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Ensino e Pesquisa em Ciência Política e Relações Internacionais

Resumo

A Área Temática de Ensino e Pesquisa em Ciência Política e Relações Internacionais tem como objetivo fomentar e estimular a reflexão sobre a docência e a pesquisa e seus diferentes métodos e abordagens como parte integrante e necessária da atividade acadêmica. Trabalhos que discutam a docência com suas dinâmicas e atividades em sala de aula, a integração entre os diferentes níveis de ensino, estágio docência e iniciação à pesquisa, bem como trabalhos que analisem o desenvolvimento de métodos e metodologias de pesquisa buscando avançar a reflexão sobre temas da Ciência Política e das Relações Internacionais são bem vindos na AT.

Justificativa

O debate sobre Ensino e Pesquisa em Ciência Política e de Relações Internacionais há tempos já é uma realidade em diversas associações científicas internacionais, tais como a International Political Science Association (IPSA), American Political Science Association (APSA), International Studies Association (ISA) e a European Political Science Network (EpsNet), para citar apenas algumas. Nestes fóruns, são levantadas questões diretamente voltadas para as atividades em sala de aula, tais como técnicas e metodologias de ensino, conteúdos programáticos, sistemas de avaliação; outras se voltam para a formação profissional do Cientista Político e do Internacionalista como docente e como pesquisador; outras, ainda, sobre o trabalho de pesquisa, fontes, metodologias, estratégias de financiamento, bem como sobre a divulgação dessas pesquisas seja por meio de periódicos científicos, sítios na internet e blogs. No Brasil, embora a temática já fosse objeto de recorrente discussão entre os pares e em que pese a expansão dos cursos de Ciência Política e Relações Internacionais no país – seja em nível de Graduação ou Pós-Graduação -, era notória a inexistência de fóruns apropriados para intercâmbio de experiências e divulgação de propostas sobre o assunto. Desde sua criação, a AT de Ensino e Pesquisa em CP e RI tem procurado suprir a comunidade acadêmica com ferramentas e reflexões sobre a formação de novos profissionais de ensino e pesquisa, discutindo mecanismos que estimulem a oferta de profissionais com um mínimo de experiência em docência e com maturidade intelectual indispensável para o exercício das atividades de pesquisa, assim como com conhecimento essencial sobre os instrumentos necessários para a tarefa de apresentação de projetos e outras iniciativas que, por sua vez, possam absorver o corpo discente em acelerado crescimento. Além disso, a AT busca por meio dos trabalhos apresentados para debate promover uma reflexão coletiva sobre temas como programas de curso, estrutura curricular, formação e treinamento docente, experiências exemplares na formação e ensino, absorção de novos doutores, linhas de pesquisa, e integração do ensino com o contexto sócio-econômico, colaborando para uma reflexão mais ampla e aprofundada sobre o estado atual das artes do ensino e pesquisa em Ciência Política e Relações Internacionais no âmbito da preocupação sobre a função social do conhecimento.

SP01 | Publicações em CP e RI

quarta-feira, 31 de Agosto de 2016 - 13:15

Coordenadores

Marcelo Mello Valença

Debatedores

Marcelo Mello Valença

Apresentações

Métodos e Ciência Política: a percepção dos editores de sete periódicos nacionais Qualis A1 e A2

Exercícios de reflexão têm se intensificado na busca de mapear temas, teorias e métodos da Ciência Política no Brasil. São exemplos: Leite (2010, 2015) e Oliveira (2010, 2014). Considerando que os editores de periódicos científicos ocupam posição estratégica no campo porque discutem os critérios que orientam o perfil dos periódicos que editam sob as pressões dos processos de institucionalização e de autonomização da Ciência Política, foram realizadas 12 entrevistas em profundidade com os (ex)editores de sete periódicos nacionais (DADOS, RBCS, BPSR, RBCP, Lua Nova, Opinião Pública e Revista de Sociologia e Política), entre 2014 e 2015. As entrevistas duraram cerca de 23 horas, foram transcritas e estão sendo analisadas com o auxilio do software 'Nvivo'. A questão central é: qual a percepção desses editores sobre métodos na Ciência Política? Particularmente, sobre a relação entre sofisticação metodológica e refinamento teórico. Os resultados apontam para dois grupos de percepções. Um, maior, defende uma Ciência Política que considere com variáveis explicativas, também, os fenômenos sociais, culturais e econômicos. Outro, considerado o mainstream da disciplina, elege como objeto a política institucionalizada e como forma de abordagem o neoinstitucionalismo. O primeiro é critico da hipervalorização que o campo hegemônico faz do uso de métodos quantitativos.

Fabiane Helene Valmore
As Relações Internacionais no Brasil sob a lente dos periódicos nacionais: uma análise da produção científica da Revista Brasileira de Política Internacional e da Revista Contexto Internacional (2005-2015)

A presente pesquisa possui caráter exploratório e descritivo, inserindo-se em um projeto mais amplo que prevê um mapeamento acerca dos periódicos de Relações Internacionais Brasileiros. Para uma apresentação preliminar dos resultados, nosso recorte analítico limitou-se aos dois periódicos mais conceituados do campo, A1 e A2 segundo classificação Qualis Capes. Com intuito de observar as dinâmicas da produção acadêmica que se desenvolve no Brasil na área das RIs sob a perspectiva teórica e epistemológica da geopolítica do conhecimento, observamos três indicadores para a análise dos artigos: gênero dos autores, área temática e região geográfica abordada. Foi possível identificar resultados relevantes quanto à disparidade de gênero nas autorias, prevalecendo o masculino; recorrência de áreas temáticas mainstream como Integração Regional, Política Externa Brasileira e Segurança Internacional; pouca produção teórica e grande incidência de estudo de caso, o que sugere dependência acadêmica e teórica dos países centrais; e, um grande número de pesquisas relacionadas ao eixo do Atlântico Norte. O projeto de pesquisa está em andamento e irá aprofundar a análise qualitativa das bases teóricas e conceituais contidas nas referências bibliográficas do universo absoluto dos artigos, com atenção especial no caso dos artigos classificados como pertencentes a área temática “Teoria das RIs”.

Josué Kuhn Völz
Yndira Coelho Soares

SAT01 | Ensino e Método em Ciência Política

quarta-feira, 31 de Agosto de 2016 - 14:15

Coordenadores

Marcelo Mello Valença

Debatedores

Lorena Guadalupe Barberia (USP - Universidade de São Paulo)

Apresentações

Qual metodologia utilizar nos estudos de teoria política? Um exame crítico sobre os métodos de Karl Popper e Quentin Skinner

O uso recorrente da metodologia do historiador inglês Quentin Skinner em trabalhos de teoria política no Brasil aparenta ser consensual e, portanto, isento de críticas, a despeito de sua relativa inadequação aos pressupostos metodológicos da Ciência Política do tempo presente. O artigo objetiva contrapor o método de Quentin Skinner para a análise da história das idéias políticas com o método de lógica situacional sugerido por Karl Popper, tendo como escopo escrutinar a utilidade de cada método para a Ciência Política, notadamente no campo da teoria política. Enquanto o método empregado por Skinner propõe o exame do contexto linguístico dos autores para tentar determinar os significados que atribuíam às suas próprias ideias e à sociedade do seu tempo, Popper sugere a adoção de um método diverso para o qual importa a análise objetiva da ação do ator no contexto social analisado sem desconsiderar seus efeitos ou consequências para as instituições. O argumento conclusivo é que o método proposto por Popper apresenta elementos constitutivos mais consentâneos com a pretensão da Ciência Política contemporânea de alcançar o status de ciência axiologicamente neutra cujos trabalhos são orientados empiricamente para a resolução pragmática de problemas, mesmo quando trata de teoria política ou de história das ideias políticas, bem como enfatiza o papel das instituições e suas “quase-ações” no contexto analisado.

André Silva de Oliveira
O ensino de Ciência Política e a música no livro didático

A música é uma representação cultural, política e social que expressa a subjetividade de indivíduos e grupos diante de conjunturas no decorrer da história. Durante a ditadura civil-militar implantada no Brasil em 1964, muitas canções foram utilizadas como instrumento de crítica ao regime ditatorial, pois apesar da censura daquele período, muitos compositores e intérpretes conseguiram por meio de metáforas fazer com que suas canções fossem ouvidas e percebidas como instrumento de contestação e descontentamento com a situação política e social do país. A partir da redemocratização na década de 1980 e 1990 até o início dos anos 2000, houve uma expansão da indústria cultural no Brasil, onde a música tornou-se parte do cotidiano das camadas populares e mais recentemente com o advento da rede mundial de computadores, a música atinge uma diversificação e multiplicação de ritmos que vai do gospel ao eletrônico, do funk ao clássico erudito. Consequentemente, as instituições sociais como a família, a escola, a Igreja, e os veículos de informação e comunicação passam cada vez mais a se conectarem com essa expressão artística e cultural, fazendo com que a socialização dos agentes esteja cada vez mais próxima da música, sendo esta também uma parte do processo de socialização. As instituições educacionais também se utilizam da música como recurso didático. Nesse sentido, é possível perceber a apropriação desse artefato cultural pela produção dos livros didáticos, principalmente daqueles produzidos para as disciplinas da área de humanidades. Por meio da análise dos seis livros didáticos aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2015 para a área de Sociologia foi possível perceber que todos se utilizam da música como princípio pedagógico para o ensino da disciplina no Ensino Médio. Nesse sentido, esta pesquisa tem por objetivo abordar a música como um recurso didático para o ensino de Ciência Política. Para isso iremos: a) problematizar o ensino da Ciência Política junto à disciplina de Sociologia para o Ensino Médio; b) evidenciar e categorizar como a música é referenciada nos livros didáticos de Sociologia aprovados pelo PNLD 2015; c) trabalhar as músicas que são referenciadas nos livros didáticos a fim de propiciar a abordagem de temas voltados ao ensino de Ciência Política em sala de aula. Nesse sentido optou-se por descrever e analisar as canções “Clandestino” de Manu Chao; “Comportamento Geral” de Gonzaguinha e “Comida” de Arnaldo Antunes. A metodologia foi desenvolvida em duas etapas. A primeira voltou-se para a análise dos seis livros aprovados pelo PNLD de Sociologia/2015 (ARAÚJO, BRIDI, MOTIN, 2013; BOMENY, FREIRE-MEDEIROS, ERERIQUE, 2013; SILVA, 2013; TOMAZI, 2013; MACHADO, AMORIN, BARROS, 2013; OLIVEIRA, COSTA, 2013). Buscou-se compreender como a música era utilizada pelos (as) autores (as) e qual papel ela desempenhava na transposição de conteúdos ligados ao ensino de Ciência Política. Incluímos na análise o Manual do Professor e buscamos contrastar quais recursos disponíveis eram lançados em relação a esse recurso didático. No segundo momento nos utilizamos do conceito de “transposição didática” de Yves Chevallard (2013) para trabalhar as canções que foram mais recorrentes nos livros em relação as temáticas voltadas ao ensino de Ciência Política, tais como: democracia, cidadania, poder e território. O conceito de transposição didática pode ser entendido como a transposição de um conhecimento científico em conhecimento escolar. O conhecimento científico passa por uma complexa estrutura social e simbólica passível de ressignificação entre os agentes envolvidos com o processo de escolarização. A escola, o professor e o aluno encontram-se cada um com sua lógica própria na captação do conhecimento previamente oficializado e legitimado pelo Estado a partir de uma série de disputas nas esferas de escolha e seleção de determinados conteúdos, e portanto, reconhecidos como oficiais. Nesse sentido, a transposição didática é um conceito que auxilia na compreensão das estruturas macro (políticas, sociais, culturais) e micro (escola, aluno, professor) em que os conhecimentos científicos são transformados em conhecimentos escolares. Entre os principais resultados alcançados após o estudo é possível citar que os livros analisados, abordam a música de maneiras distintas. Por um lado, temos a música enquanto recurso didático: que visa a discussão de letras contextualizando o período histórico de produção da música, relacionando-o com os conceitos da disciplina em questão. Por outro, a música é utilizada como um recurso informativo: tendo por base indicar canções que trabalham o tema proposto, porém, sem uma base de contextualização ou proposição pedagógica para se trabalhar o conteúdo em sala de aula. Em relação ao livro do professor, percebe-se que existem poucas informações pedagógicas que possibilitem a utilização desse recurso didático, bem como a ausência de exemplos didáticos, o que dificulta ainda mais o desenvolvimento desse tipo de atividade. Por fim, esta pesquisa problematiza o ensino de Ciência Política na educação básica e ao mesmo tempo auxilia no desenvolvimento de metodologias mais atrativas para a transposição de conteúdos dessa ciência na escola.

