#CiênciaEmDefesaDaVida reúne pesquisadores em debate virtual

Foi realizada nesta segunda (8), com transmissão via YouTube, a live "Democracia e resistência em defesa da vida”, evento que integra a iniciativa #CiênciaEmDefesaDaVida, parceria entre a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), articuladas à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e com apoio da Fundação Ford.

Com mediação de Edna Maria Ramos de Castro (UFPA e SBS), estiveram presentes Ildeu de Castro Moreira (SBPC), Alfredo Wagner Berno de Almeida (UEA e UEMA) e Gilberto Hochman (Fiocruz), num debate que reforçou os valores da proteção da vida e da democracia como pilares essenciais para a defesa da ciência.

Diante do bicentenário da Independência, comemorado em 2022, o professor Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC, frisou, na abertura da conversa, a necessidade de construção de projetos nacionais, pensados coletivamente, que desenvolvam a educação, a ciência e tecnologia, e que utilizem de maneira inteligente os recursos, visando a recuperação econômica do país.

"A China, em mil novecentos e noventa e poucos, tinha o mesmo PIB do Brasil, investia a mesma coisa em ciência e tecnologia do que o Brasil. Hoje, nós compramos os insumos da China, estamos dependentes deles na produção das vacinas, temos inúmeras dependências. O que eles fizeram de diferente? Em várias décadas, eles apostaram na educação, na ciência e tecnologia, em políticas integradas, num projeto nacional, e hoje estão disputando com os Estados Unidos a liderança mundial, o que mostra que recursos para essas áreas [ciência e educação] são fundamentais".

Embora classifique este como um "momento dramático e trágico" da experiência brasileira, acentuado pelos negacionismos e pelo boicote inicial à vacinação pelo governo federal, Gilberto Hochman, pesquisador e professor da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz, destacou o seu "leve otimismo", considerando o potencial de a campanha de vacinação sensibilizar a sociedade e, assim, alterar o ambiente político brasileiro.

"Que a gente possa, inclusive, pressionar o Congresso, porque deputados estão muito mais sensíveis. O mundo da política é importante, quer dizer, prefeitos querem vacinar (...) Nunca se falou tanto de vacina, uma discussão pública sobre vacina, é quase um laboratório feito a céu aberto. Claro, tem aqueles que querem destruir o laboratório, mas tem uma porção de gente entendendo, opinando". 

Por fim, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, conselheiro regional e coordenador da Comissão de Direitos Humanos da SBPC, propôs uma reflexão acerca dos conceitos de democracia, defesa da vida e resistência nas últimas duas décadas. Falando de Manaus, Alfredo destacou o processo de savanização da Amazônia, bem como o cenário desolador da capital amazonense diante da covid-19, associando esses processos à lógica dos campos de concentração.

"[Devemos] pensar a Amazônia não só como desamazonização, ou como a savanização levada ao extremo, mas também como um campo de concentração, onde as oportunidades de defesa da vida foram cerceadas e as oportunidades de manutenção da vida estão inteiramente ameaçadas (...) Estamos vivendo, do meu ponto de vista, uma situação de crise da democracia, mas, também, curiosamente e paradoxalmente, de avanço dessa noção de resistência (...) Neste momento, resistir significa não renunciar à construção de sua própria existência", destacou, apontando para os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e povos tradicionais da Amazônia como exemplos de resistência que precisam ser compreendidos.

Assista abaixo à integra do debate, disponível no canal SBS tv: