empregados e policymakers) deparam-se cotidianamente com o exercício incompleto de avaliação dos custos do que decidir, por que razões e para quem. Em arenas de disseminados conflitos políticos, de antagonismo de posições e de bipolarização política, as mensurações dos agentes sobre as escolhas a tomar são ainda mais complexas. Sendo assim, não basta elaborar esquemas de ação como o weberiano para explicar quem são os agentes e suas decisões; tampouco é suficiente aderir a modelos racionais de competição stricto senso para explicar as escolhas que estes fazem. É preciso explorar fatores relacionados (1) à estrutura, (2) a valores; (3) à trajetória, (4) a parâmetros de medida utilidade, (5) a incertezas e (6) a condições que, conjuntamente, concorrem para que os agentes posicionem-se, sempre considerando o ordenamento temporal de eventos e o contexto que ambientam as decisões. É necessário expô-los a situações que criaram, para que possam explicar, por eles mesmos, suas escolhas e, diante dos impactos gerados, fazer com que reflexivamente as avaliem.
Nesse trabalho são os agentes políticos que dissertam reflexivamente sobre esses fatores, as expectativas de utilidade, os limites e os contextos temporais que concorrem para suas decisões sobre políticas. Em linhas gerais, eles mesmos são o objeto analisado. Especificamente, aqueles que decidiram os rumos da política e das políticas públicas no Estado do Rio Grande do Sul, durante os governos de Antonio Britto Filho (PMDB) e de Olívio de Oliveira Dutra (PT) nos anos de 1995 a 2002. Contexto no qual as arenas políticas foram caracterizadas pela polarização política e pela disseminação de conflitos entre agentes articulados a Britto ou a Dutra, onde teve curso fenômeno denominado de antagonismo posicional.
A presente pesquisa situa-se no nível exploratório. Tem como objetivo uma sistematização preliminar da importância relativa que os agentes dão a cada um dos fatores que, em regra, concorrem para suas tomadas de decisão. Seguindo metodologia qualitativa, privilegia-se nela a interpretação de narrativas sobre fatos passados que tiveram curso no contexto do estudo, tendo como fonte direta a fala de agentes políticos que importaram para as diretrizes e os rumos políticos e das políticas públicas de maior impacto regional.
Para a obtenção dos dados, o método foi o de entrevistas orientadas por um roteiro formulado com perguntas abertas. Com elas foram abordadas, na perspectiva de 20 (vinte) agentes políticos, a relevância dos fatores analisados: estruturais; valores sociais subjetivos; trajetória; relações com uma ou outra articulação política; leituras de conjuntura; justificativas e medidas de utilidade para apoiarem e/ou se anteporem a políticas públicas que tiveram curso à época; e, suas explicações para o antagonismo posicional.
Entre os meses de março e de junho de 2014, dez agentes reconhecidamente articulados a Britto (PMDB) e dez a Dutra (PT) foram entrevistados. Para auxiliar nas interpretações, todas as entrevistas foram gravadas em áudio e/ou vídeo. Isso resultou em mais de 32h de narrativas sobre razões de escolhas, de explicações, de análise dos impactos sobre as posições que tomaram sobre a política regional e as políticas públicas, bem como de exercícios reflexivos acerca de ações no período estudado.
Dos resultados interpreta-se que para os agentes políticos entrevistados a estrutura social e os valores do agente tiveram baixa relevância nas suas decisões sobre políticas. Há agentes com relações de parentescos que, ao se articularem a uma ou outra posição, enfrentaram-se como inimigos políticos no período; políticos, cujos valores religiosos e humanos eram coincidentes, integraram campos antagônicos durante o contexto de ambos os governos; agentes egressos de organizações políticas doutrinárias comuns convergiram para polos políticos opostos no período.
No tocante à trajetória, os eventos que constituíram a história política de cada um importaram para definir suas posições, mas sua relevância foi relativa para as decisões que tomaram à época. Na medida de utilidade das escolhas feitas, as mais importantes foram as que criaram incentivos aos reforços das articulações em curso e que resguardavam, como ação de sobrevivência, suas posições de poder, principalmente as de expectativas futuras. Numa leitura da conjuntura, por se tratar de esforços de sobrevivência, relatam ter inexistido à época condições para mediação de posições com os dois polos políticos, o que se materializou no fenômeno do antagonismo posicional.
Para as políticas públicas exploradas nas entrevistas, reflexivamente, os agentes políticos reconheceram que suas posições fundamentaram-se em informações incompletas (numa racionalidade limitada), com razoáveis incertezas quanto aos impactos no meio, com avaliações de custos políticos insuficientes e cuja utilidade para suas expectativas futuras foi inferior à que esperavam. Mais de uma década após os fatos, os entrevistados, majoritariamente, admitiram que, se pudessem hoje, agiriam de modo mediado. Além disso, reconheceram terem errado, e que adotariam, em situações determinadas, posições diferentes das que tomaram.
Enfim, nas narrativas os entrevistados esforçaram-se em justificar suas decisões através da busca frequente por modelos de políticas exógenas à realidade existente, explicadas numa constatação de isomorfismo institucional. Também, que privilegiaram a necessidade racional de sobrevivência política; estas, com assento nas articulações políticas vigentes e na garantia de espaços, num contexto permeado por um cenário de largo conflito de posições. Assim, sopesando todos os fatores, no contexto de antagonismo posicional, interpreta-se que, para eles, importaram mais aqueles que concorreram para a manutenção de posições políticas, em detrimento dos resultados pretendidos com as políticas públicas que produziram e/ou defenderam.

