Boletim Nº 2 - Covid-19: Escalas da pandemia e escalas da antropologia

No contexto de uma pandemia global, como a antropologia pode atuar e qual a importância dela e das demais Ciências Sociais nestes cenário?

A segunda edição do Boletim "Cientistas sociais e o coronavírus" recebe Jean Segata, professor de Antropologia Social. No artigo abaixo, intitulado "Covid-19: escalas da pandemia e escalas da antropoligia", Segata discorre sobre como a antropologia pode contribuir para este importante debate.

Confira abaixo!

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* Por: Jean Segata

Surto, epidemia e pandemia são termos do universo técnico da epidemiologia para a classificação temporal, geográfica e quantitativa de uma doença infecciosa. Eles são fundamentais para processos de vigilância e controle, definindo níveis de atenção e protocolos de ação.

No caso da Covid-19, por exemplo, quando um número elevado de pessoas da cidade de Wuhan, na China, passou a apresentar uma infecção respiratória grave e desconhecida em um curto espaço de tempo, ligou-se o alarme para o início de um surto.

Rapidamente, identificou-se a presença de uma nova variedade do vírus do tipo Corona e, em pouco tempo, casos semelhantes também apareceram em outras cidades e regiões do país e de fora dele. Era o início da epidemia. Ainda assim, como os números da doença continuaram aumentando em mais países e continentes, cobrindo quase todo o globo, a OMS decretou o que é considerado o pior dos cenários, a pandemia. 

Mas, como a antropologia pode atuar em eventos descritos como escala global? Qual a importância dela e das demais Ciências Sociais nestes cenários? 

O primeiro ponto a ser considerado é o da qualidade. A antropologia costumeiramente treina as suas pesquisadoras e pesquisadores com métodos qualitativos. Assim, números, casos, estatísticas ou prevalências têm rosto, trajetória e biografia para as suas pesquisas.

Eles partilham experiências e compõem ambientes singulares. Então, a pandemia precisa ser considerada como uma experiência vivida nos corpos e nas sensibilidades coletivas. Cada experiência conta; faz história. E nós seguimos essas histórias e aprendemos com elas. 

O segundo ponto é que é preciso ter em mente que fenômenos globais são sempre atuados a partir de contextos locais. O global se realiza a partir de materialidades e práticas situadas. Como já nos ensinou a antropóloga Anna Tsing em seu livro Friction, converter dados locais em escala global é um modo perverso de fingir universalidade.

Não há dúvidas que a China tem uma experiência pioneira com a Covid-19 e temos muito a aprender com o conhecimento que ela acumulou, incluindo os números e as estatísticas. Mas a doença, seus números e a vida na China compõem uma experiência única e que não pode ser usada como parâmetro global sem alguma crítica.

Eu estou pensando em algumas características particulares amplas, mas locais, de certas populações, como a de ser criança, jovem ou idoso, rico ou pobre, por exemplo. Penso no que se come, no quanto se fuma, o quanto se pratica de exercícios, como são as rotinas de trabalho, incluindo a sua emergente precarização.

Eu também me refiro a situações ambientais como a exposição à poluição e os efeitos locais das mudanças climáticas. Por fim, eu ainda penso nos direitos fundamentais, no acesso universal a informação e à saúde, às fontes de água e alimento seguros, e ainda aos níveis de violência doméstica e de gênero. Performar a universalidade de grupos de risco é em si um risco que precisa ser problematizado.

A antropologia em particular e as Ciências Sociais de maneira geral têm ferramentas para nos ajudar com isso. Por exemplo, tratar idoso como sendo grupo de risco precisa levar em consideração o que é viver (trabalhar, se aposentar, ter projeto) e envelhecer em certos contextos. Dizer que crianças são menos propensas à Covid-19 precisa considerar os ainda altos níveis de subnutrição vividos em diversos locais mundo afora.

Até a aparentemente trivial fórmula "água e sabão salva vidas" precisa ser situada. Sabidamente, muitas comunidades economicamente vulneráveis e vítimas de um racismo ambiental estruturado não têm água nas torneiras de forma regular e segura. Sabão é item de luxo. Praticar isolamento em casa implica em ter casa, e ter cômodos separados em quantidade suficiente para os seus moradores. E, como já alertou a antropóloga Debora Diniz, “o lar” nem sempre é um lugar seguro para quarentena, especialmente para as mulheres, em tempos de tamanha taxa de violência doméstica e feminicídio. 

O ponto é que a internacionalização da ciência e da saúde a partir do fim do século XIX até a sua aposta na transnacionalização por meio da Global Health nos acostumou com o cruzamento de fronteiras e escalas.

A promulgação da universalidade dos vírus, das bactérias, e dos vetores e seus efeitos têm permitido desde então a colonização dos conhecimentos locais sobre saúde e doença. Quando uma doença como a Covid-19 se espalha, ela leva consigo a sua ciência e suas técnicas. Ela transpõe métricas locais, estatísticas e ações, e isso pode provocar inúmeros equívocos.

Os números podem ser universais, mas os fenômenos e experiências que eles descrevem não são. Hoje, a Covid-19 é uma doença em escala global, mas isso não faz dela um fenômeno universal e a antropologia e as Ciências Sociais são imprescindíveis neste momento para pensar de forma situada os seus efeitos.

* Jean Segata é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, onde coordena o NEAAT - Núcleo de Estudos Animais, Ambientes e Tecnologias. Email: jeansegata@gmail.com / Twitter: @JeanSegata