Entrevista: Confira os planos da nova diretoria da Regional Nordeste da ABCP

Tomou posse em 2019, para mandato de três anos, a nova diretoria da Regional Nordeste da ABCP, formada por Olivia Perez (Diretora Regional), Luciana Santana (Vice-Diretora) e José Henrique Artigas de Godoy (Secretário Executivo).

Na entrevista abaixo, os três falam um pouco do que os levou a aceitar este desafio e dos planos à frente da Regional Nordeste para fortalecer a Ciência Política na região.

Confira!

 

Apresentação:

Olivia Perez, Diretora Regional, é professora de ciência política da UFPI (Universidade Federal do Piauí)

Luciana Santana, Vice-Diretora Regional, é professora de ciência política da UFAL (Universidade Federal de Alagoas)

José Henrique Artigas de Godoy, Secretário Executivo Regional, é professor de ciência política da UFPB (Universidade Federal da Paraíba)

 

O que te motivou a aceitar esse desafio e quais são as linhas prioritárias de ação dessa gestão?

- Olivia:

Não sou de Teresina, moro aqui há três anos. Ao trocar nas aulas e fazer pesquisas, sintia dificuldades por não conhecer pesquisas sobre Teresina e região. Percebi que meus exemplos remetiam a São Paulo. Isso ainda me constrange. Sei que aqui são feitas excelentes pesquisas por profissionais incríveis, mas elas não são tão referenciadas.

A partir desse problema passei a me questionar sobre as dificuldades de publicização do que é produzido no Nordeste. Um das dificuldades é a parca presença de nordestinos em instâncias de decisão, em especial aquelas que formulam regras. Por conta disso, as regras a respeito do funcionamento de programas de pós-graduação, só para citar um exemplo, não remetem a particularidades regionais. Pensando então em como pautar a importância das desigualdades entre regiões e dentro do Nordeste, decidi tentar participar ao máximo dessas instâncias. 

Tenho recebido algumas demandas em relação à profissionalização da ciência política, o que facilitaria a colocação profissional dos formados na área, além de poder resultar em debates mais informados sobre política. Em um contexto de excesso de informações falsas ou com pouca reflexão, penso que os cientistas políticos têm um papel fundamental.

- Luciana:

Muitos fatores influenciaram a minha decisão de participar da chapa para a diretoria regional no Nordeste. Desde que cheguei ao estado de Alagoas percebo muitas carências, demandas e desafios no desenvolvimento de pesquisas na região. Apesar da boa qualificação de muitos profissionais que atuam na região, a visibilidade, reconhecimento e valorização dos cientistas políticos ainda é muito baixa.

Não sabemos nem quem são, o que produzem ou onde estão atuando esses profissionais. As exceções ficam por conta de pesquisadores filiados a programas mais consolidados ou que participam ativamente dos encontros da ABCP. A ausência desses dados prejudica a ampliação de redes e integração dos pesquisadores. A falta da profissionalização da Ciência Política contribui para essa situação, tema que deveria ser discutido pela ABCP. 

Além disso, falta uma política clara de incentivo a criação de novos cursos de pós-graduação na área. Alagoas, por exemplo, não possui um PPG ainda devido ao reduzido número de cientistas políticos na única Universidade Federal no estado. Além disso, acredito que há um tema que precisa ser discutido (de maneira prioritária) pela ABCP: a profissionalização da Ciência Política.

- José Henrique:

Em meio ao processo de ampliação da docência e da pesquisa pós-graduada que vem ocorrendo no Nordeste, uma série de novas áreas e linhas de atuação de cientistas políticos foram fomentadas, capacitando novos profissionais de alta qualificação na região, os quais se espalharam por universidades, institutos e centros de pesquisa, assim como por instituições da sociedade civil e governamentais, condicionando um forte adensamento da participação de cientistas políticos na região, como constatado pelo crescimento relativo da participação de profissionais do Nordeste em eventos científicos, como os da ANPOCS, da ABCP e da ABRI, assim como em publicações científicas e em atividades técnicas e governamentais.

Esse crescimento da Ciência Política no Nordeste, assim como a conjuntura de crise política e institucional vivenciada no país nos últimos anos, suscitou um conjunto de novas demandas, no sentido de uma maior organização institucional dos profissionais e o estímulo a uma mais intensa participação de cientistas políticos do Nordeste no debate nacional e regional.

Na Paraíba, em grande medida em função da criação de programas de pós-graduação em Ciência Política e Relações Internacionais junto às três Universidades do estado, à UFPB, à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), colegas se articularam para garantir uma participação mais ativa no sentido da organização da categoria, daí o interesse em participarmos dos debates sobre as condições de atuação dos profissionais junto à ABCP e sobre os mecanismos de financiamento das pesquisas científicas na região Nordeste.

