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Pensamento político brasileiro

Resumo

A área de pensamento político brasileiro deve ser entendido como a história intelectual da ciência política brasileira no sentido largo, abrangendo sua produção científica, mas também ideológica, discursiva e doutrinária. Pertenceriam a essa área temática estudos relativos tanto ao pensamento produzido no curso da história brasileira por políticos, jornalistas e intelectuais, mas também aquela parte da teoria produzida pelas gerações mais antigas de cientistas políticos, julgadas de relevância para o desenvolvimento desta ciência (pensamento politológico brasileiro). Dada a sua vocação interdisciplinar, a área também dialoga com a teoria política, de que pode ser considerada a expressão nacional, e com as manifestações mais amplas do chamado pensamento social no Brasil.

Justificativa

Trata-se de tradicional área de estudos da ciência política brasileira, fundada quando da discussão entre Wanderley Guilherme dos Santos,  Hélgio Trindade e Bolívar Lamounier sobre o pensamento autoritário, na década de 1970. Todos estavam de acordo sobre a necessidade de se debruçar sobre o pensamento político brasileiro produzido antes da institucionalização da ciência política no Brasil, acreditando que este era um procedimento indispensável ao seu adequado desenvolvimento. Desde então, muitos politólogos têm dedicado algum momento de sua carreira ao estudo do pensamento político brasileiro, como Maria Teresa Sadek, Aspásia Camargo, Marco Aurélio Nogueira, José Murilo de Carvalho, Gildo Marçal Brandão e Lúcia Lippi. Na década passada, doutorou-se a primeira geração de politólogos dedicada especificamente ao estudo do pensamento político brasileiro, que se encontra hoje espalhada em universidades de todo o país. As linhas de pesquisa criadas ou reforçadas por vários destes professores, uma vez instalados em departamentos e programas de pós-graduação, têm feito crescer expressivamente o número de mestres e doutorandos dedicados a este campo, e consequentemente, o futuro público-alvo de uma eventual área temática. Este aumento da demanda pelo pensamento político brasileiro tem se refletido diretamente no número de submissões ao AT de Teoria Política, onde as propostas desta natureza têm sido recebidas (na ABCP de 2012, elas representaram um terço do total; na ANPOCS de 2012, quase a metade). Do ponto de vista pragmático, pois, trata-se de medida destinada a desafogar o AT de Teoria Política, onde a área se encontra cantonada, e de criar um foro de debates comprometido com a tradição de pesquisa da área de ciência política, haja vista que, no momento, os estudiosos contam somente com aquele de pensamento social no Brasil, existente no âmbito da sociologia (SBS).

SAT 08 | Liberalismo, socialismo e democracia

terça-feira, 5 de Agosto de 2014 - 14:15

Coordenadores

Vera A. Cepêda (UFSCar - Universidade Federal de São Carlos)

Debatedores

Ivo Coser (UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Apresentações

Contornos do publicismo no século XX: intervenção política como “interpretação constitucional”

Este artigo trata da intervenção política através do publicismo, enquanto relato técnico-científico sobre as instituições e a vida pública, partindo da premissa de que produzir uma versão “constitucional” da política foi (e ainda é) um eficiente instrumento de intervenção política. Estudar o publicismo no início do século XX, especificamente, durante a Primeira República (1889-1930), objetiva relacionar o percurso individual de um agente com as condições da difusão do ideário político em um contexto de redefinição institucional. A metodologia empregada foi a da Sócio-História, por se relacionar a trajetória individual com o contexto social. Os resultados alcançados na pesquisa indicaram entrelaçamento entre a própria legitimação enquanto publicista, e a promoção "científica" do regime, através de uma versão republicana do passado como “memória histórico-constitucional” da vida nacional, sendo que o agente selecionado no estudo integrava a elite política de bacharéis multiposicionados que participou na governança da Primeira República.

Luciana Rodrigues Penna
Povo, sujeito oculto: a democracia no programa político da esquerda brasileira (1930-1935)

Este artigo examina as concepções de democracia na esquerda brasileira entre 1930-1935, em particular aquelas expressas nos manifestos da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e nos textos escritos por Luis Carlos Prestes, Virgínio Santa Rosa e Caio Prado Jr. Argumento que a esquerda brasileira partia de um campo problemático comum, segundo o qual a concentração fundiária representava o maior obstáculo para expressão política do povo brasileiro. Contudo, a despeito da convergência em torno da reforma agrária, pensada como condição sine qua non para a democracia no Brasil, a esquerda desenvolveu duas respostas distintas para a realização prática do princípio do governo do povo: a primeira, que denomino vanguarda altruísta, presente com maior ênfase nos textos de Virgínio Santa Rosa e Luís Carlos Prestes, e a segunda, o participacionismo republicano, explorada nos escritos de Luís Carlos Prestes e, de modo mais ambíguo, nos Manifestos da Aliança Nacional Libertadora.