Naiara Dal Molin
Marcelo Pinheiro Cigales
A introdução à Ciência Política através do Projeto “Jovem Senador”
Daniel de Souza Lemos
O Modelo de " Learning Partners" para Ciência Política: Argumentos e Evidências
Terrie R. Groth
O Outlier que Pertuba o seu Sono: como identificar e manejar casos extremos?

A presença de outliers é um dos problemas mais antigos da Estatística e afeta todos os ramos do conhecimento científico que utilizam testes de hipóteses como mecanismo de tomada de decisão. Por exemplo, imagine calcular a média de renda da cidade de Barcelona e incluir na amostra Messi, Neymar e Soares. A estimativa produzida irá sobreestimar o valor do parâmetro populacional. Contrariamente, calcule a média de pontos conquistados por um time de futebol e inclua a campanha do Náutico em 2013 durante o campeonato brasileiro. A estimativa produzida certamente irá subestimar o valor do parâmetro populacional. O principal problema dos outliers é que eles afetam a consistência das estimativas. Essas inconsistências podem se manifestar de várias formas: dificuldade de visualização gráfica, problemas na magnitude das estimativas, inversão de sinal dos coeficientes, erros do tipo 1 e 2, violação de pressupostos, entre outros.
Este artigo apresenta uma introdução intuitiva sobre como identificar e manejar outliers. O foco repousa sobre cinco diferentes técnicas de detecção: (1) escores padronizados; (2) diferença interquartílica; (3) resíduos padronizados; (4) distância de Mahalanobis e (5) distância de Cook. Metodologicamente, o desenho de pesquisa utiliza simulação básica e replica dados secundários para ilustrar o passo a passo de cada procedimento. Nosso público alvo são estudantes de graduação e pós-graduação em Ciência Política.
O restante do artigo está organizado da seguinte forma. A próxima seção apresenta uma discussão conceitual sobre outliers. Depois disso, apresentamos cinco diferentes técnicas para detectar casos extremos. A quarta seção discute diferentes estratégias para lidar com observações atípicas. A última seção sumariza as conclusões.

Dalson Britto Figueiredo Filho
Lucas Emanuel de Oliveira Silva
Passa ou repassa? Questões de regressão que você tem que saber

Como utilizar a análise de regressão linear de mínimos quadrados ordinários? Qual é o efeito da multicolinariedade sobre a eficiência das estimativas? Quais são as limitações do coeficiente de determinação (r2)? Como interpretar o coeficiente quando a variável independente é dummy? Qual é a utilidade dos coeficientes não padronizados? Quais os perigos dos outliers? O que é e como se interpreta o p-valor? O objetivo desse trabalho é responder essas questões. Metodologicamente, o desenho de pesquisa utiliza simulação básica e replica dados secundários. Com esse artigo esperamos facilitar a compreensão de conceitos fundamentais de análise de dados e melhorar a qualidade dos resultados empíricos reportados em revistas científicas.

Introdução
No documentário The Joy of Statistics, Rosling (2010) afirma que “o mundo em que vivemos está repleto de dados que chovem por todos os lados. Sozinhos, esses dados são apenas barulho e confusão. Para dar sentido e achar significado precisamos de um ramo poderoso da ciência: a Estatística” . Na verdade, é impossível passar um único dia sem ser exposto aos dados. Eles estão nos jornais, no noticiário, nos relatórios governamentais e até mesmo na quantidade de curtidas da sua postagem no Facebook. Em particular, a quantidade de informações digitais cresce exponencialmente de modo que a análise de dados é um procedimento central na gestão de organizações, no planejamento estratégico de empresas e na formulação de políticas públicas.
Este trabalho apresenta uma introdução à análise de dados a partir de sete questões sobre a utilização da regressão linear. Nosso público alvo são estudantes de graduação e pós-graduação em fases iniciais de treinamento. O trabalho tem três motivações principais. A primeira é a escassez de material intuitivo em português voltado especificamente para Ciência Política . A segunda é a utilização incorreta de termos e técnicas em congressos e revistas especializadas. É comum observar a ocorrência de erros primários que comprometem a robustez das inferências realizadas. A terceira diz respeito a própria importância da regressão. De acordo com Krueger e Lewis-Beck (2008), a regressão linear de mínimos quadrados ordinários é a técnica mais utilizada na Ciência Política contemporânea. Dessa forma, é importante compreender seus pressupostos e aplicações.
O restante do artigo está dividido em oito seções. A primeira parte apresenta uma introdução ao modelo de regressão linear de mínimos quadrados ordinários (MQO). A segunda discute o efeito da multicolinariedade sobre a eficiência das estimativas. A terceira introduz as principais limitações do coeficiente de determinação (r2). A quarta parte ensina a interpretar os coeficientes do modelo de regressão linear quando a variável independente é dicotômica (dummy). A quinta seção discute a diferença dos coeficientes não padronizados e padronizados. A sexta discute o efeito de observações destoantes (outliers) sobre a consistência das estimativas. A sétima explica o que é e como se interpreta o p-valor. A última parte sumariza as conclusões.

Ranulfo Paranhos dos Santos Filho
José Alexandre da Silva Júnior
Willber da Silva Nascimento

SAT18 | Ensino em Relações Internacionais

quarta-feira, 31 de Agosto de 2016 - 16:45

Coordenadores

Leticia de Abreu Pinheiro (London School of Economics and Political Science )

Debatedores

Ana Paula Tostes (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Apresentações

Ensino e aprendizagem nas disciplinas de História das Relações Internacionais na era moderna (1618-1814) e contemporânea (1815-1945) no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria

O presente artigo trata das estratégias de ensino e aprendizagem adotadas nas disciplinas de História das Relações Internacionais na era moderna e contemporânea do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria. Utilizamos, assim, da revisão bibliográfica, a partir de um conjunto de obras voltadas a metodologia do ensino superior, e através da pesquisa participante, adotamos técnicas qualitativas e quantitativas de coleta de dados que emprestam maior significação e generalidade aos dados obtidos. O objetivo do trabalho é avaliar as cinco estratégias de ensino aprendizagem utilizadas nas duas disciplinas: i) portfólio/diário, que busca repassar o conhecimento obtido em classe e incentivar as pesquisas no pós aula sobre os assuntos tratados na mesma; ii) debate entre as visões interpretativa, ou seja, como diferentes autores discorrem acerca do mesmo tema; iii) exposição introdutória dos conceitos e categorias analíticas fundamentais ao estudo da História das Relações Internacionais; iv) motivação através do humor, seja através de analogias com fatos atuais ou com associações que permitem aos alunos uma maior absorção do conteúdo proposto e; v) entusiasmo, ou seja, a proatividade antes, durante e após o horário de aula, um diálogo constante com os discentes. Buscamos, também, compreender como os discentes avaliam o seu aprendizado e comportamento ao longo do semestre a partir dessas cinco ferramentas didático-pedagógicas empregadas nas duas cadeiras, e como os mesmos avaliam o nível de dificuldade e clareza dos textos propostos, das avaliações, das aulas e dos estudos dirigidos/outras atividades. Serão realizados questionários com o público envolvido, de 54 alunos, que cursaram as disciplinas no ano de 2015/2 e 2016/1, além de entrevista com um número limitado de discentes. Neste sentido, será solicitado aos alunos que avaliem o grau de contribuição - ou não contribuição - das metodologias utilizadas pelo docente na disciplina, além de solicitar dos mesmos o grau de dificuldade e aceitabilidade das atividades e propostas pedagógicas. Com o intuito de demonstrar se os instrumentos aplicados em sala de aula são eficazes no processo de aprendizagem e de maior motivação aos conteúdos ensinados em classe, o presente estudo pretende-se frutífero ao passo que dialoga com a linha em que se insere dentro do X Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. Ou seja, acreditamos que o estudo proposto colabore com o fomento e estímulo a reflexão sobre a docência e a pesquisa e seus diferentes métodos e abordagens como parte integrante e necessária da atividade acadêmica. A disciplina de História das Relações Internacionais na era moderna (1618-1814) discute a emergência do mundo europeu, as suas vantagens e desvantagens frente a outras civilizações, a Guerra dos Trinta Anos e o papel desempenhado pelo cardeal Richelieu, o Absolutismo e o surgimento das instituições burocráticas, as Revoluções liberais (inglesa e francesa), e as Guerras Napoleônicas que repercutem no processo de independências dos países latino americanos. A bibliografia básica da disciplina inclui os seguintes livros: Ascensão e queda das Grandes Potências de Paul Kennedy; A Diplomacia de Henry Kissinger; As linhagens do Estado Absolutista de Perry Anderson; Revoluções Burguesas de Modesto Florenzano e a Era das Revoluções de Eric Hobsbawm. Já a disciplina de História das Relações Internacionais na era contemporânea (1815-1945) busca introduzir os estudantes à analise geoestratégica e diplomática das principais potências europeias no século XIX e o surgimento das potências não europeias e as futuras superpotências no século XX. Nesse sentido, examinamos a evolução das relações internacionais no Congresso de Viena, no início do século XIX, ao colapso do mundo europeu e o surgimento da bipolaridade no século XX; e contextualizamos e debatemos as principais categorias analíticas - razão de Estado, equilíbrio de poder, percepção de ameaça, polaridade, polarização e dilemas-escolhas racionais dos estadistas. A literatura básica discutida na disciplina inclui: História das Relações Internacionais contemporâneas de José Flávio Sombra Saraiva; A diplomacia de Henry Kissinger; Relações Internacionais: teoria e história de Demétrio Magnoli; A era dos impérios de Eric Hosbawm; Ascensão e queda das Grandes Potências de Paul Kennedy; Cooperação e conflito nas relações internacionais: uma leitura essencial para entender as principais questões da política mundial de Joseph Nye. As disciplinas são obrigatórias na grade curricular do curso e são oferecidas no primeiro e segundo semestre de cada ano. A cadeira de Introdução às Relações Internacionais é pré requisito da disciplina de História das Relações Internacionais I no qual deve ser cursada como pré requisito da disciplina de História das Relações Internacionais na era contemporânea. São disciplinas de 60 horas, de 4 créditos, oferecidas no período vespertino das 13:30 às 17 horas. Compõem o quadro das chamadas disciplinas específicas de Relações Internacionais.