A partir deste intento coletivo, meu nome foi indicado para representar o coletivo paraibano junto à regional da ABCP. A escolha de meu nome para participar institucionalmente do esforço de organização da categoria não refletiu um desejo pessoal mas, antes de tudo, uma intenção de dar visibilidade e organicidade ao intento comum dos colegas que hoje atuam no estado. Assim, embora eu tenha aceito a tarefa de representar a regional Nordeste junto à ABCP, minha atuação busca ancorar-se principalmente nas orientações egressas do coletivo de profissionais que atuam na Paraíba e que entenderam ser importante o fortalecimento da docência, da pesquisa e da organização de demais profissionais das áreas de ciência política e relações internacionais em âmbito regional e também nacional.  

 

Desde uma perspectiva regional, quais seriam os principais desafios colocados hoje para o fortalecimento da Ciência Política? 

- Olivia:

Acho que precisamos valorizar os trabalhos e profissionais daqui, o que resultaria também na publicização de problemas regionais. Nossa realidade é muito diferente de algumas regiões: temos pouco financiamento para pesquisa e menos recursos em geral. Cabe destacar que mesmo dentro do Nordeste existem desigualdades. Por exemplo, temos cursos de pós-graduação em ciência política mais fortalecidos, enquanto em outros estados ainda não existe. 

- Luciana:

Muitos desafios foram apontados acima. Todos são desafios importantes e necessários de serem enfrentados.

- José Henrique:

Pode-se destacar os desafios no sentido do fortalecimento da ciência política no Nordeste a partir de duas perspectivas principais, a primeira, relativa à organização institucional dos profissionais da área em diversos campos em âmbito nacional. E, em segundo lugar, pensar o fortalecimento da ciência política exige que se pense em estratégias de regionalização que busquem consolidar a ação dos profissionais em regiões periféricas que só na última década ganharam expressão, como o Nordeste.

O crescimento expressivo do número de cientistas políticos no Nordeste na última década abriu caminho para um processo de nacionalização e capilarização da atuação dos cientistas políticos, até então praticamente restritos às regiões Sudeste e Sul. Em paralelo à nacionalização da atuação dos profissionais da ciência política, ganhou importância a valorização daqueles que passaram a exercer atividades no Nordeste, locus onde o crescimento do número de politicólogos foi mais intenso neste último período, daí a importância de fortalecimento da pesquisa e da pós-graduação, visando a consolidação dos novos programas e frentes institucionais de atuação.

Por isso, pensar o fortalecimento da ciência política nacional exige o reconhecimento, a visibilidade e o crescimento das frentes de ação dos profissionais da área no Nordeste, uma das regiões mais pobres e carentes de desenvolvimento no país, o que tributa relevância ao esforço de intensificação das ações coordenadas de politicólogos da região, o que passa pela criação de redes de pesquisa e pelo estímulo ao debate sobre as perspectivas profissionais e os meios de financiamento do ensino e da pesquisa.

 

E como espera contribuir para responder a esses desafios, a partir da Regional?

- Olivia:

Penso que uma das chaves é pautar as especificidades da Região Nordeste. Outra é a valorização dos nossos profissionais.

- Luciana e José Henrique:

Pretendemos contribuir para ampliar e incentivar a participação de pesquisadores que atuam na região na ABCP; elaborar instrumento para identificar os cientistas políticos na região (censo); proporcionar espaços de integração entre pesquisadores que atuam na região; buscar diálogo permanente com a diretoria nacional, discutindo conjuntamente as demandas e apoios institucionais para os pesquisadores da ABCP na região; buscar espaços para publicização de produções científicas; propor eventos que integrem pesquisadores que atuam na região; e contribuir com a discussão sobre profissionalização da Ciência Política. 

 

Principais propostas discutidas pela chapa que assumiu a direção da Regional Nordeste:

  • Criar debates públicos entre Nordeste

  • Articular com as FAPs pesquisas e financiamentos 

  • Restaurar os fóruns dos cientistas políticos do Nordeste na ANPOCS 

  • Cota para apresentação de trabalho no congresso da ABCP

  • Publicação de livro ou capítulo sobre desenvolvimento na região com capítulos coletivos 

  • Mesas nas nove universidades com discussão dos capítulos

  • Manutenção do Boletim ABCP Nordeste

  • Inserção em fóruns de decisão (CAPES, ANPOCS)

  • Rever o Encontro das Ciências Sociais no Nordeste, com contato com colegas da sociologia e antropologia