César Luciano Filomena
Estudo de uma profissão (da) política: os advogados na Câmara dos Deputados (1945-2010)

Analisando a formação e ocupação profissional de integrantes da classe política brasileira, este texto pretende, primeiro, descrever e mapear vias de socialização prévia à entrada na política - no caso, abordando polos de formação universitária que habilitam para o exercício da profissão de advogado no Brasil, tomando como base 658 deputados federais profissionais da área, no período entre 1945 e 2010. Considerando a advocacia uma "profissão política”, e os cursos de direito meios históricos que criam uma específica e tradicional elite letrada, é proposto determinar se existem instituições que concentrem a formação deste grupo durante o período estudado; quais seriam tais instituições; a abrangência destas; e se sua relação com a política se torna mais ou menos estreita ao longo do tempo. Em seguida, os achados são confrontados com determinados perfis profissionais. O método escolhido para tal é a Análise de Correspondência Multivariada, com posterior busca por "tipos" políticos, primariamente focados em tipo de atuação profissional, tempo de atuação profissional anterior à política, tipo de universidade na qual se formou e, consequentemente, teve possibilidade de aquisição de recursos socioculturais valiosos para sua chegada à esfera política.

Mariana Arcos Lorencetti
Profesionales, militantes y ocasionales: trayectorias personales y carreras políticas de los diputados de la Ciudad de Buenos Aires

"Los estudios sobre la profesionalización de la política tienden, por lo general, a situar la reflexión en un plano nacional. Sin embargo, son menos frecuentes los estudios que indagan la relación entre política y profesión en un plano local, como procuro hacer en esta presentación, a partir del caso porteño. Las lógicas políticas de la Ciudad de Buenos Aires, por su importancia en la política argentina, muchas veces son interpretadas desde marcos que nacionalizan lo que allí ocurre. Sin embargo, pese a la innegable relación con la política nacional, muchas de las dinámicas que constituyen su vida política municipal siguen teniendo características locales, signadas por una menor profesionalización y cierre del campo político, aspecto que trasciende el caso porteño, ya que se inscribe en el mayor grado de apertura y permeabilidad de los espacios locales respecto a los nacionales.

Para reflexionar sobre estas cuestiones, el objetivo de la presentación es analizar comparativamente diversas trayectorias personales y carreras políticas de quienes ocuparon el cargo de diputado de la ciudad en la Legislatura de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Para ello, nos basamos en datos propios, recolectados en una base de los individuos que ocuparon una banca en la primera sesión luego de la renovación del cuerpo de 60 diputados, entre 1997 y 2013. En total son 214 personas, que ocuparon 270 bancas .