José Renato Ferraz da Silveira
Augusto César Dall'Agnol
Ensino e Pesquisa de Relações Internacionais no Brasil:Reflexões sobre a Internacionalização das Universidades Brasileiras em Tempos de Globalização

Em 2013, a queda de 68 posições da Universidade de São Paulo (USP) e de 75 da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no ranking universitário Times Higher Education, excluídas do grupo das 200 melhores do mundo, mostrou a importância da presença de línguas estrangeiras nas universidades. Aloizio Mercadante, ministro da Educação, reconheceu a valorização de aulas ministradas em inglês: “Não é uma mudança de avaliação na qualidade da produção científica ou dos cursos. É um indicador de internacionalização. É o número de oferta de cursos em língua inglesa, porque é um ranking de países de língua inglesa”. O inglês garante maior pontuação na quantidade de citações e artigos científicos: “Como no Brasil o índice é baixo, a nota caiu automaticamente”. (CORREIO BRAZILIENSE, 2013).
Contrariamente, Esra Çuhadar informa: “Na Turquia, onde sou professora de Ciência Política da Universidade de Bilkent, ministramos todas as aulas em inglês e temos muitos estudantes estrangeiros” (O GLOBO, 2015). A Universidade de Bilkent, 28ª no ranking de 2015, subiu do 31º lugar, sendo a universidade turca melhor classificada.
No biênio 1996-1997, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) redefinindo a política da pós-graduação, na internacionalização da pesquisa nacional, postulou melhor desempenho mundial das publicações científicas brasileiras. O conceito de internacionalização dos relatórios de área, no quesito “Cooperação Internacional”, sinaliza prioridade das atividades da pós-graduação através de missões de trabalho (intercâmbio de professores), bolsas de estudo (intercâmbio de alunos), parcerias e aproximação curricular entre as instituições e cursos participantes (CAPES, 2014).
Qual o entendimento hoje de internacionalização do conhecimento científico? Qual a relação entre internacionalização e qualidade? Quais definições de internacionalização balizam esse debate? Quais as características de uma “ciência internacionalizada”? Qual o grau de internacionalização do ensino e pesquisa no Brasil? Quais os principais desafios? Por que desejamos e como promovemos? Que políticas públicas, da CAPES ou do INEP, incentivam a internacionalização do ensino e da pesquisa no Brasil? De que forma a falta de domínio de idiomas estrangeiros, notadamente, a ausência da língua inglesa – considerada língua franca do conhecimento científico – nas salas de aulas do Brasil, impactam a internacionalização do ensino superior e da pesquisa?
Nossa hipótese é que, a despeito da exortação das agências governamentais à internacionalização ativa, as instituições de ensino brasileiras praticam um modelo passivo, e – mesmo assim – de nível baixo, tanto no ensino (graduação) quanto na pesquisa (pós-graduação). Na amostra da área de Relações Internacionais, identificamos o modelo da internacionalização passiva, na qual as universidades brasileiras não são polo de atração de estudantes e pesquisadores estrangeiros, limitadas a meras consumidoras e reprodutoras de saberes produzidos no centro. Iniciativas de engajamento com o centro viriam da necessidade de reconhecimento e validação aos olhos do centro, expressando uma busca por “selos de qualidade”, obteníveis somente no exterior.
Examinaremos os desafios brasileiros para a internacionalização do ensino e da pesquisa em RI utilizando mapeamento, identificação e reflexão crítica de trabalhos de pesquisa, análises científicas e artigos em torno da área de Relações Internacionais. Aplicaremos esse repertório na investigação da regulação do ensino e da pesquisa na área de Relações Internacionais no país, analisando os principais documentos de orientação na área, avaliando o tipo de internacionalização do conhecimento científico aqui produzido, seja no âmbito do INEP (graduação), ou no âmbito da CAPES (pós-graduação), com foco, principalmente, no uso de línguas estrangeiras no âmbito da política de internacionalização. Pesaremos a preponderância do idioma inglês na forma ativa, em aulas, TCCs, dissertações e teses, e não apenas na forma passiva, em que o aluno compreende a leitura de textos em sala de aula. Entrevistaremos os coordenadores dos cursos, professores e pró-reitores de ensino e pesquisa que fornecerão esclarecimentos complementares.
Nosso objetivo é averiguar a internacionalização nos dez primeiros cursos de graduação em RI classificados no Enade/2012, que servirão de amostra, assim como os melhores cursos de pós-graduação de Ciência Política e/ou Relações Internacionais, pontuados pela CAPES. Mencionaremos o impacto do programa “Ciência Sem Fronteiras” para essa internacionalização.
Considerada a citação do Ministro da Educação e justificando o tema, objeto desta pesquisa, utilizaremos, dentre os textos de suporte, “A Economia das Trocas Simbólicas”, de Pierre Bourdieu, como marco teórico-conceitual, central na elucidação do problema, explicitando como os mecanismos de dominação, da produção de ideias, da gênese das condutas são exercidos na articulação do social.
A pesquisa em campo mostrou iniciativas de internacionalização contribuidoras para o aumento da presença de docentes e discentes brasileiros em universidades estrangeiras, sem que, inversamente, tornemo-nos um núcleo de atração para a academia estrangeira. O tipo passivo de nossa internacionalização traduz-se na inexistência de línguas estrangeiras em nossas salas de aulas, nos trabalhos finais dos alunos, na formação das bancas examinadoras de dissertações e teses, nos recursos para manutenção de professores orientadores e pesquisadores por médio e longo prazos, nos diversos graus universitários, o que, geralmente, nos deixa fora da escolha de quem não domina o português.
Lendo Marrara (2007), observamos no Brasil a internacionalização do tipo passivo e as entrevistas abertas com os professores revelaram um significado de internacionalização diferente daquele aludido nas políticas governamentais, ou seja, a internacionalização pretendida como necessidade de reconhecimento e de validação da pesquisa brasileira aos olhos estrangeiros. Possíveis consequências da dominação cultural brasileira manifestam-se nas práticas de internacionalização de saberes no país, reproduzindo um comportamento chamado por Nelson Rodrigues de “complexo de vira-latas”: a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo e não limitado somente ao campo do futebol.
Apesar das políticas, da CAPES e do INEP, de promoção da cooperação científica internacional em atividades de ensino e pesquisa no contexto globalizado, diagnosticamos significados de internacionalização reprodutores de práticas de validação de saberes do Sul aos olhos do Norte. Iniciativas da CAPES, implementando políticas de internacionalização da pesquisa e do ensino superior brasileiros e os relatos dos professores corroboram a descrição rodriguiana ao admitirem esforços para adaptar departamentos, cursos, corpos docentes e discentes, publicações científicas, às exigências do Ministério da Educação e da CAPES para que a internacionalização, mesmo na forma passiva, segundo Marrara (2007), seja implementada.

Sandra Chapadeiro
O ensino e pesquisa de Relações Internacionais em uma era interconectada: um mapa conceitual para o caso brasileiro
Diego Rafael Canabarro
Feminismo e Pós-colonialismo nas Relações Internacionais: ausência do debate no Brasil
Luciana Maria de Aragão Ballestrin
Isabela Assunção de Oliveira Andrade
Os filmes no ensino das Relações Internacionais – a experiência brasileira
Cristine Koehler Zanella

SAT34 | Internacionalização do Ensino e Pesquisa em CP e RI

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 13:45

Coordenadores

Miriam Gomes Saraiva (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Debatedores

Adrian Gurza Lavalle (Departamento de Ciência Política da USP)