Wendel Antunes Cintra
O liberalismo de Carlos Lacerda

O presente trabalho busca investigar o papel do liberalismo no discurso e na prática política de Carlos Lacerda. O objetivo é compreender os motivos da adesão do político carioca ao ideário liberal, - e à UDN - identificar os usos do liberalismo em seu discurso e caracterizar como essa aproximação, que surge após sua renúncia ao marxismo, é relevante para os caminhos de sua carreira política. O lugar central que a ação desempenha na vida pública de Lacerda não implica em papel secundário das ideias, como se essas fossem simples adornos ou fugazes recursos retóricos. Também não é o caso, por outro lado, de retratar suas ideias como falsificações, de modo que seu liberalismo, por exemplo, se distinguiria de outro, verdadeiro e perfeitamente coerente. O liberalismo que se expunha nos discursos e artigos de Lacerda pode ser perfeitamente remetido a diversos cânones da tradição liberal, mesmo que, como é natural, também registre inegáveis idiossincrasias, e sem dúvida desempenha um papel relevante em sua atuação política. Constatação que diz algo sobre Lacerda, mas também sobre o próprio ideário liberal.

Jorge Gomes de Souza Chaloub
Parasitologia, Marxismo e Desenvolvimento em Samuel Barnsley Pessoa

O objetivo do trabalho é discutir as afinidades políticas e ideológicas entre parasitologia médica e o marxismo no período coberto pelo fim da Segunda Guerra Mundial e do golpe militar de abril de 1964. Para esta apresentação focada nos trabalhos de Samuel Barnsley Pessoa (1898-1976), Catedrático de Parasitologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo que, paradoxalmente, foi um expoente da saúde pública brasileira e, ao mesmo tempo, perseguido pela polícia por ser um membro ativo do Partido Comunista Brasileiro. Prolífico publicista e cientista, Pessoa escreveu em jornais e revistas científicas e também nos periódicos associados ao PCB. O argumento central é que, nos textos de Pessoa, a parasitologia médica brasileira nas décadas de 1940 e 50, diferentemente dos anos 10s e 20s, estabeleceu uma forte relação entre endemias rurais e doenças parasitária e estrutura agrária e fez da reforma agrária e do socialismo como a única alternativa para superar os problemas de saúde das populações do Brasil rural. O impacto da Guerra Fria e da ideologia do desenvolvimento nos conceitos e práticas da saúde pública brasileira também serão discutidos.

Gilberto Hochman
Texto e contexto: Raymundo Faoro em três tempos

Raymundo Faoro publicou sua primeira obra de fôlego, Os Donos do Poder, em 1958. A segunda edição, muito ampliada, surgiu em 1975, em plena ditadura militar, alcançando um impacto muito maior do que a primeira. A partir de 1977, Faoro teve um papel importante na presidência do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Durante todo o processo de abertura política, participou ativamente do debate público, notadamente com a campanha pela convocação da Assembleia Constituinte. Já no contexto democrático, continuou fazendo intervenções importantes sobre a política brasilera em debates e através de artigos publicados na imprensa. Esta apresentação procura mostrar em que medida as teses principais de Raymundo Faoro sobre a relação entre Estado e sociedade no Brasil se mantêm ou se transformam de acordo com o tipo de obra e o contexto da escrita.