En una primera parte de la ponencia presentaremos datos cuantitativos, procurando realizar un análisis prosopográfico a partir de algunas variables claves que permiten delinear múltiples escalas, trayectorias y formas de inscripción partidarias y técnicas de los diputados de la ciudad. Para ello nos centramos en el cruce de tres variables:

1. Tipo y nivel de cargos ocupados. Los datos obtenidos muestran situaciones disímiles. En un extremo, un 30% (64 individuos) sólo tuvieron cargos legislativos y a nivel municipal. Muchos de ellos, sólo ocuparon la banca por un período. En el extremo opuesto, un 40% (84 individuos) accedieron a un cargo a nivel nacional, ya sea legislativos, ejecutivos o ambos.

2. Jerarquía de cargos ocupados. Sólo un 4% accedió a un cargo jerárquico a nivel nacional (de rango ministerial o viceministerial). Y sólo un 20% llegó a ocupar cargos de un rango similar (jefe de gobierno, secretario o subsecretario) a nivel local. Es decir que la gran mayoría se mantuvo en cargos de mediana o baja jerarquía.

3. Trayectoria en cantidad de años. Tomando en cuenta el tiempo transcurrido en cargos legislativo o ejecutivos, la mayoría, el 45% (96 personas) tuvieron extensiones entre 5 y 10 años. Un 30% (66 casos) han conseguido realizar carreras extensas, de más de 11 años. Y el 25% restante (52 casos) han tenido un pasaje efímero por cargos públicos, ya que sólo han tenido un mandato como diputado de la ciudad, sin continuidad posterior.

A partir de estos datos, construimos una tipología de carreras, dividiendo en las exitosas (11 años o más en la gestión pública, con cargo jerárquico en el ámbito nacional y/o municipal), medias (11 años o más en la gestión pública, sin cargos jerárquicos en ningún nivel; 5 a 10 años, con o sin cargos jerárquicos; 4 años o menos con dos cargos) y esporádicas (4 años o menos en la función pública, sólo en su banca de diputado de la ciudad).

En la segunda parte complementamos estos datos con un abordaje cualitativo, con el propósito de comprender la relación entre estas formas de realizar las carreras políticas y las trayectorias personales de los individuos que ocuparon los cargos públicos analizados. Partiendo del supuesto de que la carrera política profesional es sólo una de las formas en las que se expresa el vínculo entre los individuos, los partidos y la política, analizamos la existencia de tres tipos ideales: el profesional, que hace de su permanencia en los cargos públicos su forma de adscripción al mundo político, moviéndose con éxito dentro de las transformaciones del sistema de partidos nacional o local; el militante, asociado con una vinculación intensa a un medio partidario, por lo general de izquierda o de partidos pequeños y esporádicos, que le permite acceder al cargo pero no a hacer una carrera política extensa; y el ocasional, ligado con la llegada al cargo a través de un vínculo personal con algún referente partidario, pero que no abre luego más que un paso efímero por el mundo político."

Matias Landau

SAT96 | Por uma análise sociológica do campo científico

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 16:45

Coordenadores

Renato Monseff Perissinotto (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Debatedores

Renato Monseff Perissinotto (UFPR - Universidade Federal do Paraná)

Apresentações

Elites científicas locais no Brasil
Thales de Andrade
A Autonomização da Ciência Política no Brasil a partir da percepção dos editores de sete periódicos nacionais