Apresentações

Metodologia e Relações Internacionais na América do Sul: teorias e áreas

As ciências sociais, por naturalmente tratarem de fenômenos sujeitos a contextos históricos, culturais e geográficos distintos, são erigidas com matizes particulares onde quer se se desenvolvam. Assim, não é estranho que problemas diferentes sejam estudados em continentes e países diferentes, bem como não é incomum encontrar teorias e enfoques metodológicos que refletem essas idiossincrasias. Na América do Sul, acredita-se que o estudo das Relações Internacionais (RI) é influenciado por ideologias pós-colonialistas e por um enfoque metodológico na descrição histórica de eventos. Buscando verificar esta crença, este artigo mapeia a produção científica em RI de países da América do Sul recorrendo a técnicas e softwares de análise de conteúdo que procuram identificar interseções entre teorias, métodos e áreas de estudo.
Tal mapeamento foi realizado da seguinte forma: a) tomamos o Scientific Electronic Library Online (SciELO) como base de dados primária, por ser um repositório da produção acadêmica de países em desenvolvimento com páginas nacionais disponíveis para quase todos os países da América do Sul, com vasto acervo disponível online e por possuir critérios rigorosos de admissão e permanência de periódicos em sua base de dados; b) consideramos um conjunto de palavras-chave cuja presença era condição sine qua non para a inclusão do periódico na análise; c) o período analisado das publicações foi de Janeiro de 2006 a Dezembro de 2014, período no qual a base de dados do Scielo referente ao seus periódicos estava plenamente atualizado; d) desconsideramos entrevistas, resenhas de livros, documentos históricos, discursos e textos opinativos, para garantir que teríamos em nossa amostra apenas textos científicos de pesquisas originais. Como resultado desses critérios, nossa amostra incorpora um total de 7857 artigos em seis idiomas, coletados de 35 periódicos publicados em seis países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Venezuela.
Assim, foi possível identificar quais são as teorias, métodos predominantes no desenvolvimento do campo das RI na América do Sul e os principais áreas das pesquisas publicadas no subcontinente. Apesar de isso ser costumeiramente feito a partir de um traçado histórico do surgimento do campo em um país, das obras fundamentais e maiores influências (Miyamoto 1999; Tickner 2002; Bernal-Meza 2005; Lessa 2005; Almeida 2006; Acosta 2015), optamos por uma meta-análise bibliométrica a fim de escapar de possíveis vieses de seleção, classificando nossa amostra de artigos de acordo com teoria, métodos e subcampos de pesquisa por um método inovador na produção acadêmica de RI na América do Sul. Considerando a extensão de nossa amostra, recorremos ao uso de dois softwares específicos: um para a codificação individual dos artigos (QDA Miner v. 4.1.21) de acordo onde o periódico foi publicado, ano de publicação, país e idioma; e outro para a análise de conteúdo (WordStat 7) a partir de um dicionário específico com as seguintes categorias e subcategorias: a) Teoria - compreendendo construtivismo, liberalismo, realismo, marxismo, escola inglesa, pós-modernismo/pós-colonialismo, feminismo e teoria crítica; b) Método - abrangendo análise quantitativa, análise qualitativa, métodos mistos e modelos formais; c) Área - compreendendo análise de política externa, segurança internacional, estudos estratégicos e defesa, instituições e regimes internacionais, integração regional, direito internacional, história das relações internacionais e história diplomática.
Aplicado o dicionário de categorização ao corpus, apenas 3648 artigos apresentaram as palavras-chave das categorias usadas e puderam ser analisados. Nossos principais achados demonstram: i) a prevalência de epistemologias positivistas em 33 dos 35 periódicos analisados; ii) há grande diversidade metodológica, com maior ênfase em métodos qualitativos em 21 periódicos; iii) os periódicos tendem à diversificação temática, com poucas exceções; iv) os subcampos de Instituições Internacionais e Regimes, Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e de Defesa, e Integração Regional são predominantes; v) desses três, Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e de Defesa é o subcampo que mais cita teorias, apontando que sua produção é mais qualificada do ponto de vista teórico; vi) a inconsciência metodológica: a aplicação consciente de métodos, em nossa análise assim considerada pela expressa categorização em algum dos itens de nosso dicionário, na seção Métodos, ocorre em menos de 13% da nossa amostra, demonstrando a ausência de rigor metodológico na produção analisada e, até mesmo, a ignorância sobre metodologia, resultando em trabalhos que são, majoritariamente, mais narrativas do que pesquisas científicas.
Essa visão panorâmica da produção em RI na América do Sul é complementada por uma análise mais detida de alguns exemplos de artigo, extraídos do corpus, que mostram combinações características entre teorias/métodos, métodos/áreas e teorias/áreas

Marcelo de Almeida Medeiros
Rafael Mesquita de Souza Lima
Rodrigo Barros de Albuquerque
Pesquisa em Relações Internacionais na América Latina: Um estudo comparativo entre Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México
Marina Scotelaro de Castro
Um panorama dos cursos de pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil no período de 2005-2015

No contexto do debate sobre Ensino e Pesquisa em Ciência Politica e Relações Internacionais, esse artigo pretende atualizar o levantamento de dados sobre os cursos de Pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil na última década. Apesar dos primeiros cursos de Pós-graduação em Relações Internacionais terem sido criados no início da década de 1980, foi a partir de 2003 que vimos o crescimento e aumento da diversidade regional de ofertas de formação acadêmica na área no Brasil (Santos, 2009, Tabela 1, p.363), com resultados que só podem ser melhor apreciados após 2006, com as primeiras avaliações dos respectivos cursos e criação de novos. O objetivo desse artigo é apresentar um panorama atualizado da última década, comparativamente a outros programas da área de ciências sociais, agregando dados sobre número de cursos, vagas, bolsas, defesas e verbas destinadas ao programa e projetos institucionais, com a finalidade de contribuir para um balanço do período de estabelecimento e consolidação da Pós-graduação na área. Serão ainda organizados e sistematizados dados sobre regras da CAPES para a área, resultados das avaliações dos cursos e descrição dos perfis acadêmicos e administrativos em relação a outros programas de ciências sociais. Essa pesquisa está relacionada às atividades do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Relações Internacionais (LabRI) do Programa de Pós-graduação de relações Internacionais (PPGRI) da UERJ, com o objetivo de promover a integração da pesquisa docente e discente e será objeto de divulgação em outros foros do LabRI.
Para atingir os objetivos propostos neste artigo será realizada uma revisão da literatura nacional sobre o assunto e eventualmente serão levantados dados comparativos para ilustrar o contexto latino americano dos programas brasileiros e considerado o contexto dos programas de Relações Internacionais em demais programas de ciências sociais que também formam acadêmicos e pesquisadores na área de Política Internacional. Algumas das fontes serão sites oficiais do Ministério da Educação, do INEP, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), assim como do Ministério da Educação (MEC), e também no endereço eletrônico de cada um dos programas de pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil.
O objetivo de situar o crescimento do campo no contexto de demais pós-graduações da área de ciências sociais permitirá verificar o grau de consolidação e as dificuldades remanescentes específicas de RI. Já há achados relevantes na literatura nacional sobre o expressivo crescimento da área, mas falta atualizações que podem contribuir para um mapeamento mais capaz de refletir resultados consolidados da inserção de programas recentes jovens mestres no mercado de trabalho. Além disso, espera-se verificar as publicações nacionais e internacionais na área, que revelam um aumento da contribuição acadêmica sobre o campo e o amadurecimento do pensamento brasileiro em Relações Internacionais. Bem como espera-se sistematizar informações e dados que promovam uma reflexão atualizada sobre o crescimento da formação de profissionais qualificados para atenderem a crescente demanda dos cursos de graduação nesta mesma área como consequência.

Ana Paula Tostes
Lucca Viersa Barros Silva
Luisa Maria Barros da Silva Chaves
O desenvolvimento da ciência política na Argentina , Brasil e México em Perspectiva Comparada : atores, instituições e agendas temáticas
Pablo Boulcourf
Nelson Dionel Cardozo

SAT50 | Métodos e Pesquisa em CP e RI

quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 - 16:00

Coordenadores

Lorena Guadalupe Barberia (USP - Universidade de São Paulo)

Debatedores

Lorena Guadalupe Barberia (USP - Universidade de São Paulo)

Apresentações

Explicando Mais e Melhor: A Aplicabilidade do Multimétodo para a Pesquisa em Relações Internacionais

A pesquisa científica em Relações Internacionais figura como recente, quando comparada às demais disciplinas, a exemplo da Ciência Política. A interdisciplinaridade latente da área permite uma amplitude de abordagens teóricas e metodológicas que é salutar ao passo que dificulta qualquer tentativa de síntese. Na primeira parte do artigo, parte-se do pressuposto que a complexidade causal característica das Relações Internacionais deve ser vista como aliada e não como um impeditivo para o uso de uma metodologia de pesquisa mais robusta. A pesquisa empírica em Relações Internacionais tem tradicionalmente lançado mão de técnicas qualitativas, principalmente o estudo comparado de casos específicos e a análise descritiva histórica.
No entanto, como apontam Mearsheimer & Walt (2013), é crescente o número de artigos na área de RI, principalmente entre scholars norte-americanos, que buscam reconhecimento acadêmico ao tentar realizar testes estatísticos de hipóteses, nem sempre bem sucedidos por ignorar algumas especificidades da área. Apesar do impacto da obra de King, Keohane e Verba (1993) tem sido fundamental para estimular o debate metodológico nas ciências sociais, este artigo parte do pressuposto que as RIs enfrentam uma dificuldade extra em aplicar o conceito de causalidade linear proposto pelos autores. No segundo momento, o artigo discute um dos principais problemas que dificultam o emprego de teste de hipóteses é a questão da mensuração dos principais conceitos de RI, a exemplo das noções clássicas de poder, balance of power, spill-over, aprofundamento ou não de integração regional, dentre outros.
Em seguida, discute-se o multimétodo como uma ferramenta analítica que precisa ser mais estimulada nas RIs. A conexão entre diversas técnicas de pesquisa é apresentada como uma forma de manter o propósito científico de fornecer uma explicação, mas ao mesmo que abarque a complexidade causal inerente da área. O argumento é que o verdadeiro progresso para uma ciência social mais rigorosa passa inevitavelmente pela combinação das ferramentas quanti e quali, respeitando a lógica interna de cada uma, mas sempre com o objetivo final de explicar em profundidade o objeto de estudo. Uma das técnicas de multimétodo mais comuns é o que Tarrow (2010) denomina de triangulação, em que em um único projeto de pesquisa há uma combinação entre dados lineares e dados qualitativos. Esta combinação é feita com o intuito de complementar possíveis vácuos explicativos deixados por uma ou outra técnica de pesquisa, além de contribuir para o teste de teorias e modelos estatísticos.
Freedman (2010) busca na epidemiologia exemplos em que a lógica de inferência por meio de mecanismos causais pode solucionar mistérios da medicina que a técnica quantitativa não foi bem sucedida. Desde a descoberta da penicilina à investigação da origem de um surto de cólera no séc. XIX, o autor demonstra que em todos os exemplos, estudos em profundidade de casos específicos que fugiam ao padrão dos acontecimentos auxiliaram na descoberta de novas doenças, bem como procedimentos profiláticos ou até mesmo a cura.
Freedman (2010) reintera a necessidade de se estudar os casos que não se adequam às análises lineares pela sua importância ao inserir novas ideias, repensar teorias e até testá-las. Em uma defesa do alinhamento entre a técnica quantitativa e a qualitativa, considerando sua independência no que tange à lógica de inferência, o autor considera que a estratégia do multimétodo só tem a contribuir com o rigor científico nas ciências sociais. Em suma: “scientific inquiry is a long and tortous process, with many fake starts and blind alleys. Combining qualitative insights and quantitative analysis – and a healthy dose of skepticism – may provide the most secure results” (2010:232).
Collier & Elman (2008) afirmam que a noção de complementaridade entre as ferramentas de análise quantitativas e qualitativas apresentam diversas configurações quando se trata de uma pesquisa de multimétodo. Além disso, para entender melhor as aplicabilidades do multimétodo, é preciso se despir das concepções tradicionais de ambas as ferramentas. Segundo os autores, por exemplo, tanto pesquisas quantitativas quanto qualitativas podem usar modelos matemáticos em suas análises, assim como se encontram estudos históricos de large-n, com análise qualitativa aprofundada.
Os autores apresentam ainda três definições práticas de multimétodo, em que a primeira delas refere-se ao uso das diversas ferramentas qualitativas entre si. Entendendo que a pesquisa qualitativa tem se ampliado significativamente na última década, a possibilidade de interação entre a variedade de técnicas qualitativas disponíveis permite elaborar explicações alinhando diversas metodologias, como exemplo de estudo de poucos casos aliado a process tracing, ou fuzzy set, ou ainda em associação com a identificação de parth dependece (idem, 2008:782). Outra definição para multimétodo parte da conexão entre a abordagem interpretativista e a construtivista, baseada na ideia em que os fenômenos sociais podem ser compreendidos integrando a noção de hermenêutica com a construção social do mundo político. Por último e com ampla aplicabilidade nas ciências sociais, temos o multimétodo dedicado ao diálogo entre as técnicas qualitativas e quantitativas, cuja integração entre as duas tem sido cenário para o desenvolvimento de inúmeras estratégias de pesquisa.
Por fim, busca-se na literatura específica em RI, exemplos de como o multimétodo é aplicado e as dificuldades inerentes em seu uso.