Gabriela Nunes Ferreira
A idéia de liberalismo social no pensamento político de José Guilherme Merquior

O propósito deste artigo é descrever e analisar o que o sociólogo e diplomata José Guilherme Merquior (1941-1991) entende por liberalismo social. Merquior defende tal ideologia política em seus escritos da década de 1980, buscando uma alternativa ao socialismo de estado e ao neoliberalismo, na medida em que considerava que estas duas ideologias não seriam capazes de enfrentar os desafios colocados pelo progresso das sociedades modernas: a socialista, pela ineficiência econômica; a neoliberal, por se preocupar pouco com as desigualdades sociais; e ambas, pelo déficit democrático. Sendo assim, o primeiro objetivo do artigo é mapear, a partir de ensaios e artigos de Merquior de 1980 até 1990 (ano em que concluiu sua obra "O Liberalismo: Antigo e Moderno"), em quais termos este autor concebe a doutrina do liberalismo social. O segundo objetivo é interpretar como Merquior, a partir de sua leitura da história do liberalismo, resgatou o ideal social-liberal, atualizando-o para oferecer soluções para os problemas enfrentados pelo Brasil no processo de redemocratização e crise econômica nos anos 1980.

Kaio Felipe

SAT 22 | Autoritarismos e depois

terça-feira, 5 de Agosto de 2014 - 16:30

Coordenadores

Christian Edward Cyril Lynch (UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Debatedores

Milton Lahuerta (UNESP - Universidade Estadual Paulista)

Apresentações

Putsch 1965, Servicios de inteligencia e ideas hegemonicas en Suramerica

Desde los años sesenta del siglo XX, las fuerzas armadas brasileñas desarrollaron un sofisticado sistema de inteligencia, el cual estuvo históricamente a cargo de la seguridad interna. Hasta mediados de los años ochenta, la prioridad de este aparato fue el monitoreo de elementos políticos considerados peligrosos para el país. Sin embargo, a esto no se limitó. Se trataba de, por medio de la colaboración con otros servicios secretos suramericanos, fortalecer el liderazgo de Brasil como garante de las ideas cristianas y anticomunistas que “amenazarían” el subcontinente. Pero aquí cabe anotar que lejos de lo que suelen afirmar de los autores dedicados a esta temática, los líderes brasileños y los servicios de inteligencia del coloso del sur, en el periodo autoritario que marcó Brasil (1964-1985), no fueron tan sumiso a los intereses norteamericanos como se suele defender. Esta ponencia tiene la meta de demostrar que este sistema de inteligencia favorecía propósitos expansionistas para efectos de transformar la nación en un hegemón regional, los cuales estaban lejos de limitarse a “importar” conceptos de seguridad de EE UU.

Gisela da Silva Guevara
Os paradoxos de Helio Jaguaribe na análise do golpe militar (1964-1984)

O artigo trabalha numa perspectiva crítica ao pensamento do cientista político carioca Hélio Jaguaribe, demonstrando uma sintonia conservadora em seu ideário, especialmente nos textos onde tratou do golpe militar de 1964-84. O autor já havia deixado o projeto isebiano (ficou no ISEB de 1955-59), mas jamais abandonou seu projeto teórico-político de defender a burguesia industrial brasileira como protagonista na direção de um Estado de tipo neobismarckiano, conceito defendido desde os anos 1950. Por isso, em texto de 1968, teve postura de condenação ao golpe, adjetivando-o como um regime “colonial-fascista”. O que lhe desagradava era muito mais o fato de a burguesia não estar à frente do aparelho de Estado, do que o caráter autoritário do regime. Porém, após os resultados do chamado milagre econômico (1968-73), o autor – em texto de 1974 – voltou a analisar o processo e, satisfeito com os resultados materiais que o regime havia conquistado, amenizou de certa forma sua condenação anterior, a ponto de não entender o regime como ditadura, na medida em que ocorria uma alternância no governo entre os militares. No entanto, não deixou de propor que os militares desocupassem o aparelho de Estado, o que só viria a acontecer em 1984.

Angélica Lovatto
Maurício Tragtenberg como intérprete da história política brasileira (1964-1990)

O artigo trata de M. Tragtenberg (1929-1998), especialmente como intérprete da história política brasileira no período 1964-90. A faceta de MT como historiador e cronista da vida política brasileira ainda está por merecer sua devida importância. Ela foi eclipsada pelo crítico das burocracias, pelo pedagogo libertário e historiador do socialismo (objeto de ensaios e teses). A lacuna pode ser explicada por suas reflexões concentrarem-se na atividade extra-acadêmica (jornalista, ensaísta).
Poucos foram os episódios da história política republicana do país não abordados por MT. O trabalho de ensaísta e cronista político se inicia no final da década de 1970 e vai até metade da década de 1990, período que compreende o fim do regime militar, “abertura política” e Nova República.
Os traços fundamentais da interpretação de MT, em especial o período final da ditadura (1964-84), é nosso objetivo.

