Em homenagem a Leôncio Martins Rodrigues

Nota da ABCP em homenagem a Leôncio Martins Rodrigues


* Por: Maria Hermínia Tavares de Almeida

As Ciências Sociais no Brasil ficaram mais pobres. Leôncio Martins Rodrigues morreu na madrugada do dia 3 de maio último, em São Paulo, aos 87 anos.

Sociólogo do trabalho, e mais tarde da política, fez toda a formação e boa parte da carreira acadêmica na Universidade de São Paulo. Ali, integrou o grupo de sociólogos e sociólogas formados por Florestan Fernandes que, até ser aposentado pelo ato Institucional no. 5, em 1969, fora catedrático e regente da Cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Entre eles: Marialice Foracchi, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, e mais tarde, Gabriel Cohn, Lourdes Sola, José de Souza Martins e muitos mais. 

Na Sociologia I da USP, sob a liderança de Florestan, a ambição era fazer ciência social – com ênfase na palavra ciência – baseada em pesquisa empírica e dedicada à busca do que era específico na formação da sociedade brasileira. Com esse propósito, no começo dos anos 1960, foi fundado, junto à Cadeira, o Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (Cesit), voltado ao estudo dos agentes da industrialização então em plena marcha: empresários e trabalhadores.

Leôncio juntou-se ao grupo e aí iniciou a carreira que faria dele o maior sociólogo do trabalho brasileiro. Com investigação realizada no Cesit, fez o mestrado sobre greves no setor industrial. Já professor da Sociologia I, realizou pesquisa baseada em survey com operários da linha de montagem da empresa automobilística Willys Overland, base de sua tese de doutorado: Industrialização e atitudes operárias - estudo de um grupo de trabalhadores.

Publicada em livro, em 1970, além de inovar no método, desafiava com dados sólidos as ideias que, na academia e nas oposições de esquerda, confundindo realidade e desejo, atribuíam à classe operária aspirações transformadoras, quando não revolucionárias. No chão da fábrica, tratou de descrever os trabalhadores “tal qual eles eram” [1], com aspirações de ascensão social e grande mobilidade de emprego e ocupação.

Dos operários passou ao estudo dos sindicatos e do lugar que ocupavam no capitalismo em rápida transformação, tema de Trabalhadores, Sindicatos e industrialização (1974). No Brasil, foi o primeiro acadêmico a chamar a atenção para o declínio das organizações sindicais no mundo desenvolvido, em O Destino do Sindicalismo (1999).

Com o mesmo empenho de revelar realidades que se escondem por trás de discursos, estudou as bases sociais da CUT e da Força Sindical, em dois trabalhos pioneiros, CUT: os militantes e a ideologia (1990) e Força Sindical, uma análise sociopolítica (1993). Mostrou que, socialmente mais heterogênea, a central vinculada ao PT era liderada por sindicalistas oriundos do setor público e de segmentos de classe média, como professores, médicos e bancários, enquanto na Força Sindical predominavam ativistas de origem operária.

Aos poucos seus interesses foram se ampliando, embora mantivesse a perspectiva a partir da qual os observava. Assim, passou das organizações sindicais aos partidos políticos de esquerda, sempre indagando as origens sociais, a trajetória e as ideias políticas de ativistas e militantes. Desse esforço são exemplos O PCB - ideologia e militantes 1930-1964 (1981) e o estudo sobre as lideranças do PT.

Em 1981, trocou a sociologia pela ciência política da USP. Em 1987, tornou-se professor de pós-graduação em ciência política na Unicamp, onde atuaria até a aposentadoria em 2003.

Leôncio transferiu-se para a ciência política no momento em que, aqui, a disciplina cortava as amarras com a sociologia  e com a indagação dos fundamentos sociais do poder  e começava a trilhar o caminho do neoinstitucionalismo, já dominante no mundo acadêmico internacional.

Assim, ele se tornou uma voz quase única, embora potente e desafiadora, a nos lembrar que os agentes políticos, mesmo quando capazes de responder racionalmente a incentivos institucionais, são seres sociais e que suas raízes, experiências profissionais e políticas, bem como suas representações compartilhadas, influem na maneira como percebem o interesse próprio e as possibilidades abertas para realizá-lo. 

Sua contribuição à sociologia política concentrou-se no estudo dos representantes políticos e nas transformações trazidas com a democracia. Quem é quem na Constituinte, publicado em 1987, é um trabalho precioso sobre aqueles que fizeram nossa Constituição cidadã.

A ele seguiram-se Partidos, ideologia e composição social, de 2002, e seu último livro, no qual traçou o perfil dos deputados federais eleitos em 2002, publicado em Mudanças na classe política brasileira de 2006. Nele é retratada uma elite política cuja composição social vai sendo progressivamente alterada no processo democrático, pelo recrutamento fora dos quadros da elite política tradicional. Quem tivesse lido esse livro provavelmente teria se espantado menos com algumas das declarações de voto de nossos parlamentares na sessão em que se decidiu o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Leôncio Martins Rodrigues provavelmente conhecia o malfadado Qualis, mas, certamente, este nunca definiu sua “estratégia de publicação”, como ocorre com muitos colegas de profissão. A paixão genuína pela pesquisa e o empenho em desvendar o peso da origem social e das expectativas de mobilidade dos atores que estudou foram as grandes molas propulsoras de sua atividade acadêmica e de sua vasta produção, materializadas em 16 livros.

Leôncio não tinha muita paciência para teorias que não o ajudassem a por ordem nos dados que recolhia, com um cuidado quase obsessivo. Tampouco gostava de discussões metodológicas que não o ajudassem a desenhar uma boa pesquisa empírica.

Levava o intercâmbio intelectual a sério, por isso nunca deixou de participar animadamente dos congressos e seminários organizados por nossas principais associações científicas. 

Militante de esquerda na adolescência, foi para o resto da vida um liberal de fortes convicções social-democráticas e um crítico agudo das formas autoritárias de socialismo. Foi solidário com colegas perseguidos pelo regime militar e lhes deu apoio e abrigo, mesmo divergindo de suas ideias.

Leôncio foi um professor, orientador, colega e amigo extremamente generoso. Ao saber de sua morte, o brasilianista Kenneth Erickson, professor da City University of New York e que o conhecia desde os anos 1970, lembrou “sua generosidade e sua alegria em compartilhar tudo: suas ideias, conhecimentos, fontes, comida, vinho (ou uísque) e seu ferino bom humor”. Uma descrição perfeita.

NOTA:

[1] Ramalho, José Ricardo & Rodrigues, Iram Jácome, 2007. Sociologia do trabalho no Brasil – entrevista a Leôncio Martins Rodrigues, Revista Brasileira de Ciências Sociais 25 (72).