Cinthia Regina Campos Ricardo da Silva
Relações Causais em Ciência Política: debates recentes, limites e possibilidades

Introdução

Este trabalho apresenta as principais definições sobre relações de causalidade nas ciências sociais e avança sobre as consequências de alguns desenvolvimentos recentes em metodologia de pesquisa. Argumenta-se que a discussão sobre causalidade não se limita ao modelo de explicação através de contra factuais e apresentam-se os principais pontos da literatura sobre Realismo Crítico e mecanismos causais. São exploradas as consequências práticas dos fundamentos epistemológicos pertinentes a cada escola, bem como os desafios e possibilidades colocados pelas tecnologias que permitem operar com grandes volumes de dados observacionais (big data) e com a coleta de dados experimentais via redes sociais.
O debate sobre metodologia de pesquisa na Ciência Política avançou enormemente nos últimos anos. King, Keohane e Verba (1994), na obra Desinging Social Inquiry, iniciaram um debate ainda crescente sobre lógica de inferência científica em pesquisas sociais. Para os autores, pesquisas quantitativas e qualitativas obedeceriam à mesma lógica de funcionamento. Pesquisadores adeptos de pesquisas qualitativas dedicaram-se nos anos seguintes a elaborar críticas a essa perspectiva. Bady e Collier (2010) destacam a importância de pesquisas com um ou poucos casos para o desenvolvimento das ciências. Goertz e Mahoney (2012) enfatizam as diferenças entre as tradições quantitativas e qualitativas para afirmar que se tratam de duas culturas distintas.
Uma linha diferente de argumentação é seguida pela literatura sobre Realismo Crítico e mecanismos causais. Tal escola baseia-se sobretudo no trabalho de Roy Bhaskar e possui uma definição de causalidade não associada à presença ou não de variáveis.
O avanço das redes sociais e de tecnologias de “big data” apresentam desenvolvimentos que desafiam certos lugares comuns. São apresentadas as características do “big data” –grandes volumes de dados observacionais (não aleatórios), e de recentes pesquisas experimentais divulgadas pelo Facebook com usuários das redes sociais. Por fim, discute-se as consequências desses avanços para a pesquisa em Ciência Política.

objetivos

O objetivo do trabalho é apresentar em caráter didático o debate sobre estabelecimento de relações de causalidade e suas implicações na pesquisa científica. Identifica-se, para tanto, diferenças na literatura apresentada e respectivas consequências práticas para a pesquisa empírica. Espera-se com isso contribuir para que a comunidade científica da área de Ciência Política, especialmente alunos de graduação e pós-graduação, faça opções conscientes e informadas ao planejar seus desenhos de pesquisa.

Metodologia

A metodologia utilizada foi a revisão da literatura sobre causalidade, metodologia de pesquisa e filosofia da ciência. Nessa revisão, busca-se construir quadros comparativos na tentativa esclarecer as diferenças e consequências práticas da explicação através de contra factuais e através de mecanismos causais.

Resultados

Argumenta-se que a divisão entre metodologia qualitativa e quantitativa, seja a adotada por King, Keohane e Verba, seja a adotada por Goertz e Mahoney e Mahoney, possuem características comuns que limitam o debate sobre relações causais. Essas características são a) o número de observações como um dos elementos centrais da discussão, e b) um fundamento comum no modelo contra factual, desenvolvido sobretudo a partir dos trabalhos de Neyman e Rubin. Nesse caso específico, a literatura sobre contra factuais é subjacente às duas tradições de pesquisa. A discordância caberia, por exemplo, à literatura sobre Realismo crítico e mecanismos causais.
Ao mesmo tempo, desenvolvimentos recentes em tecnologias de comunicação renovam a aplicação de métodos tradicionais, sobretudo na possibilidade de realização de pesquisas experimentais e na utilização de dados observacionais não aleatórios.

Bibliografia selecionada

ARCHER, Margaret; BHASKAR, Roy; COLLIER, Andrew; LAWSON, Tony; NORRIE, Alan (ed.). Critical Realism: essential readings.London: Routledge, 1998.
BRADY, Henry; COLLIER, David. Rethinking Social Iquiry: Diverse Tools, Shared Standards. Nova Iorque: Rowman & Littlefield, Inc, 2010.
GOERTZ, Gary; MAHONEY, JAMES. A Tale of Two Cultures: Qualitative and Quantitative Research in the Social Sciences. Princeton: Princeton University Press, 2012.
KING, Gary King; KEOHANE, Robert; VERBA, Sidney. Designing Social Inquiry: Scientific Inference in Qualitative Research. Princeton: Princeton University Press, 1994.
MAHONEY, James. Tentative Answers to Questions about Causal Mechanisms. Paper presented at the annual meetings of the American Political Science Association: Philadelphia, 2003.

Marcus Vinicius Rossi da Rocha
Ideologia e partidos políticos no Brasil: elementos teóricos e metodológicos para uma proposta de classificação

As ideologias dos partidos políticos têm sido mensuradas de diversas formas em diversos estudos ao longo do tempo. No entanto, temos percebido, a partir da leitura de trabalhos, mormente no âmbito da Ciência Política brasileira, que a própria noção de “ideologia” é subteorizada, como se ela portasse um sentido auto evidente. Em outras palavras, parece ser desnecessário nesses trabalhos caracterizá-la teoricamente a despeito de toda uma tradição de estudos nessa área. Assim, em geral, a ideologia é um termo taken for granted, pouco refletido, entendido simplesmente como um sistema de ideias, de crenças, de projeções ou de ideais, não conectado com as práticas políticas dos sujeitos.
Tendo como ponto de partida a discussão acerca das teorias do discurso e da ideologia, este artigo tem como objetivo central apresentar uma nova metodologia de classificação ideológica dos partidos políticos brasileiros. Trata-se de uma proposta metodológica qualitativa que buscará aferir o padrão médio da ação partidária a partir de dois níveis. O primeiro nível refere-se ao posicionamento retórico ideológico dos deputados federais, tendo por base seus pronunciamentos em distintas sessões na Câmara dos Deputados (Grande Expediente, Pequeno Expediente, Comissões etc). O segundo nível diz respeito à análise do conteúdo ideológico presente em políticas específicas, tais como projetos de lei, medidas provisórias, políticas públicas apresentadas pelos representantes.
Nossa hipótese central reside na afirmação de que não podemos falar, a rigor, em partidos essencialmente de esquerda, de centro ou de direita, mas temos antes de buscar compreender o comportamento ideológico dos partidos desde as suas práticas políticas stricto sensu. Pensamos, assim, que é preciso partirmos de unidades ideológicas menores em vez de considerarmos - de forma homogênea - as siglas partidárias como se essas fossem uniformemente coerentes. Nesse sentido, essas unidades ideológicas menores são medidas específicas tomadas por sujeitos políticos, tais como projetos de lei, medidas provisórias, políticas públicas, ações governamentais em geral. É a partir da categorização ideológica das ações políticas efetivas que entendemos ser mais exato classificar os partidos políticos em suas atuações no campo político discursivo.
Como nossa proposta metodológica parte de uma discussão teórica sobre discurso e ideologia, cumpre-nos, neste momento, precisarmos ambas as noções. Primeiramente, discurso não pode ser entendido como o simples resultado de enunciados, de textos ou de falas, numa dimensão meramente linguística. Evidentemente que a dimensão linguística é central para qualquer discurso, mas este último não se esgota simplesmente aí. Assim, discurso é uma categoria que une palavras e ações, que tem natureza material e não mental e/ou ideal (Laclau e Mouffe, 1985). Discurso é prática – daí a ideia de prática discursiva – uma vez que quaisquer ações levadas a efeito por sujeitos são ações significativas. O social, portanto, é sempre significativo, simbólico, sobredeterminado. Num sentido mais estrito, segundo Laclau e Mouffe (1985, p. 105), discurso deve ser entendido como resultado da articulação de sentidos: "no contexto desta discussão, chamaremos articulação toda prática que estabelece uma relação entre elementos de forma que suas identidades são modificadas como resultado da prática articulatória. A totalidade estruturada resultante da prática articulatória, chamaremos discurso". Toda articulação de sentidos (discurso) é contingente e precária, o que significa admitir que toda verdade de um discurso é provisória, ainda que o sujeito não a perceba como tal. Dessa forma, a ideologia exerce uma função muito específica, que é a de negar a precariedade discursiva, não reconhecer o “jogo infinito das diferenças”. A ideologia funciona como um cimento que “fecha” os sentidos da estrutura discursiva, que possibilita que os indivíduos acreditem que o que os interpela como sujeitos seja uma verdade. Dessa maneira, a ideologia resulta numa operação de fechamento de sentidos, produzindo uma verdade ao sujeito por ela interpelado.
Tais elementos teóricos servirão de base para um novo olhar sobre a discussão da relação entre ideologia e partidos políticos no Brasil. Como dito acima, em diversos trabalhos, a ideologia, nas classificações dos partidos, tem se apresentado como auto evidente. Em nosso artigo, insistimos, é a partir da teoria da ideologia e do discurso que propomos uma nova forma de classificação ideológica, mais refinada e teoricamente informada.
Nossa metodologia, como afirmamos, prevê dois momentos principais para alcançarmos com êxito a classificação ideológica dos partidos partidos políticos. O primeiro momento diz respeito ao reconhecimento de que a caracterização de esquerda e de direita tem de ser realizada desde os próprios deputados e não a partir de um a priori estabelecido fora do campo político. Nesse sentido, os pronunciamentos dos parlamentares são cruciais para realizarmos tal enquadramento. Assim, foram coletados 2.926 arquivos de pronunciamentos dos deputados federais entre 2003 e 2014. No entanto, o mero enquadramento não nos fornece diretamente o comportamento ideológico; este só pode ser encontrado a partir da prática política (daí a importância da noção de discurso como materialidade significada). É por essa razão que o segundo momento da nossa análise reside na confrontação dos sentidos ideológicos atribuídos pelos parlamentares com as suas ações específicas, tais como projetos de lei, medidas provisórias, propostas de emenda constitucional, políticas públicas, entre outras. A partir desse posicionamento, foram selecionados projetos de lei (PLs) e medidas provisórias (MPs), essas últimas oriundas do Poder Executivo, desse mesmo período para serem confrontados com os pronunciamentos dos parlamentares.
Com os dados coletados, partimos para a análise dos mesmos, o que nos permitiu chegar a resultados bastante interessantes até o momento. Primeiramente, a partir dos pronunciamentos, já é possível classificar as falas dos deputados em três grandes áreas, quais sejam, o Estado, a Economia e o Social. A apreciação dos documentos (PLs e MPs) também permite chegarmos a categorização nessas três grandes áreas. Para além disso, essas três grandes áreas podem ser classificadas, a partir das falas e ações dos deputados (cruzamento entre pronunciamentos e ações específicas) em um novo tipo de gradiente ideológico, a saber “esquerda conservadora”, “esquerda liberal”, “direita liberal”; “direita conservadora”. Tais achados só foram possíveis por meio de uma metodologia inovadora, que leva em conta fala e ação dos atores políticos, ou seja, esse novo gradiente ideológico emana dos próprios sujeitos do campo político.