Paulo Douglas Barsotti
Encontros com a democracia: intelectuais e a transição no período 1978-1982

O presente artigo se dedica à análise de como a democracia foi conceituada por intelectuais brasileiros durante o processo de transição iniciado em 1974. Para tanto, concentra-se nas contribuições de diversos pensadores à Revista Encontros com a Civilização Brasileira, editada por Ênio da Silveira entre 1978 e 1982. O projeto editorial, que buscava retomar a Revista Civilização Brasileira, fechada pelo regime em 1968, se pretendia ecumênico na composição de seus autores. Dessa forma, a revista se pensava como ator importante na formação de uma frente anti-autoritária, capaz de pensar a democracia - sob perspectivas variadas - como alternativa ao regime vigente.

Pedro Rolo Benetti
Unidade, pluralidade e os processos constituintes no Brasil de 1937 e 1988

O objetivo desse trabalho é analisar as possibilidades de constituição da soberania política a partir de duas categorias distintas: a unidade e a pluralidade. Pretendemos desenvolver a ideia de que a construção de uma comunidade efetivamente democrática passa invariavelmente pela compreensão dos sentidos da soberania que delimitam e conformam o demos. Para realizar tal análise conceitual partiremos dos contextos e processos constituintes do Brasil em 1937 e 1988. A escolha do momento constituinte como objeto dessa análise teórica deve-se ao fato de que tais contextos explicitam a tensão entre unidade e pluralidade no momento da própria delimitação da comunidade política. Os processos constituintes dizem respeito ao exercício de delimitação e dos limites da própria coletividade. Momentos constitucionais não podem ser pensados nos mesmos termos da atividade política corriqueira. Para além dos princípios capazes de conferir unidade e sentido para a vida coletiva, os momentos constitucionais também abarcam a própria possibilidade de estabelecimento do democrático. Isso significa que aspectos como a igualdade e a inclusão podem ou não fazer parte desse exercício de constituição dos fundamentos políticos da vida coletiva.

Mariah Lança de Queiroz Casséte Quintal

SAT 53 | Em torno do Idealismo Orgânico

quarta-feira, 6 de Agosto de 2014 - 16:30

Coordenadores

Gabriela Nunes Ferreira (UNIESP - Sociedade Unificada de Ensino Superior SUESC)

Debatedores

Christian Edward Cyril Lynch (UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Apresentações

A tensão autoritarismo-liberalismo em Oliveira Vianna. Elementos para uma nova leitura do conceito de "autoritarismo instrumental"

O conceito de “autoritarismo instrumental” formulado por W. Guilherme dos Santos polariza-se em torno da ideia de Oliveira Vianna que o autoritarismo é apenas um instrumento transitório, devendo ser abandonado após o alcanço dos fins planejados (a sociedade liberal). É uma explicação parcialmente satisfatória. Este trabalho pretende formular uma nova leitura da categoria de “autoritarismo instrumental” devendo ser repensada tendo em vista demais fatores: o autoritarismo se caracteriza como “instrumental” também porque busca a sua legitimidade no afastamento do estado totalitário europeu para se apresentar como o mais “adequado” para sustentar a nova ordem industrial do Pais, e ao mesmo tempo, dado o seu caractere transitório, ele apresentaria sempre uma possibilidade em cada fase da ditadura varguista de abrir para uma sociedade liberal.

Fabio Gentile
Oliveira Vianna, Azevedo Amaral e Virginio Santa Rosa: Expoentes de um Pensamento Autoritário no Brasil?

Este trabalho tem por finalidade problematizar a definição de autoritarismo de Bolivar Lamounier, Wanderley G. dos Santos e Evaldo Vieira. Para isso, iremos cotejar os elementos que compõe o conceito de autoritarismo difundido pelos autores supracitados, ao pensamento de intelectuais que, segundo eles, compartilham ideias, posições e perspectivas autoritárias. Assim, buscaremos as principais obras de Oliveira Vianna, Azevedo Amaral e Virginio Santa Rosa com a intenção de evidenciar como a categoria de autoritarismo dada por Lamounier, Santos e Vieira não possibilita, de modo eficaz, enquadrar os pensamentos destes autores em uma chave interpretativa exclusivamente autoritária. De modo geral, entendemos que tanto o contexto histórico no qual estavam inseridos Vianna, Amaral e Santa Rosa, quanto o período no qual estavam localizados Lamounier, Santos e Vieira são relevantes para entendermos os motivos pelos quais alguns intelectuais do início e meados do século XIX foram considerados como expoentes de um pensamento autoritário no Brasil. Esse estudo é importante para desestereotipar alguns pensadores que por muitos anos foram considerados detentores de ideias e posições capazes de travar uma série de avanços democráticos no Brasil.