Ainda está por se fazer uma história sistemática da Ciência Política brasileira que apreenda os processos da sua institucionalização (Lessa, 2011). Talvez, porque este fenômeno é recente (Marenco, 2014) e não atingiu o seu ponto máximo de maturação. Exercícios de reflexão têm se intensificado na busca de mapear temas, teorias e métodos; assim como, de avaliar a produção da disciplina e os seus processos de institucionalização e de autonomização. O conjunto de evidências trazidas pelos diferentes estudos já realizados nesse sentido aponta para o dilema vivido pela Ciência Política brasileira na construção da sua identidade: de um lado a experiência recente de progresso na delimitação das suas fronteiras, na especialização dos seus profissionais e na constituição de objetos, teorias e métodos específicos; isto tudo sob a hegemonia da abordagem institucionalista. De outro lado, o risco de excessivo fechamento teórico e da desigualdade proporcionada pela rígida hierarquia institucional. Para alguns a hegemonia do institucionalismo deve ser saudada, pois, tem sido fundamental para institucionalização da Ciência Política no Brasil, sem prejuízo para o pluralismo. Para outros é necessário fazer a crítica deste processo de excessiva valorização ‘politológica’ que não só transforma uma escolha teórico-metodológica em critério de cientificidade, como coloca à sombra aspectos ‘societais’ fundamentais para compreensão da política (LEITE, 2015). Considerando que os editores de periódicos científicos ocupam posição estratégica na área, pois, estão expostos às pressões do processo de institucionalização da Ciência Política e, ao mesmo tempo, discutem os critérios que orientam o perfil de cada periódico que editam participando assim, das tensões e conciliações do campo acadêmico, foram realizadas 12 entrevistas em profundidade com os (ex)editores de sete periódicos nacionais Qualis A1 e A2 (DADOS, RBCS, BPSR, RBCP, Lua Nova, Opinião Pública e Revista de Sociologia e Política), entre 2014 e 2015. As entrevistas seguiram um roteiro composto por 25 questões abertas e semiestruturadas. Duraram cerca de 23 horas, foram gravadas, transcritas e estão sendo analisadas com o auxilio do software ‘Nvivo’ a partir de análise três variáveis: tema, teoria e método. A questão central que orienta o trabalho é: qual a percepção desses editores sobre o processo de institucionalização e de autonomização da Ciência Política no Brasil? Particularmente nos interessa discutir o significado, a viabilidade, os limites e as consequências do tenso processo de autonomização dessa disciplina. Segundo os editores desses periódicos, quais as principais concepções de Ciência Política estão em disputa no Brasil? Como a Sociologia Política aparece nessa discussão? A luta pela definição de objetos, teorias e metódos autonômos da Ciência Política se dá em torno de quais argumentos? Os periódicos cumprem qual papel na autonomização e na institucionalização da área? O trabalho também toma como referência as investigações que classificam os periódicos científicos conforme a prioridade dada: aos tipos de pesquisa (empírica ou não), às áreas temáticas e às teorias e métodos (qualitativos e quantitativos). Neste caso destacam-se: Marques (2007), Leite e Codato (2013), Leite (2010, 2015), Oliveira (2010, 2014), Massimo (2013), Neiva (2015) e Clemente (2015). O objetivo é cotejar a fala dos editores entrevistados com os resultados, principalmente, destas pesquisas, para responder as questões. Segundo 11 dos 12 editores entrevistados, o principal tema da Ciência Política no Brasil é a Democracia - seus processos de transição e consolidação e o funcionamento das suas instituições. Outros resultados apontam para a existência de dois grupos de editores. O primeiro defende uma Ciência Política que considere variáveis explicativas fenômenos: sociais, culturais e econômicos; sob pena de empobrecimento da definição dos objetos e da análise interpretativa da política. O segundo grupo, considerado o mainstream da disciplina, elege como objeto a política institucionalizada e como forma de abordagem o neoinstitucionalismo. Os editores dos periódicos Lua Nova e RBCP são categóricos na defesa de uma Ciência Política menos institucionalista. “O grande problema da Ciência Política é tratar a política como um universo a parte que não se liga, então, à dinâmica social mais ampla.”, afirma Luis Felipe Miguel (RBCP). Pelo menos um dos editores da: DADOS, RSP, BPSR e RBCS; concordam que a Ciência Política hegemônica no Brasil perde ao se especializar, uma vez que deixa ter diálogo com a História, com a Sociologia Política e demais Ciências Sociais. Neste caso, “a Ciência Política, pela hiperespecialização, perdeu o Estado como objeto”, afirma o editor Renato Perissinotto (RSP). Ainda, “(...) do ponto de vista teórico a Ciência Política avançou muito na compreensão da dimensão institucional, mas precisa avançar muito naquilo que se chama de Sociologia Política” avalia a editora da BPSR, Marta Arretche. A fala da editora Fabiola Del Porto, da Opinião Pública se destaca, possivelmente, devido ao objeto e ao método quantitativo empregado nas análises que prioritariamente são publicadas na revista, ou seja: partidos políticos e estudos de comportamento político e eleitoral. No plano metodológico, os editores também se dividem quando discorrem sobre o método quantitativo. Os editores que defendem uma Ciência Política menos institucionalista e autonomizada, também desejam-na menos quantitativa. Todos os editores entrevistados concordam que os periódicos científicos contribuem para a constituição do campo, para a legitimação ou não de determinados objetos, temas, teorias e métodos. Nas palavras do editor Cícero Araújo, da Lua Nova, “as revistas, um pouco, ajudam a definir os limites e o campo de possibilidades das áreas... (...) quase que elas definem o que é importante e o que não é importante [no campo]”.