Bianca de Freitas Linhares
Daniel de Mendonça
Mensurando Saliência: uma medida com base em ênfases na agenda legislativa do Brasil (1990-2014)

Quais são os temas mais enfatizados na agenda legislativa brasileira? Diferentes atores políticos enfatizam diferentes áreas temáticas (policy issues)? Esse trabalho explora as ênfases temáticas dos atores políticos com base numa classificação das iniciativas legislativas propostas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal entre 1990 e 2014. O objetivo é apresentar uma classificação que seja ao mesmo tempo desagregada e compreensiva para assim identificar as diferenças de ênfases e estabelecer a saliência de determinados temas para o presidente, os partidos, deputados e senadores. Para tanto, o trabalho implementa a metodologia proposta pelo “The Comparative Agendas Project” que tem por base 23 tópicos e mais de 200 subtópicos, incluindo temas desde saúde, educação, trabalho e direitos de minorias a meio ambiente, agricultura, habitação e comércio exterior. A metodologia usa análise de conteúdo implementada por software para classificar as iniciativas legislativas apresentadas na Câmara e no Senado. Uma vez realizada a classificação, a medida de saliência é construída através do número de iniciativas propostas por cada ator em determinado tema. Os atores considerados são: presidentes, deputados, senadores e partidos políticos. A proposta contribui para debate ao oferecer uma medida de saliência para os principais atores políticos ao longo do tempo, podendo ser usada em trabalhos desde relação executivo-legislativo a embate de interesses no Congresso Nacional.

Mariana Batista da Silva
A aplicação do Método da Análise Comparativa Qualitativa (QCA) em estudos sobre conflitos armados, distúrbios sociais e paz

O estudo comparado de fenômenos complexos como conflitos armados e distúrbios internos apresenta desafios importantes para desenhos de pesquisa. Tais fenômenos não são verificáveis em um número de casos suficientemente grande que recomende o recurso a métodos quantitativos tradicionais. Por outro lado, nem sempre é possível coletar um número de observações suficiente dos casos comparados para realizar pesquisa qualitativa segundo métodos consagrados.
O presente artigo visa apresentar o método da Análise Comparativa Quantitativa (Qualitative Comparative Analysis – QCA) como método apropriado para estudos comparados com número de casos (N) intermediário em casos complexos, em particular para estudos sobre conflitos armados e distúrbios internos.
Até a sistematização desse método em 1989, os estudos sobre conflitos armados e distúrbios internos se dividiam basicamente em estudos comparados envolvendo virtualmente todos os países do mundo e alguns estudos comparando um número pequeno de países envolvidos em conflitos. Entretanto, os estudos abrangentes eram vagos e abstratos, e estudos com poucos casos tendiam a tratar cada evento separadamente, inferindo apenas poucas conclusões gerais (RAGIN, 1987, p.xviii-ix). A partir da década de 1990, um grande número de trabalhos sobre conflitos armados e distúrbios internos passou a ser publicado recorrendo ao QCA (e.g. BARA, 2014; ADHIKARI, 2013; ANSORG, 2014; BASEDAU & RICHTER 2014; CHAN, 2003; IDE, 2015; MELLO, 2012; PAUL, CLARKE & GRILL, 2012; SCHOON, 2014; SUZUKI & LOIZIDES, 2011). Pode-se mesmo dizer que o QCA desponta como um método geral particularmente promissor para estudos sobre conflitos e segurança (MOCHŤAK, 2013).
O artigo apresenta uma descrição do QCA e uma discussão de sua aplicabilidade em pesquisas sobre conflitos armados e distúrbios internos, realizando uma meta-análise de estudos empíricos do tema que aplicam o método. Inicialmente são apresentados os principais aspectos do QCA, destacando algumas diferenças em relação a abordagens tradicionais. Em seguida, são descritas as etapas que devem constar de um desenho de pesquisa que aplique o método. Por fim, apresentam-se as conclusões, retomando debates mais amplos sobre metodologia em investigações sociais e sua aplicação para estudos sobre conflitos e paz. A estrutura do artigo se baseia em duas apresentações do principal autor que promove o QCA, Charles C. Ragin (RAGIN, 2008a; RAGIN, 2008b).
A proposta de RAGIN, ao sistematizar o QCA, é a de condensar métodos baseados em estudos de casos em um método geral de comparação qualitativa utilizando álgebra booleana, isto é, a álgebra da lógica e da teoria dos conjuntos (RAGIN, 1987, p.x).
O QCA pode ser entendido através de quatro diferentes dimensões. Trata-se de um método que (i) combina a análise qualitativa e quantitativa, (ii) apresenta ferramentas com poder de análise de causalidades complexas, (iii) é particularmente vantajoso para pesquisas com N pequeno ou intermediário e (iv) traz a teoria dos conjuntos para a investigação social (RAGIN, 2008a).
No desenho da pesquisa QCA quatro etapas se sucedem: (1) identificação de casos relevantes e condições causais; (2) elaboração de tabelas de verdades e condições causais; (3) análise de tabelas de verdades; (4) avaliação dos resultados.
As últimas décadas testemunharam grandes mudanças e embates no estudo da metodologia em ciências sociais, em particular entre tradições mais próximas à abordagem quantitativa e tradições mais próximas à abordagem quantitativa. O embate entre as duas visões, dos que dão prioridade a métodos originalmente quantitativistas (e.g. KING, KEOHANE, & VERBA, 1994) com os que enfatizam que o potencial do small N (como e GEORGE & BENNETT, 2005) obrigou cada lado do campo a desenvolver métodos promissores específicos. A evolução deste debate para o campo dos estudos sobre conflitos e paz é o tema de artigo de MOCHŤAK (2013) em periódico da Universidade da Paz das Nações Unidas. O autor narra como o impacto ‘formalizante’ de KKV nestes estudos foi denunciado de maneira forte por autores como WALT (1999); que, por sua vez, provocaram reações conciliatórias dos que defendem a atenção à lógica formal (DE MESQUITA & MORROW, 1999; MARTIN, 1999), ou nem tão conciliatórias assim (NIOU & ORDESHOOK, 1999).
Tais debates ressaltaram a importância de se buscar alternativas funcionais para responder ao menos a alguns dos desafios técnicos apresentados por ambas as tradições também no campo dos estudos sobre segurança, conflitos e paz. Para MOCHŤAK (2013), o QCA seria esta alternativa funcional, ao preservar uma forte consistência lógica formal através de suas ‘tabelas de verdades’, e, ao mesmo tempo, manter um quadro sustentado por conhecimento substantivo e grande familiaridade com os casos investigados. Muitos trabalhos analisados no presente artigo corroboram o argumento de MOCHŤAK ao ilustrar a solidez tanto lógico-formal quanto de conteúdo substantivo propiciada pela aplicação do QCA no campo de estudos sobre conflitos e distúrbios internos.
O artigo ilustrará as “receitas causais” de diferentes estudos sobre conflitos armados aplicando o método. Por exemplo, em estudo sobre a eclosão de conflitos armados em países exportadores líquidos de petróleo no período de 1970 a 2008, BASEDEAU & RICHTER (2011) identificam a pouca abundância de proventos per capita como condição necessária para a eclosão de conflito. Ainda para a eclosão de conflitos, os autores encontraram como resultado da solução parcimoniosa do QCA receitas causais de condições suficientes as combinações de (pouca abundância)*(regime autocrata)*(sobreposição entre assentamento de grupos étnicos em áreas de reserva de petróleo) ou (pouca abundância)*(dependência das exportações de petróleo)  eclosão de conflitos armados. Já para a ‘não ocorrência’ de conflitos, ou seja, para o resultado paz, as “receitas causais” não são sinalagmáticas, não apresentando nenhuma determinante necessária e a “receita” parcimoniosa (muita abundância) ou (baixa dependência das exportações de petróleo)*(inexistência de sobreposição entre assentamento de grupos étnicos em áreas de reserva de petróleo)  não conflito. Estudos como BARA, 2014; BRETTHAUSER, 2015; IDE, 2015 apresentam soluções no mesmo sentido para perguntas similares.
A comparação desses resultados com as conclusões apresentadas por outros estudos sobre o mesmo tema que recorram a outros métodos quantitativos e qualitativos pode alavancar a compreensão sobre os determinantes de conflitos armados e distúrbios internos, parte importante dos estudos sobre paz.

Diego Valadares Vasconcelos Neto
Maíra dos Santos Moreira

SAT66 | O uso de simulação no ensino de CP e RI

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 14:15

Coordenadores

Terrie R. Groth (UnB - Universidade de Brasília)

Debatedores

Dawisson Belém Lopes (UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais)

Apresentações

Simulações de Monte Carlo no ensino de Ciência Política

Ensinar como certos mecanismos causais ou modelos estatísticos funcionam nem sempre é algo simples, especialmente quando estes não podem ser facilmente exemplificados. Este é o caso de várias aulas de metodologia, onde o professor se vê na difícil tarefa de explicar de forma clara porque certas ferramentas são adequadas em algumas situações e não em outras. Também é o caso de discussões onde variáveis de difícil mensuração, como satisfação e preferências, são objeto de análise. O objetivo deste artigo é mostrar como simulações de Monte Carlo podem ser usadas para superar dificuldades como estas.