Felipe Fontana
Carla Cristina Wrbieta Ferezin
Azevedo Amaral e a revista Novas Diretrizes: um projeto de modernização autoritária do Brasil

O objetivo do texto aqui apresentado é empreender a análise da revista Novas Diretrizes, fundada em 1938, entendida como um espaço de divulgação e debate construído por Azevedo Amaral: sua presença foi determinante em todo o período em que a revista existiu, pautando os assuntos e temas trabalhados, bem como escolhendo os articulistas colaboradores e, ao mesmo tempo, escrevendo textos para todos os números editados. A revista chegou ao fim justamente no ano em que seu editor faleceu, 1942.

Maria Fernanda Lombardi Fernandes
Epistemologia Conservadora e Política Radical? História das Ideias e Política em Guerreiro Ramos

O objetivo deste trabalho é analisar e entender a relação entre a história do pensamento político-social brasileiro e o projeto político presentes na obra do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos. Em um conjunto de trabalhos, publicados entre meados dos anos 1950 e o início dos 1960, o sociólogo baiano desenvolve uma leitura da tradição intelectual nacional, valorizando em particular pensadores conservadores ou autoritários. Porém, tais reflexões são feitas em conexão com um projeto político radical, que combinava objetivos nacionalistas e populares. Como entender essa aparente contradição representada pela mobilização de referências conservadoras para uma política progressista?
Procurarei responder a essa indagação partindo de duas hipóteses que julgo complementares: a relativa ausência de uma tradição de pensamento político radical no Brasil e a existência de afinidades eletivas entre o pensamento autoritário e o nacional-popular, notadamente a preocupação com o entendimento da realidade nacional e a crítica às abstrações do liberalismo.

André Kaysel Velasco e Cruz
Imitação e realidade: uma análise do pensamento político de Oliveira Vianna, Guerreiro Ramos e Wanderley Guilherme dos Santos

O presente trabalho analisa brevemente a temática da imitação no pensamento político e na história do país. Para isso, ele se volta para as obras de três importantes intelectuais de nosso período republicano - Oliveira Vianna, Guerreiro Ramos e Wanderley Guilherme dos Santos - que utilizaram da ideia de imitação como recurso interpretativo do Brasil e de polêmica nos debates que travaram. Segundo eles, muitos dos políticos e intelectuais do país tendem a valorizar excessivamente as ideias e/ou o arcabouço institucional de outros países, propondo a sua transplantação para cá, a fim de superar o nosso “atraso”. Haveria uma tradição “idealista” de compreensão do Brasil e outra mais “realista”, na medida em que estaria mais atenta para as complexas relações entre instituições, ideias políticas e a vida social. Sem pretender esgotar a análise dessa temática, ou da obra desses autores, o trabalho sugere que a utilização de uma mesma tópica argumentativa não implica, necessariamente, em uma identidade teórica e normativa entre eles. O que parece subsistir é um desejo comum de identificar-se com uma tradição “realista”, ainda que para cada um deles a crítica à imitação se refira a debates e projetos políticos distintos.

Marcelo Sevaybricker Moreira
Liberais e autoritários orgânicos: a representação política no pensamento de José de Alencar, Assis Brasil, Gilberto Amado, Alberto Torres e Oliveira Vianna

O objetivo deste trabalho é observar o tema da representação política nas obras de José de Alencar, Alberto Torres, Assis Brasil, Gilberto Amado e Oliveira Vianna e propor uma perspectiva alternativa a traços interpretativos predominantes em trabalhos clássicos de Guerreiro Ramos, Wanderly Guilherme dos Santos e Gildo Marçal Brandão. Propomos uma nova descrição de famílias intelectuais , sugerimos supressão do adjetivo utópico – visto que os autores em tela dificilmente perdem de vista a consideração das circunstâncias – e identificamos afinidade substantiva em torno de expectativas associadas à ação criadora do Estado. A distinção fundamental entre os grupos de liberais e autoritários orgânicos estaria nas diferentes visões sobre as instituições políticas e sua relação com os homens comuns, com impacto na definição de importância relativa dos poderes legislativo e executivo.