Nelson Rosário de Souza
Fabiane Helene Valmore
O que um hit-parede tem a dizer

Introdução

Um dos princípios estruturantes do espaço de agentes autodenominados “marxistas” consiste na adesão a autores: sejam eles os chamados “teóricos” da tradição marxista, sejam eles “intérpretes” do capitalismo, e particularmente, da chamada “peculiaridade da formação do capitalismo no Brasil”. Daí, fração expressiva dos marxistas serem portadores de dupla identificação. Eles são, simultaneamente, marxistas/ althusserianos; ou marxistas/gramscinianos; ou marxistas/lukasianos. Sendo este um princípio estruturante do espaço de suas práticas, ele se encontra em operação em numerosas escolhas e predileções neste espaço – sendo, não por acaso, a “leitura de autores”, uma de suas pedras de toque.
Entre fevereiro de 2014 e janeiro de 2015, 1308 marxistas brasileiros responderam a um questionário cujo objetivo era caracterizá-los social, cultural e politicamente, situando-os profissionalmente no sistema de pós-graduação nacional. A realização dos testes de consistência nesse conjunto permitiu a elaboração de um banco de dados composto por 988 respondentes. Uma das perguntas mais importantes deste questionário era a seguinte: “Por quais autores/intérpretes do Brasil, você tem mais interesse?”. Este trabalho apresenta o hit-parede dos autores respondidos e propõe uma análise do mesmo.

Objetivos

A pesquisa parte de uma controvérsia da bibliografia a respeito das ciências sociais e do marxismo brasileiros. Caso se acorde que há um baixo grau de autonomia científica das ciências sociais no Brasil, a presença expressiva do marxismo em universidades brasileiras poderia ser um indicador da heteronomia delas. Caso se acorde que há autonomia científica, esta corrente teórica ocuparia posições dominadas, nas diversas disciplinas em que recruta praticantes. Ademais, do ponto de vista das disciplinas científicas, aquelas em que o marxismo mais recrutasse seriam dominadas no conjunto de suas irmãs concorrentes. Em contrapartida, do ponto de vista da história do marxismo, tornou-se senso comum, assinalar que hodiernamente, a longevidade desta corrente, depende de práticas e instituições alheias às suas origens, ligadas aos aparelhos de gestão e reprodução da cultura em geral. Em âmbito nacional, são patentes os vínculos entre editores, comentadores, tradutores, professores universitários, o recrutamento de leitores e consumo de leituras. Em âmbito internacional, a maior evidência disso é o projeto de reunião as obras completas de Marx-Engels (MEGA), que conta com o requinte do financiamento do estado alemão a expertises raras da filologia.
É rotineiro tratar deste fenômeno descrevendo-o como “marxismo ocidental”, ou acusando-o de “marxismo de cátedra”, e daí desdobrar toda sorte de vereditos a respeito da “autenticidade” do marxismo (traiu ou não; é marxismo verdadeiro ou não, etc.). Esta pesquisa escolheu caminho diverso. Sem adotar uma definição fixa do termo “marxismo”, ambiciona caracterizar os conflitos de classificação e hierarquização – internos ao espaço do marxismo e externos a ele, oriundos das disciplinas e das universidades em que os agentes se situam.
O “hit-parade dos autores/intérpretes do Brasil” consiste num elemento estratégico para caracterizar seja a heteronomia do campo das ciências sociais (de que a politização e as práticas do marxismo seriam um indicador), seja a posição dominada dos marxistas no interior dele. O objetivo da análise apresentada consiste nesta caracterização: sociológica, política, intelectual e profissional, dos autores respondidos e dos agentes respondentes – com vistas à discussão mais ampla da heteronomia/autonomia do espaço científico das ciências sociais e, obviamente, das relações entre esfera política e científica no Brasil.