Após fazermos uma breve introdução ao método de Monte Carlo, mostramos como utilizá-lo a fim de ilustrar fenômenos de difícil mensuração ou conceitos abstratos; além disso, mostramos também como ele pode ser empregado para explicar intuitivamente a influência das violações de pressupostos sobre os resultados de alguns modelos estatísticos frequentemente empregados na Ciência Política. Discutimos sua aplicação no contexto de aulas da graduação e da pós-graduação na UFMG e oferecemos um passo-a-passo para reproduzir nossos exemplos utilizando o Software R, além de um simples aplicativo virtual (shiny app) com estes exemplos, de modo a ser adaptado para uso em sala de aula.

O artigo está estruturado em duas partes. Na primeira, explicamos brevemente como o método de Monte Carlo nos permite simular amostras de acordo com um processo gerador de dados (PGD) controlado. Na segunda parte, discutimos dois exemplos de aplicação do método como recurso didático. O primeiro é a simulação de um processo legislativo, onde as preferências dos legisladores são geradas aleatoriamente e as regras de quórum e de maioria necessária para aprovação são pré-fixadas. Por meio deste exemplo, os alunos aprendem visualmente como modificações nas regras do processo legislativo podem incorrer em problemas coordenativos e de paralisia decisória. De modo geral, discutimos também como é possível adaptar este exemplo para outros contextos.

Nosso segundo exemplo mostra como simulações podem auxiliar o ensino de metodologia em Ciência Política. Alguns alunos frequentemente sentem dificuldade ao estudar estatística, ou se sentem intimidados pela matemática envolvida na formalização do modelos. Uma forma de superação dessa dificuldade é oferecer uma intuição do como determinado modelo funciona. Com isso, simulamos diversas variáveis com diversos graus de correlação entre si, e criamos outras variáveis dependentes a partir destas. Em seguida, mostramos como a omissão de uma variável enviesa as estimativas de modelos lineares quanto maior for a correlação entre o termo omitido e o incluído - algo central nos debates metodológicos na Ciência Política e na Economia. Também ilustramos visualmente outros problemas, como heterocedasticidade, dependência entre grupos e dependência temporal (autocorrelação).

Nossa expectativa com esse artigo é auxiliar os docentes em Ciência Política a apresentação em sala de aula de conteúdos complexos e/ou abstratos de forma mais intuitiva. Argumentamos que o recurso didático do uso de simulações com o base no método de Monte Carlo apresenta duas vantagens: de um lado, o uso de simulações permite reduzir o tempo gasto pelo professor com a discussão conceitual; de outro, os alunos conseguem assimilar melhor o conhecimento requerido na área. Assim, pretendemos contribuir para a formação de pesquisadores em Ciência Política.
 

Fernando Meireles
Denisson da Silva Santos
Filipe Souza Corrêa
Uma reflexão sobre a prática das Simulações no ensino das Relações Internacionais: um estudo sobre a Simulação para o Ensino Médio

Modelos de simulações de organizações internacionais são utilizados há bastante tempo como uma ferramenta para a formação do internacionalista. No Brasil, a partir da década de 2000, as experiências com simulações ganharam destaque e estão se multiplicando devido ao aumento da oferta de cursos de Relações Internacionais no país. Os modelos de simulação não são apenas restritos aos cursos de graduação em Relações Internacionais, embora esse seja o publico–alvo dominante. Juntamente com a expansão dos cursos de Relações Internacionais e dos modelos de simulações para a graduação, experiências com simulações para os estudantes de ensino médio também surgiram e aumentaram no país.
Participar de modelos de simulações contribui para a formação dos estudantes de graduação em Relações Internacionais pois possibilita que esses possam contornar uma das maiores dificuldades encontradas no atual processo de ensino/aprendizado: conciliar a teoria aprendida em sala de aula com a prática. No que diz respeito aos modelos de simulação para o ensino médio, organizados majoritariamente pelos cursos de graduação em Relações Internacionais, os ganhos também são enormes. Os estudantes secundaristas precisam estudar para representar seus países frente à temas internacionais polêmicos, como intervenções militares, problemas sociais, econômicos e de meio ambiente. A partir daí, eles desenvolvem tanto a capacidade de argumentação para debater suas opiniões, como a flexibilidade para escutar e debater opiniões diferentes, contribuindo, assim, para ampliar sua formação através da relação do estudo em sala de aula e da aplicação prática do foi aprendido. Para os estudantes de graduação, a simulação também é uma excelente ferramenta de aprendizado, uma vez que eles são responsáveis pela organização e logística do evento, assim como pela elaboração do conteúdo do Guia de Estudos, que serve de orientação para o estudo dos participantes. A experiência de simulação para o ensino médio adotada na Universidade Federal de Santa Catarina (SiEM) desde 2011, no entanto, se diferencia dos atuais modelos adotados no país pelas seguintes características: a) o seu caráter totalmente gratuito tanto para os estudantes da rede pública e privada e b) o fato dos estudantes de graduação assumirem a responsabilidade da preparação dos estudantes de ensino médio.
E, ao expor o conteúdo para a preparação dos estudantes do Ensino Médio em sala de aula, os mesmos são expostos a uma experiência ímpar e que os estimula a confrontar o conteúdo desenvolvido no guia com os desafios que se impõem ao aprofundar o mesmo com os secundaristas.
O objetivo do artigo consiste em mostrar que a simulação de organizações internacionais para o Ensino Médio contribui para o aprendizado e para a formação dos estudantes de graduação para além do estudo formal necessário para a elaboração dos Guias de Estudo e se constitui em uma ferramenta de aprendizado ativo para os estudantes de Relações Internacionais.
Pressupõe-se que o conceito de cidadania, dificilmente adquirido em conteúdos programáticos, seja fundamental para a formação do internacionalista.
Assim, o artigo pretende relatar uma experiência que vem sendo desenvolvida desde 2011 como projeto de extensão, a simulação para os estudantes de ensino médio, tanto da rede pública como privada. Para tal, busca-se descrever as atividades de preparação dos eventos, detalhando as experiências vivenciadas nas escolas. Busca-se, também, apresentar resultados através de pesquisa empírica tanto com os estudantes de graduação como de ensino médio.
O projeto tem demonstrado que, para os alunos de graduação, a possibilidade de ir para a sala de aula e transmitir aos estudantes de ensino médio um conhecimento científico, adquirido de maneira formal, através da pesquisa e elaboração dos guias, oferece a eles a oportunidade de transformar esse conhecimento em “saber ensinar”, com a vantagem que no dia da simulação, os estudantes de graduação têm a oportunidade de ver na prática o retorno de seus trabalhos em sala de aula. É perceptível que o projeto beneficia os alunos de graduação muito além do estudo necessário para a elaboração do guia, mas, principalmente, por eles vivenciarem um verdadeiro processo de transformação no seu aprendizado. Além disso, a possibilidade de atuar em sala de aula, junto com estudantes de escolas privadas e públicas, por vezes, sensibiliza o estudante de graduação para realidades diferentes, de forma a desenvolver um olhar mais crítico em relação aos problemas que estão no entorno da universidade. Bem como, as demandas que vão se apresentando ao longo da execução do projeto e especialmente nos momentos da simulação, estimulam os alunos a confrontarem o saber adquirido nas disciplinas do curso e na elaboração do guia de estudos, com o processo negociador e suas vicissitudes, dificuldades de chegar a um consenso, falta de racionalidade na ação como tomadores de decisão, ou mesmo, a ação carente de racionalidade em que a busca se dá mais pelo jogo de soma zero do que necessariamente por um bom termo final da negociação.
Ao longo dos 5 anos de existência, o número de alunos tanto da graduação quanto do ensino médio que se envolveram com o projeto, só cresce; atingindo um patamar e um número de pessoas envolvidas, muito além do imaginado quando do início do mesmo.

Patricia Fonseca Ferreira Arienti
Graciela de Conti Pagliari
De volta para o futuro: estudo e aprendizado da PEB via modelagem e simulação histórica — notas e contribuições de uma simulação da Liga das Nações
Roberto Vinicius Pereira da Silva Gama

SAT82 | Publicação em Ciência Política e Relações Internacionais

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016 - 16:45

Coordenadores

Ana Paula Tostes (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Debatedores

Sérgio Praça (FGV - Fundação Getulio Vargas)

Apresentações

A publicação de teses do Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco e o papel do Itamaraty na produção e na disseminação do conhecimento sobre relações internacionais no Brasil

Embora o Itamaraty tenha, reconhecidamente, cumprido importante papel no desenvolvimento do campo de estudo das relações internacionais no Brasil, não há trabalhos que tenham se dedicado a analisar a produção de estudos e análises elaboradas pelo próprio corpo diplomático brasileiro. Neste trabalho, procuramos analisar a publicação de teses elaboradas por diplomatas no Curso de Altos Estudos (CAE) do Instituto Rio Branco (IRBr). Mantido como parte integrante do sistema de treinamento e qualificação na Carreira de Diplomata, o CAE tem por objetivo de atualizar e aprofundar os conhecimentos necessários ao desempenho das funções exercidas pelos Ministros de Primeira e Segunda Classes. O diplomata inscrito no Curso deve preparar e apresentar tese, a qual é submetida à Banca Examinadora, para arguição oral. Embora muitos desses trabalhos tenham caráter sigiloso e não possam ser divulgados na íntegra ou sem relevantes edições, parte considerável é publicada de forma sistemática pela Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG). Até dezembro de 2015, cerca de 120 títulos haviam sido editados e disponibilizados gratuitamente para download na página da FUNAG. Tendo abordado os vieses impostos pela seletividade das obras escolhidas para publicação, discutimos a representatividade das obras publicadas e, em seguida, buscamos identificar temas recorrentes, atípicos e mesmo originais que conformam esse corpus bibliográfico sobre a política externa brasileira. Concluímos com algumas observações sobre como esse qualificado conjunto de estudos pode informar o público acadêmico e disseminar o conhecimento das relações internacionais ao público em geral, do País e do mundo.

Luiz Antônio Correia de Medeiros Gusmão
Dinâmicas de internacionalização de carreiras dos docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política no Brasil

A internacionalização constitui-se em um dos principais desafios para a academia na atualidade. O objetivo deste trabalho é analisar as estratégias de internacionalização de carreiras acadêmicas dos docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política no Brasil. Aqui, a internacionalização será mensurada a partir do exame de duas dimensões: publicações e formação acadêmica dos cientistas políticos brasileiros no exterior. Os dados utilizados como referência de socialização acadêmica são as instituições de origem (universidades de graduação, mestrado, doutorado e de estágio no exterior), orientador (ou orientadores) e suas respectivas redes de colaboração, e vínculo institucional atual (PPG ao qual cada pesquisador está vinculado). Os dados analisados são unicamente quantitativos e provêm de banco de dados (programa SPSS) construído com dados de carreira acadêmica de todos os docentes que estavam vinculados aos PPGs de Ciência Política no ano de 2015, configurando um total de 233 docentes. Assim, para cada carreira/trajetória analisada, o banco contém informações que vão desde a graduação do docente (os mais antigos tendo-se graduado ainda na década de 1960 e os mais jovens, já nos anos 2000), passando por mestrado, doutorado, estágio doutoral ou pós-doutoral e artigos publicados em periódicos estrangeiros até o ano de 2014. Foram identificados 419 artigos publicados no exterior, distribuídos entre 121 docentes. No que tange à formação, 84 docentes realizaram doutorado (pleno ou estágio) no exterior e 94 realizaram pós-doutorado no exterior. Dados já demonstram também que no agregado os docentes brasileiros buscam formação acadêmica basicamente nos EUA e Europa, mas buscam espaço de publicação também na América Latina. Tal região possui frequência ínfima de docentes realizando doutorado (pleno ou sanduíche) ou pós-doutorado, mas representa um terço dos artigos publicados no exterior.