Ivo Coser
Cristina Buarque de Hollanda

SAT 68 | Fronteiras do Pensamento Político Brasileiro

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014 - 14:15

Coordenadores

Cristina Buarque de Hollanda (IESP-UERJ - Instituto de Estudos Sociais e Políticos)

Debatedores

Christian Edward Cyril Lynch (UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Apresentações

A Esfinge Desvelada: O Pensamento Político do Barão do Rio Branco

Figura inconteste no panteão dos heróis nacionais, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, imortalizou-se pelos anais da história brasileira como o grande consolidador das fronteiras do país. Monarquista convicto, ao longo dos dez anos que esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores transformar-se-ia na figura mais popular do regime republicano.

Enquanto chanceler, abundam na historiografia as mais variadas análises sobre o seu pensamento diplomático. Permanece, em segundo plano, no entanto, maiores tentativas de se analisar o pensamento político de Rio Branco, aquele dedicado a compreender as ideias sobre a formação do país, o seu destino histórico e as políticas mais apropriadas à sua consecução.

Sugerimos, aqui, como proposta de trabalho, a reconstrução de suas ideias políticas a serem apreendidas da sua ampla produção epistolar e jornalística – esta última frequentemente realizada através de pseudônimos ou em nome de terceiros –, assim como dos discursos parlamentares e da confecção de obras menos conhecidas, tais como o Esboço de História do Brasil, Efemérides Brasileiras, D. Pedro II, Grande Enciclopédia de Levasseur e as Notas à obra de Louis Schneider sobre a Guerra do Paraguai.

Elizeu Santiago Tavares de Sousa
O pensamento político e a política externa brasileiros

O artigo apresenta algumas intercessões entre o pensamento político brasileiro e a política externa brasileira.

Bruno Gonçalves Rosi
Estado, democracia e intelectuais na obra de Roberto C. Simonsen

Resumo: Esta comunicação pretende analisar como importantes temas do debate político brasileiro – Estado, democracia, intelectuais e policy makers – apareceram tratados na obra de um dos precursores do pensamento nacional desenvolvimentista: Roberto C. Simonsen, no período áureo de sua produção (1933-1948). O autor, a fase da obra e o período histórico analisado são significativos na configuração de um padrão e arquitetura política muito específica para a trajetória brasileira, com forte protagonismo do aparato estatal, fraca defesa da democracia e dos valores liberais, ao mesmo tempo em que se acentuava a ideologia nacionalista e a transformação do tema do desenvolvimento em mote central da questão nacional. A obra de Simonsen é uma contribuição original e de forte influência nessa configuração teórico-ideológico, com expressivas consequências no desenho do modelo nacional desenvolvimentista. Com base nesse cenário, o objetivo deste trabalho é destacar, da obra do autor, alguns elementos que nascendo no campo da teoria do atraso econômico acabaram por impactar fortemente no arranjo e projeto político dos anos 50 e 60.

Vera A. Cepêda
A práxis de Lebret: economia humana, desenvolvimentismo católico e o problema regional do Nordeste

A partir do estudo da trajetória do padre francês Louis-Joseph Lebret, procura-se refletir sobre as estratégias desenvolvimentistas construídas nas décadas de 1950 e 60 no Brasil, destacando especialmente o “desenvolvimentismo católico”. Busca-se contextualizar a formação do pensamento do clérigo, observando aspectos de sua produção intelectual, de suas ações e diálogo com pesquisadores, clérigos e políticos de sua época. São analisadas também as formas de recepção de suas ideias, que influenciaram diretamente importantes grupos intelectuais, técnicos e religiosos no Brasil. O artigo apresenta aspectos da biografia do dominicano, sua militância juvenil católica, sua formação intelectual, universitária, técnica, filosófica e eclesiástica, assim com as redes de relacionamento nas quais o padre se inseriu. Após recobrar a práxis de Lebret no Brasil, será dada atenção ao relatório elaborado visando planejar ações para a industrialização de Pernambuco, marco fundador do projeto do Complexo Industrial e Portuário de Suape, principal legenda do novo desenvolvimentismo no Nordeste. O desenvolvimentismo católico de Lebret ganha relevância especialmente em face da retomada recente do debate sobre a questão do desenvolvimento no Nordeste.

