Artigo: Uma homenagem a Wanderley Guilherme dos Santos

*Por: Gabriel Cohn

Sejamos francos, sem meios-termos. Com Wanderley Guilherme perdemos o último dos grandes do século XX. Com essa afirmação peremptória, não pretendo colocá-lo em posição tão altaneira que todos os demais se percam na planície. Pelo contrário, seu trabalho foi da maior importância na formação de gerações de pesquisadores que vêm assegurando o apreciável nível dos estudos políticos entre nós.

Foi modelar como intelectual e como pesquisador e também como professor (basta olhar os temas sempre diferentes e a bibliografia sempre renovada). Isso sem falar do trabalho institucional, além de participante assíduo no debate público, com quaisquer interlocutores.

Tal liberdade não causa surpresa em quem tenha acompanhado sua carreira, desde quando ainda muito jovem integrava em posição de importância o ISEB em sua área de origem, a Filosofia, passando pela escrita, já em 1962, de pequeno livro que se tornou clássico sobre o iminente golpe em 1964 e, mais adiante, pela atuação profissional no IUPERJ, atual IESP.

Ainda em sua primeira fase, uma demonstração da audácia e da insaciável inquietação intelectual que lhe eram próprias, no livro que registra sua breve fase “maoísta” com o imponente título de Introdução ao estudo das contradições sociais no Brasil.

Numa carreira de mais de meio século, Wanderley publicou uma torrente de livros e artigos, que vão desde a reflexão filosófica, sempre animada pelas preocupações políticas, até estudos empíricos pontuais.

Nestes, ele demonstrava sua perícia no manejo de grandes volumes de dados estatísticos, com breves incursões pela análise econômica. É nessa peculiar mescla de trato com as ideias e trato com a empiria que ele encontrava o terreno mais propício ao exercício de seu rigor analítico, aliado a uma imaginação sempre à beira de sair a galope.

Um dos livros em que aquela mescla transparece e que também ganhou foros de clássico é "Cidadania e justiça". Mas sempre seria possível destacar outros. Não é das piores coisas para um autor deixar para os que vieram depois a tarefa de selecionar entre o muito que deixou de bom aquilo que há de melhor. Wanderley Guilherme nunca ofereceu deixas àqueles que se dedicam à caça da mediocridade, na realidade era a própria encarnação da antimediocridade. 

Wanderley Guilherme certamente seria o primeiro a aceitar que outros de seu porte estão em formação aqui e ali na universidade brasileira, que saberá sobreviver aos ataques obscurantistas de que vem sendo alvo ultimamente. Outros virão, sim, ou já estão por perto. Mas é neste ponto que vem o essencial: sem ele e sua obra múltipla e plural os mais novos não encontrariam caminhos escarpados já demarcados, nem teriam como orientar seu olhar sem se perderem na linha do horizonte. 

Grande Wanderley, definitivamente você não poderia adotar a frase do poeta que passou a vida “à toa à toa”. 

Gabriel Cohn é professor emérito da FFLCH/USP e atualmente professor visitante na EFLCH/Unifesp.