Rafael Machado Madeira
Mapeando a Pesquisa na Ciência Política Brasileira: Áreas Temáticas e Redes de Colaboração nos Programas de Pós-Graduação

A Ciência Política brasileira começou a se institucionalizar enquanto uma disciplina acadêmica nos anos 1960, quando surgiram os primeiros Programas de Pós-Graduação, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e no Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Atualmente, existem 14 Programas de Pós-Graduação no país, onde são formados os cientistas políticos profissionais e se desenvolve o maior volume de pesquisas acerca dos mais variados temas e aspectos da política. Nos últimos anos, a área vem crescendo de maneira destacada, assim como a produção de teses, dissertações, livros e artigos científicos em revistas acadêmicas nacionais e internacionais.
Não obstante, ainda é rara a autorreflexão e análise da evolução histórica e da institucionalização da disciplina. Do mesmo modo, suas diretrizes e rumos futuros têm sido avaliados apenas ocasional e parcialmente. Inclusive, praticamente não temos estudos a respeito do estado atual da pós-graduação, das pesquisas desenvolvidas e dos problemas privilegiados pelos cientistas políticos já formados e aqueles em formação. Obviamente, estudos com esse foco são fundamentais para a compreensão crítica acerca de questões científicas e profissionais prementes, como, por exemplo, a possível hegemonia de abordagens e métodos de pesquisa ou, ao contrário, a prevalência do pluralismo temático e metodológico; e, ainda, a formação ou não de redes de pesquisadores, de afinidades epistemológicas e assim por diante.
Diante disso, nosso objetivo é apresentar um mapeamento do estado atual da pesquisa acadêmica na Ciência Política brasileira, com a finalidade de avaliar o grau de pluralismo temático e cooperação nas pesquisas. Para tanto, o foco de investigação se concentra nos Programas de Pós-Graduação, principais temas e redes de colaboração em projetos pesquisa e coautoria em publicações. Analisamos os seguintes dados, coletados dos sites da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq), do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, da Plataforma Sucupira, da Plataforma Lattes e dos próprios Programas de Pós-Graduação:
• Perfil dos Programas de Pós-Graduação [área de avaliação, localidade, categoria, modalidade, ano de criação, conceito atribuído pela avaliação da Capes e observações adicionais]
• Linhas de Pesquisa [áreas e temas contemplados]
• Projetos e Grupos de Pesquisa [áreas e temas contemplados, financiamentos de pesquisa e redes de colaboração entre universidades]
• Produção de Pesquisadores da área [pesquisadores com bolsa de produtividade do CNPq, áreas e temas contemplados em suas pesquisas e publicações e redes de colaboração por meio de coautoria entre pares da mesma ou de outras universidades]
Dentre outros achados, mostraremos que cerca de 70% dos PPGs em Ciência Política oferecem formação nos dois níveis, mestrado e doutorado. Todavia, há uma demarcada concentração de Programas na Região Sudeste, onde encontram-se alguns dos mais antigos e aos quais são atribuídos os maiores conceitos da CAPES. Quanto às linhas de pesquisa dos Programas de Pós-Graduação, os dados mostram que há uma convergência em quatro grandes áreas temáticas: Teoria Política, Instituições Políticas, Comportamento Político e Política Internacional. Há, porém, diferenças no número e na variedade de linhas, por também abarcarem recortes de temáticas específicas dentro das grandes áreas. Existem mais de 400 projetos de pesquisa em desenvolvimento atualmente, sendo que pelo menos 50% deles conta com o financiamento de agências como CNPq, CAPES e fundações estaduais. Neste caso, também há concentração, especialmente na USP, UFMG e UERJ. A distribuição de recursos, assim como a predileção por determinadas áreas e temas de pesquisa se mostra relevante, assim como a afinidade entre universidades, que colaboram em projetos e publicações. Quanto aos pesquisadores com bolsa de produtividade em pesquisa, 52 estão na categoria 1 – 11 deles estão na categoria 1A, 16 na 1B, 4 na 1C e 21 na 1D.
Com base nestes e em outros dados, discutimos o estado atual da Ciência Política brasileira no que se refere ao pluralismo temático, à concentração da produção e ao grau e perfil da cooperação em pesquisas e publicações.

Melina Mörschbächer
Cristiana Maglia
Paulo Sérgio Peres
Ciência de impacto: uma análise da classificação das publicações em Ciência Política pela CAPES no sistema Qualis (2011-2014)

Atualmente, a Ciência Política brasileira vivencia o momento mais dinâmico e importante desde sua formação, pois tem experimentado intensas inovações teóricas e metodológicas, com grande participação em foros internacionais. Por outro lado, a literatura recente já demonstrou que a disciplina no País ainda padece de uma ausência de métodos e de rigor em sua produção científica (SOARES, 2005). Em trabalhos anteriores (BARBERIA et al., 2014; BARBERIA, GODOY & BARBOZA, 2015), examinamos como os programas de graduação e pós-graduação têm procurado reformar seus programas para corrigir as falhas históricas que têm sido apontadas na formação de alunos em métodos e técnicas de pesquisa científica, sobretudo os quantitativos, com a hipótese de que a diversificação da oferta de formação em metodologia é endógena à institucionalização e ao crescimento dos programas de pós-graduação: em sua origem, os programas possuem menos docentes e discentes, bem como suas grades curriculares são mais restritas, mas, com o tempo, os programas tendem a crescer em número de docentes e discentes e “ganham” novas disciplinas metodológicas (principalmente em virtude do crescimento do número de docentes).
No presente trabalho, nosso objetivo é analisar o outro aspecto da questão: como os periódicos brasileiros em Ciência Política têm sido avaliados, e quais são as consequências dessa avaliação para o quadro geral da disciplina no Brasil. Utilizando um banco de dados de avaliação da produção bibliográfica da CAPES – a agência governamental responsável não somente por avaliar a qualidade da produção bibliográfica e dos programas de pós-graduação no Brasil, mas também por oferecer alguns dos principais programas de financiamento à pesquisa científica no País – exploramos o universo de periódicos analisados pela ferramenta e procuramos avaliar em que medida os periódicos avaliados pela agência como “de mais elevada qualidade” coincidem com aqueles avaliados como de maior impacto por outras plataformas de bibliografia científica, com base nos seus fatores de impacto. Dessa forma, o exercício proposto tem a dupla tarefa de analisar os critérios que baseiam a avaliação de qualidade da produção nacional pela CAPES e de testar uma hipótese: mais uma vez, tentamos recuperar a relação endógena existente entre melhores avaliações e melhores recursos para a pós-graduação.
Os índices de mensuração de influência e impacto da produção científica estão presentes em praticamente todas as disciplinas acadêmicas, servindo não apenas como base para a avaliação da qualidade da produção em si, mas também para determinar quais periódicos podem ser considerados possuem maior ou menor qualidade. No Brasil, os índices de qualidade de publicações científicas também influenciam a classificação dos próprios programas de pós-graduação, uma vez que o número de publicações por docentes em periódicos de qualidade impacta diretamente a avaliação dos programas de pós-graduação e a destinação de recursos de financiamento pela CAPES, numa lógica de feedback positivo (programas de maior qualidade recebem mais financiamento), determinando uma relação endógena entre a publicação em periódicos de qualidade por docentes de programas bem avaliados, que por sua vez passam (ou continuam) a contar com melhores condições materiais. Por tudo isso, a definição dos critérios que determinam quais periódicos possuem maior impacto, ou maior qualidade, não podem ser vistos como apartados do contexto mais amplo que permeia o ensino e a pesquisa científica.
Com os dados disponibilizados pela CAPES para o período de 2011 a 2014, exploramos o universo de periódicos analisados pela ferramenta e as mudanças ocorridas durante o tempo. Selecionamos uma amostra de publicações avaliadas em cada estrato qualitativo, conforme determinado pela agência, durante o período analisado. Em seguida, para cada publicação amostrada, comparamos seu estrato qualitativo com os fatores de impacto conforme avaliados em plataformas bibliográficas internacionais, como o Google Scholar, e examinamos em que medida as publicações de elevada qualidade segundo a CAPES são, também, as publicações com maior impacto segundo outras plataformas. Um segundo passo analítico procura examinar as relações entre a publicação em veículos de qualidade e a origem das publicações, considerando que os programas de pós-graduação brasileiros também são avaliados (e financiados) conforme as publicações de seus docentes e discentes. Nossa hipótese, como proposto, é a de endogenia entre a qualidade das publicações e a qualidade dos programas de pós-graduação.
O artigo começa por apresentar uma revisão do que a literatura internacional conhece e apontou acerca dos índices de mensuração da qualidade da produção científica, bem como os argumentos da literatura nacional acerca da formação dos pesquisadores e do caráter de nossa produção científica, tendo em vista aquilo que Gláucio Soares chamou de nosso “calcanhar metodológico” (2005) e as perspectivas mais recentes sobre o fenômeno, apresentando uma síntese do que a literatura já demonstrou sobre a relação entre o ensino de métodos de pesquisa e qualidade da produção científica. Em seguida, apresentamos os dados analisados e mostramos sua evolução no tempo, discutindo-os em termos da comparação entre a avaliação de qualidade da CAPES e os fatores de impacto segundo outras plataformas, procurando mensurar a equivalência entre tais medidas. Por fim, testamos nossa hipótese de endogenia, com vistas ao impacto da avaliação dos periódicos e das publicações pela Capes sobre a qualidade dos cursos de pós-graduação em Ciência Política no Brasil. Discutimos, por fim, os tipos de avaliação de impacto e qualidade da produção científica existentes, e propostas de alteração do sistema de avaliação empregado no Brasil. Finalmente, as conclusões arrematam argumentos e propõem tarefas para uma agenda de pesquisa sobre a avaliação da qualidade da produção científica e sua relação com a formação metodológica dos pesquisadores brasileiros.

Lorena Guadalupe Barberia
Danilo Praxedes Barboza
Samuel Ralize de Godoy