José Henrique Artigas de Godoy
As dimensões interna e externa da Política no pensamento de San Tiago Dantas e Mangabeira Unger

Pretende-se investigar o pensamento político de San Tiago Dantas e Mangabeira Unger no que tange especificamente às formulações teóricas dos autores a respeito da política externa brasileira.
Cumpre ressaltar que uma premissa sustentada no presente trabalho diz respeito ao aspecto preciso, o que se configura enquanto uma aproximação entre os respectivos autores, é que para ambos, muito necessariamente, a política externa deve estabelecer uma plena sintonia com a política interna.
Assim sendo, outro ponto a ser refletido, que traz consigo uma íntima imbricação com a elaboração teórica da política externa, sem dúvida, versa sobre o projeto político de reforma social.

Carlos Henrique Aguiar Serra
Carlos Sávio Teixeira
Bresser-Pereira: pensamento como agir político

O objetivo deste trabalho é analisar o pensamento de L. C. Bresser-Pereira, tomado como uma modalidade de ação política. Partindo principalmente da abordagem do contextualismo lingüístico, para o qual "falar" é também agir, selecionou-se dois dos temas mais importantes e debatidos do pensamento social e político brasileiro – desenvolvimento e nação – para discutir como eles aparecem na produção intelectual de Bresser-Pereira. Defende-se aqui que esta proposta metodológica permite melhor compreender as (muitas) variações, mudanças e rupturas, assim como as continuidades na obra de Bresser-Pereira.

Daniel Estevão Ramos de Miranda

SAT 82 | Império, República e escravidão

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014 - 16:30

Coordenadores

José Henrique Artigas de Godoy (UFPB - Universidade Federal da Paraíba)

Debatedores

Maria Fernanda Lombardi Fernandes (UNIESP - Sociedade Unificada de Ensino Superior SUESC)

Apresentações

Escravismo e anti-republicanismo em Azeredo Coutinho e José da Silva Lisboa

Procuramos demonstrar a existência, em fins do século XVIII e início do XIX, da formação de uma linguagem do escravismo e do anti-republicanismo no Brasil. Mais do que simples defesas da escravidão e da monarquia, a consideração dos trabalhos do bispo de Olinda (José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, 1742-1821) e do Visconde de Cairu (José da Silva Lisboa, 1756-1835) nos apresenta à recorrência, ainda que inicialmente limitada a dois autores, da articulação de ideias e valores que procuram interditar a recepção do republicanismo e do anti-escravismo (tanto ideias anti-tráfico quanto abolicionistas) no Brasil. Tal linguagem teria sobrevivido ao jusnaturalismo de Azeredo Coutinho – tão marcadamente defendido na Analyse sur la justice du commerce du rachat des esclaves de la côte d'Afrique – e sido acolhida no liberalismo de Silva Lisboa – desse autor trabalharemos em especial, mas não exclusivamente, o opúsculo Da liberdade do trabalho. Enquanto repertório articulado de ideias, escravismo e anti-republicanismo compuseram formas de se pensar a relação entre o súdito e o Império, constituindo um legado a ser enfrentado pelas gerações da segunda metade do XIX.

Andre Drumond Mello Silva
A república como ideal normativo: liberdade e autoridade na tradição republicana brasileira

O exercício de recuperação dos autores do passado com o objetivo de encontrar respostas para os dilemas da democracia presente, superando, por meio do recurso à tradição, a limitação imposta pela agenda liberal, abre caminho para a proposta defendida no presente trabalho, a saber, a possibilidade de encontrarmos uma tradição republicana própria entre nós. A hipótese aqui defendida aponta, assim, a existência de uma tradição republicana que logrou ser apropriada de diferentes maneiras e por diversos autores a partir dos embates políticos concretos que se processaram no país. Trata-se, sobretudo, de recuperarmos, por meio do recurso à tradição, a república como ideal normativo para os dilemas da democracia brasileira.

Diogo Tourino de Sousa
Para além da polêmica Alencar-Nabuco: Liberalismos, Nação e Escravidão no pensamento político brasileiro

A proposta geral deste artigo é contribuir com a história do liberalismo brasileiro através da análise das idéias de José de Alencar (1829-1877) e Joaquim Nabuco (1849-1910). O objetivo específico consiste em verificar - se ancorando na relação entre escravidão e a construção da nação – os possíveis nexos entre estes autores que, mesmo sendo liberais, apresentam significativas diferenças entre eles. O ponto de partida para tal tarefa será a polêmica literária travada entre José de Alencar e Joaquim Nabuco nas páginas do O Globo em 1875, na qual a o tema da nação parece ser central.

