Iniciativa da ABCP defende a Democracia e a Ciência e reafirma o vínculo entre elas

A Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) acredita que a Democracia e a Ciência estão intrinsecamente vinculadas. No contexto brasileiro, em um momento de ataques à Democracia e à Ciência, é imprescindível defendê-las e reafirmar a importância desta conexão, que é também parte da história da nossa Associação e da própria disciplina.

A série “Democracia e Ciência”, produzida para nosso canal no Youtube, traz depoimentos de presidentes da ABCP sobre a necessidade de um ambiente democrático para a Ciência; e a importância da pesquisa para a construção, a consolidação e ampliação da Democracia.

O momento nos levou a essa iniciativa, mas a relação da Ciência Política com a Democracia ultrapassa o contexto atual. “A Democracia é objeto por excelência da nossa Área e, ao mesmo tempo, a Ciência Política brasileira ganhou forma, se ampliou e ganhou mais solidez como área científica no processo de consolidação da Democracia”, aponta Flavia Biroli, presidente da ABCP desde 2018. Ela explica que a produção científica depende de um ambiente de liberdade “para definição de objetos relevantes, métodos e acesso a informações” e que “o debate é fundamental para o aprimoramento das pesquisas. Só na democracia pode haver um ambiente de segurança para pesquisadores e pesquisadoras”, em seu papel de levantar informações, produzir análises e colocá-las em discussão.

Renato Perissinotto (presidente da ABCP na gestão 2016 a 2018) afirma que a Democracia é fundamental para a Ciência Política, pois “um regime autoritário inviabiliza a prática científica, cerceando a liberdade de formular questões, de responder a estas questões e de ter acesso a dados necessários para responder a estas questões”.

Leonardo Avritzer (presidente da ABCP na gestão 2012 a 2016) aponta para um “processo de degradação da Democracia por dentro”. Para ele, “As pessoas que ocupam posição de destaque nas instituições democráticas nacionais adotam atitudes que degradam a Democracia” e isso lança um duplo desafio para a ciência, na medida em que a produção cientifica é um processo horizontal, que tem na Democracia um objeto, mas também um método de investigação cientifica.

Fabiano Santos (presidente da ABCP na gestão 2008 a 2012) aponta para o ressurgimento de governos francamente autoritários no mundo e para o fato de que “não existe uma verdade no mundo social ou no mundo político, mas existe uma forma de governar que faz com que a sociedade produza a sua verdade: a Democracia, essencial para a Ciência Política e para todo conjunto da ciência brasileira”.

Maria Hermínia Tavares de Almeida (presidente da ABCP de 2004 a 2008) afirma que a Ciência Política brasileira, nestes 30 anos de Democracia, “deu uma contribuição importante para as teorias empíricas da democracia no mundo”. Ela conta que “o que ninguém da minha geração imaginou é que, tendo a Democracia feito esta trajetória importante do ponto de vista intelectual e existencial”, e sendo ela “uma ideia, uma agenda de pesquisa e uma ordem que há de ser preservada se queremos ter uma vida civilizada, viveríamos uma situação em que a Democracia volta a estar sob ameaça”. “Entendê-la, diz, não se separa do empenho de defendê-la”.

Lourdes Sola (presidente da ABCP na gestão 1996 a 2000) afirma que “Ciência Política e Democracia ou democratização são irmãs siamesas”. Para ela, a democracia não deve ser residual nos modelos econômicos e, esta transdisciplinaridade deve acontecer na Área. “Precisamos nos habilitar a incorporar a Economia nos nossos modelos junto com a Democracia”, diz. Para isso, ela afirma que é preciso estar atentos(as) a valores comuns como “a lealdade às instituições democráticas, a preocupação com que todos os cidadãos tenham uma vida plena e o desejo de criar uma economia que permita sustentar a prosperidade dos cidadãos em bases dignas”.

Como menciona ainda Flávia Biroli, o contexto atual da pandemia também nos dá um lugar, “como ciência humana, social e política”. Temos muito a dizer sobre o combate a esta pandemia, mas também “sobre o que é fazer ciência nesse contexto”. Para ela, “a Ciência Política tem condições bem estabelecidas para contribuir para o aprimoramento das políticas e para a inclusão da temática complexa e multifacetada das desigualdades sociais e da vulnerabilidade humana", apresentando alternativas para o "aprimoramento das instituições", "para que não se aprofundem as desigualdades e para que possamos construir uma sociedade com justiça social e cidadania”, conclui.

A ABCP – por meio da SBPC – está conectada à Campanha Brasil pela Democracia, que congrega mais de 70 organizações entre entidades nacionais, movimentos sociais, articulações pró-democracia, coletivos populares e organizações não-governamentais para reforçar a mobilização em defesa da democracia, do primado da vida e da universalidade de direitos, liberdades e oportunidades no país. A iniciativa que agora levamos a vocês foi feita nos marcos dessa campanha.