ESPECIAL ABCP: As ações do Mato Grosso do Sul no enfrentamento à pandemia

Este é o décimo texto da série de análises contextualizadas de cada um dos estados brasileiros, no especial "Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil", publicado entre os dias 8 e 12 de junho na página da ABCP. Acompanhe!

 

Mato Grosso do Sul: (des)articulação e alinhamento

Nome dos(as) autores(as): Déborah Silva do Monte; Marcos Prudencio e Elaine Regina Prudencio Hipólito da Silva

Instituições às quais os(as) autores(as) estão vinculados(as): Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

Titulação dos(as) autores(as) e instituição em que a obtiveram: Doutora em Relações Internacionais (PUC Minas); Doutorando e Mestre em Geografia (UFMS); Mestre em Enfermagem (UFMS)

Região: Centro-oeste

Governador (Partido): Reinaldo Azambuja (PSBD)

População:  2.778.986 habitantes

Número de municípios: 79

Casos confirmados em 08/06/2020: 2.324

Óbitos confirmados em 08/06/2020: 22

Casos por 100 mil hab.: 83,62

Óbitos por 100 mil hab.: 0,791

 

* Por: Déborah Silva do Monte; Marcos Prudencio e Elaine Regina Prudencio Hipólito da Silva

O surto da COVID-19 em Mato Grosso do Sul tem apresentado um aumento relevante no número de casos em relação aos dados do último mês. Em 01/05 o estado registrou 247 casos confirmados e, em contrapartida, no dia 08/06 já são 2.324 casos, correspondendo a um aumento de 940%. Porém, 22 óbitos foram registrados até o momento, representando 0,9% de letalidade, a mais baixa taxa no País.

Evolução diária por data de notificação, 01/05 a 08/06.
Evolução diária por data de notificação, 01/05 a 08/06.

Fonte: Painel COVID MS, 2020.

Os números, no entanto, confirmam que o vírus vem avançando e evidenciando a sua interiorização no estado, indo de encontro ao cenário do restante do Brasil. Dos 79 municípios, 52 (66%) já confirmaram a sua circulação em seus territórios, vindo em destaque no ranking as pequenas cidades de Guia Lopes da Laguna, com uma população de 10.309 habitantes e uma taxa de incidência da doença de 2.435,6 casos/100.000 habitantes (241 casos confirmados), e Douradina com 5.294 habitantes e uma taxa de 1.164,8 casos/100.000 habitantes (69 casos confirmados). Dourados, segundo município mais populoso do estado, é o novo epicentro da pandemia com 613 casos confirmados, sendo 78 na reserva indígena. 

Fonte: Painel COVID MS, 2020.
Fonte: Painel COVID MS, 2020.

O quadro do expressivo incremento no número de pessoas infectadas e a propagação do vírus em grande parte dos municípios apontam para um importante e preocupante problema: os baixos índices de isolamento social apresentados pelo estado desde o início do combate à disseminação da doença. A taxa de isolamento social girando em torno de 48,9% vai na contramão da recomendação feita pela OMS de 70% das pessoas em casa.

Em face das tentativas de conter a doença, a implantação por parte das autoridades sanitárias do drive-thru de testes rápidos para sintomáticos respiratórios, nas quatro maiores e principais cidades do estado, realizou 5.484 exames até 06/06. Ao confrontar este total com uma população de 2,778 milhões de pessoas, fica evidenciada uma cobertura de 0,20% da população testada para a COVID-19.

Com o aumento crescente dos casos, o estado vem engendrando vários esforços para o enfrentamento da doença, como a ampliação do número de leitos, ainda que apresente uma taxa de ocupação de 7% dos leitos clínicos e 10% dos leitos de UTI. Ressalta-se, porém, que uma parcela significativa dos leitos de UTI está concentrada na capital e o restante distribuídos em alguns municípios do interior, fazendo-se necessário o deslocamento daqueles que precisarem de cuidados intensivos dos municípios desprovidos desse recurso.

(Des)coordenação no contexto de crises

No contexto da pandemia do novo coronavírus, o Brasil também passa por uma crise política, federativa e institucional causada, principalmente, pela presidência da República. Em linhas gerais, os discursos e as ações de Jair Bolsonaro incentivam o afrouxamento do isolamento social e dificultam a adoção de critérios técnicos e científicos como diretrizes para as políticas de combate à pandemia. 

Reinaldo Azambuja (PSBD) assinou, juntamente com outros 19 governadores, um manifesto que questiona as ações e os discursos da presidência em relação à pandemia e aos ataques às instituições democráticas. Tal ato pode ser interpretado como um não alinhamento às diretrizes políticas federais e evidencia a descoordenação da gestão da pandemia. A primeira ação do executivo estadual em relação à COVID-19 ocorreu em 13/03, após a declaração do status de pandemia pela OMS, em 11/03/2020. 

Desde lá, o governo estadual tem lançado medidas de suspensão de serviços públicos, fiscalização sanitária, de assistência social e de incentivos econômicos, entre outras temáticas. Apesar da flexibilização do isolamento social em várias cidades, o governo estadual não atuou neste sentido. Contrariamente, há manifestações relacionando o aumento do número de casos no estado ao enfraquecimento do isolamento social [1].

A capital Campo Grande é governada por Marcos Trad (PSD), primo do ex-ministro Luís Henrique Mandetta. Trad criticou a postura do presidente Jair Bolsonaro, que defende a necessidade de retomar as atividades econômicas e estabelecer um isolamento "vertical", afirmando que tais argumentos levariam a população a rejeitar os decretos municipais [2]. No entanto, a partir de 17/04, as ações da prefeitura passaram a instituir a abertura do comércio (Decreto 14.257) e serviços, como academias (Decreto 14.256), em observância ao Plano de Contenção de Riscos [3].

A prefeitura de Dourados, por sua vez, age de maneira mais alinhada ao governo federal. Délia Razuk (PTB) [4] instituiu medidas de flexibilização do isolamento social que autorizaram o funcionamento dos setores comerciais e de serviços (Decreto 2.511), academias (Decreto 2.543), shoppings e igrejas (Decreto 2.575), sendo que o Decreto 2.511 menciona explicitamente alinhamento às orientações do governo federal de que “o enfrentamento da Pandemia [...] não pode causar a paralisação da Economia”.

O Mato Grosso do Sul se encontra em uma intrincada situação de aumento de casos, especialmente no interior, avanço do vírus em populações mais vulneráveis e descoordenação entre os executivos estadual e municipais. Para controlar a pandemia e assegurar um atendimento adequado às demandas de saúde é importante elevar o isolamento social. Para tanto, os esforços do poder público, somados aos da população em geral, são fundamentais para evitar o avanço significativo do vírus, bem como o colapso do sistema de saúde.

Referências bibliográficas:

[1] ttp://www.ms.gov.br/afrouxamento-do-isolamento-social-tem-relacao-direta-com-aumento-de-casos-de-coronavirus/ e http://www.ms.gov.br/onda-de-positivos-para-covid-19-e-fruto-do-descaso-com-distanciamento-social/

[2] https://www.correiodoestado.com.br/politica/primo-de-mandetta-prefeito-marcos-trad-critica-bolsonaro/370594

[3] https://nepolufjf.wordpress.com/2020/04/26/campo-grande-dilemas-e-alinhamentos-frente-a-pandemia/

[4] O PTB passou, recentemente, a compor a base de apoio de Bolsonaro.