Metodologia

Trata-se de caracterizar os autores respondidos e os agentes respondentes, considerando-se a dimensão sociológica, política, intelectual e profissional dos mesmos.
Para tanto, o questionário é parcialmente mobilizado: os dados morfológicos e profissionais dos respondentes são extraídos do banco de dados montado a partir dele: idade, origens sociais, região geográfica de trabalho, disciplina de formação.
Com relação aos autores respondidos, criou-se um perfil de trajetórias intelectuais, considerando as propriedades de mais valor simbólico no espaço e os atributos correntes do que se considera um “intérprete”. Obviamente, esta categoria admite significados diversos e os conflitos classificatórios se manifestam no ranking em questão, mas é incontornável partir de uma definição mínima para se analisar tais conflitos. “Intérpretes” são, em geral, propositores de grandes explicações para a formação do capitalismo brasileiro e de estratégias da revolução. Desse modo, a caracterização prévia dos autores respondidos considera: vivo/morto; consagração no marxismo/consagração disciplinar; acadêmico militante/militante acadêmico; conversões partido-universidade.
Estabeleceu-se a “consagração” a partir de práticas objetivas de consagração do grupo – as principais delas: a capacidade do “nome” de um autor produzir comentadores e originar coletâneas de homenagens. O mesmo vale para a classificação “acadêmico militante/militante acadêmico” (e os efeitos destes vínculos institucionais): não se trata de afirmar que um autor foi mais “isso” ou “aquilo”, mas de indicar qual destes espaços está em operação na sua identidade social e intelectual, a partir de evidências objetivas: tempo de militância ou atuação como professor, fase da trajetória em que milita/trabalha e modo de apresentação do autor no espaço (por meio dos comentários, homenagens, etc). Por fim, como a história social dos autores respondidos apresenta um tempo de militância orgânica em partidos políticos e outro de atuação como professor universitário, a conversão de um espaço a outro apareceu como uma propriedade a ser considerada.

Resultados (preliminares).

De modo sumário, apresenta-se abaixo, os primeiros cinco lugares do hit-parede, sem segmentar as respostas de alunos e professores, e a título de exemplo dos primeiros resultados do que foi proposto acima.
Autores, % de respostas, propriedades.

1º LUGAR Florestan Fernandes (1920-1995) / 21,4%
Morto; Duplamente canonizado; Acadêmico militante / militante partidário. Duas conversões: trotskismo/universidade; universidade; PT.

2º LUGAR Caio Prado Junior (1907-1990) / 15,9%
Morto / Duplamente canonizado / Militante partidário e acadêmico militante / Duas tentativas fracassadas de conversão: PC/universidade.

3º LUGAR José Paulo Netto / 6,9%
Professor em atividade. N/S. Militante partidário e acadêmico militante. Conversão

4º LUGAR Carlos Nelson Coutinho (1943-2012) / 5,3 %
Morto / N/S / Militante partidário e acadêmico militante / Conversão

5º LUGAR Ricardo Antunes (1953)
Vivo. Professor em atividade. Acadêmico militante N/S

Lidiane Soares Rodrigues