Lucas Baptista de Oliveira
Giovanna de Godoi Liguori Imbernon
Ultramontanismo, o antiliberalismo no Brasil. A orientação do pensamento político católico segundo Cândido Mendes de Almeida (1811-1881)

O pensamento político brasileiro costuma lidar com duas linhagens fundamentais: liberais e conservadores. A dualidade marca o confronto sobre o curso dos projetos modernizadores no Brasil. Levando em conta a história imperial, é comum a esses dois partidos um sentido para a história, de adesão às tendências do mundo moderno, ou, de conciliação. Mesmo o conservadorismo, como é geralmente observado, não era sinônimo de reacionarismo, flertava com Edmund Burke e François Guizot, o primeiro membro do partido Whig, o segundo orleanista, da monarquia liberal. O antípoda do Partido Liberal no Brasil, não era propriamente o saquaremismo, mas sim um conjunto de políticos dispersos, envolvidos nos dois partidos - sobretudo no Conservador, que se alinhavam a uma defesa da religião católica como fundamental para toda a dimensão política. O que se pode chamar de ultramontanismo vêm à tona com maior destaque na Questão Religiosa (1872-1875) e significa a expressão de uma política contraposta ao ideário liberal - seja progressista, radical, ou liberal conservador (como o pertencente ao saquaremismo burocrático). Nesse sentido, torna-se mais condizente dizer que o oposto do liberal Tavares Bastos é o tradicionalista Cândido Mendes.

Luiz Carlos Ramiro Junior
Política e instituições na "teoria do Brasil" dos positivistas ortodoxos brasileiros

Em pesquisa anterior (LACERDA, 2013) propusemos categorias analíticas para estudo das intervenções dos positivistas ortodoxos, entre as quais "teoria do Brasil". Essa categoria correspondia à sua interpretação da história sócio-política nacional; todavia, outras categorias ("história do Positivismo no Brasil" e "separação Igreja-Estado", por exemplo) também apresentavam elementos importantes, mas de maneira secundária, da "teoria do Brasil".
Esta comunicação pretende expor os principais argumentos da "teoria do Brasil" defendida pelos positivistas ortodoxos, especialmente dos seus elementos político-institucionais: regimes políticos (monarquia-república), unidade nacional, liberdades públicas e separação entre Igreja e Estado. Para isso, analisaremos algumas publicações da Igreja Positivista, nomeadamente a comemoração de Luís de Camões (Miguel Lemos, 1880), "A pátria brasileira" (M. Lemos e Teixeira Mendes, 1881), a biografia de Benjamin Constant (Teixeira Mendes, 1892) e a comemoração do 7 de setembro (M. Lemos, 1899).
Metodologicamente, inspiramo-nos no “contextualismo lingüístico” de Quentin Skinner e na “história conceitual do político”, de Pierre Rosanvallon.

Gustavo Biscaia de Lacerda
A saga de Chronos: sociedade, tempo e modernidade luso-brasileiros no pensamento de Gilberto Freyre

Neste ensaio pretendo apresentar uma interpretação da trilogia de Gilberto Freyre intitulada Introdução à sociedade patriarcal no Brasil, composta pelas obras Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, publicadas respectivamente em 1933,1936 e 1959 a partir de uma leitura que contempla argumentos apresentados nos três livros. Meu argumento é que a trilogia se compõe, de um modo geral, como a narrativa de gênese e desagregação de uma forma de sociedade específica: a sociedade patriarcal brasileira. No primeiro livro há o enredo que traz a formação do patriarcado, do papel substancial da família para a organização social e política e da relevância da figura paterna na família e na sociedade colonial. Minha reflexão procurará compreender mais do que o pater familias em si pois tentarei delinear os possíveis significados da figura paterna também na ordem política desenhada por Gilberto Freyre. Dentro dessa proposta maior apresentarei os vínculos estabelecidos por Freyre entre a história e formação de Brasil e Portugal, e do retrato da nação lusa por ele proposto. Neste aspecto buscarei abordar os traços da imagem freyriana de Portugal que foram tão caros ao imaginário social e a crença no regime salazarista.

Naiara Alves da Silva